




CAPA, CONTRA-CAPA E ORELHAS DO LIVROS



        Primeiro romance escrito por Luis Fernando Verissimo, O Jardim do Diabo foi publicado em 1988 e  obra cultuada por seus leitores. Inteiramente revisto pelo autor, este thriller bem-humorado e inteligente volta em nova edio, atendendo  expectativa dos seus muitos fs. Uma mulher  encontrada esfaqueada em seu quarto - na parede, escritas com sangue da vtima, palavras em grego.  isso que o inspetor Macieira conta a Estevo, um escritor de histrias policiais, sempre assinadas com um pseudnimo americano. O inspetor Macieira vai atrs de Estevo por um detalhe - a cena do crime  exatamente igual  descrita por ele em seu ltimo romance. O assassinato, no entanto, ocorreu antes de o livro ser lanado. A partir dessa visita, os dias montonos de Estevo comeam a ser invadidos por seus personagens. Vida e fico passam ento a disputar um jogo fascinante de que o leitor  a grande testemunha.
        Estevo  o tipo de escritor de sucesso que ningum conhece. Publica um livro por ms e, ainda assim, no freqenta a lista dos best-sellers. Ele escreve livros de bolso - aquelas brochuras mal impressas em papel barato, vendidas em bancas de jornal. A cada nova histria, um novo nome aparece na capa.  assim que funciona: um pseudnimo diferente a cada livro, todos nomes americanos. Suas histrias - uma mistura bem dosada de paixes avassaladoras, crimes misteriosos, paisagens exticas - seguem uma frmula: a grande trepada por volta da pgina 40, o encontro final com o vilo e o desenlace, a partir da 90. Seu heri  Conrad - isso no muda, ele sempre se chama Conrad.
        Estevo  um homem de poucos anseios e nenhuma esperana. Sua vida segue uma insossa rotina, bem diferente daquela que cria para seus personagens. Passa os dias batendo na velha mquina e tentando no prestar ateno ao desfile de desgraas que o rdio da empregada lhe serve toda manh. No seu diminuto mundo, h ainda Llia, uma moa que vem duas vezes por semana para a faxina, mas sempre acaba em sua cama. Essa  a vida de Estevo at o dia em que o inspetor Macieira bate  sua porta. Uma mulher foi assassinada e, estranhamente, a cena do crime repete exatamente algo descrito no ltimo livro de Estevo. A partir de ento, vida e obra de Estevo perdem os limites. Ele se torna personagem de seus prprios enredos.
        
        
        Ele  um dos autores mais queridos e respeitados da atualidade. Com seu humor fino e inteligente, Verissimo est sempre conquistando novos leitores.
        O Jardim do Diabo  o primeiro romance do autor e tambm a primeira narrativa longa de fico publicada na Srie Ver!ssimo.
        Toda sua obra - revista e atualizada - est sendo reeditada pela Objetiva. Na srie Ver!ssimo, j foram lanados: As Mentiras que os Homens Contam, Comdias para se Ler na Escola, A Mesa Voadora, Sexo na Cabea, Todas as Histrias do Analista de Bag, Banquete com os Deuses, O Melhor das Comdias da Vida Privada.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
LUS FERNANDO

VER!SSIMO

O Jardim do Diabo

Romance
        
        
        Embora vigies, a morte conspira nas entrelinhas.
        Alcides Buss, Segunda Pessoa
        
        
        
        
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        Me chame de Ismael e eu no atenderei. Meu nome  Estevo. Como todos os homens, sou oitenta por cento gua salgada, mas j desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simblica. Como a prpria baleia, vivo de pequenos peixes da superfcie, que pouco significam mas alimentam. Voc talvez tenha visto alguns dos meus livros nas bancas. So aqueles livros mal impressos em papel jornal, com capas coloridas em que uma mulher com grandes peitos de fora est sempre prestes a sofrer uma desgraa. Escrevo um livro por ms, com vrios pseudnimos americanos, embora meu heri - no sei se voc notou - sempre se chame Conrad. Conrad James. Herman Conrad. Um ex-marinheiro de poucas palavras. Um peixe pequeno, mas mais de uma cidade foi salva da catstrofe pela sua ao decisiva entre as pginas 90 e 95. Tenho uma frmula: a grande trepada por volta da pgina 40, o encontro final com o vilo, e o desenlace, a partir da pgina 90. Sobrevivo. Nunca mais vi o mar. Pensando bem, no sa mais de casa desde o meu acidente. Perdi o p. No quero falar disso. Tem uma mulher, Maria, claro, que vem cozinhar pra mim e sempre chega com notcias da decomposio da sua famlia. "Minha me t com a urina preta", justo quando eu estou tomando caf. Tem uma moa que vem duas vezes por semana fazer a faxina mas sempre acaba na minha cama. H dois anos que ela vem, Llia, Llia e ainda no espanou um livro.  assim que eu vivo. Exile and cunnilingus. Mas no era isso que eu queria contar.
        
        O RDIO. O dia inteiro, o rdio.
        - Abaixa o rdio, dona Maria!
        Ela no ouve. No pode ouvir, com o rdio nessa altura.  um programa de auditrio que parece durar o dia inteiro. Um homem ouve histrias. Histrias de privao e desespero. Pais  procura de filhos perdidos. Barracos incendiados. Dramas conjugais. Membros amputados. O homem que conduz o programa d conselhos e pede ajuda. Diz que Deus no abandona as suas criaturas. O auditrio aplaude. Dona Maria no me ouve.
        - Abaixa o rdio, dona Maria!
        - Como  o seu nome? Diga o seu nome.
        - Glria.
        - E qual  o seu problema, dona Glria?
        -  meu filho, o Zarolho.
        - Ele no tem um olho. O seu filho precisa de um olho.
        - Mas no era isso que eu queria contar.
        - Fala, dona Glria. Ateno, auditrio.
        - Ele e o pai vivem brigando. Ele  maconheiro.
        - O Zarolho ou o pai?
        - O Zarolho.
        - E o seu marido briga com o Zarolho porque ele  maconheiro,  isso, dona Glria?
        - Meu marido, o Cand, quer matar o Zarolho. Disse que se ele aparecer em casa, mata ele com um faco. O Zarolho  bandido, mas  do nosso sangue.
        - Seu marido est ouvindo o programa, dona Glria?
        - T.
        - E como  o nome dele?
        - Cand.
        - Olha a, seu Cand. Filho  filho. No mate o seu filho, seu Cand. Talvez ele seja assim porque no teve o amor que precisava na infncia, no , auditrio? Tente ajud-lo. O Zarolho j tem ficha na polcia, dona Maria?
        - Tem.
        - Manda ele vir aqui falar comigo.
        - Obrigada.
        - Abaixa o rdio, dona Maria!
        
        A PRIMEIRA VEZ que vi o mar foi numa gravura, num livro da biblioteca do meu pai. Uma gravura escura, o mar negro e revolto, grandes nuvens cinzentas em cima, um veleiro indefeso sobre o dorso de uma onda gigantesca, condenado ao abismo. Eu ainda no sabia ler. Depois vi o mar, vejo-o em fotografias e filmes coloridos, mas sempre que penso no mar  nessa gravura sombria, e na minha imaginao o seu cheiro  o cheiro de livro velho. O livro ainda deve estar por aqui. Fiquei com todos. Moro num pequeno apartamento, sala, quarto e cozinha num prdio barulhento e mido. Os livros esto empilhados pelo quarto e pela sala, cobertos de mofo e poeira. Ningum limpa. A Llia levanta a poeira quando passa da porta para o quarto e do quarto para a porta, duas vezes por semana. A sujeira s migra. A dona Maria no entra na sala. Chega de manh, d a ltima notcia de casa ("Minha irm t com escarro verde", e eu desisto do iogurte) e vai direto para a cozinha ligar o rdio. Eu j tive a grande fome de entender tudo, entende? De olhar bem no olho injetado do mundo e me entender tambm, mas s o que ficou disso foi um certo enfado literrio e um crebro entulhado. s vezes tenho a impresso de que quando sacudo a cabea posso ouvir a quinquilharia solta I dentro. Evito sacudir a cabea. Me movimento pouco. A editora manda buscar os livros quando ficam prontos. O ltimo a sair tinha sido Ritual Macabro. Um ex-marinheiro, Conrad James, chega a uma cidade aterrorizada por um assassino que todos conhecem como "O Grego". Conrad alcana o Grego mas, pela primeira vez era meus livros, o vilo no morre. O Grego foge. Fica a sugesto de que ele voltar num prximo livro. Era este livro que eu estava escrevendo quando a campainha da porta tocou. Era isto que eu queria contar. Eu estava chegando  grande trepada da pgina 40 quando a campainha tocou.
        - Dona Maria, a porta!
        Dona Maria no ouviu. Para sair da minha cadeira preciso colocar a mquina de escrever que fica no meu colo sobre uma mesinha, pegar minha muleta, levantar da cadeira, a gua salgada fazendo slosh-slosh I dentro - "Dona Maria, a porta!" -, atravessar a sala lentamente cuidando para no derrubar nenhuma pilha empoeirada de livros...
        - Dona Maria, abaixa esse rdio!
        Era um homem que se apresentou como inspetor Macieira, "como o conhaque". Mandei-o entrar. Ele mancava. Era ruim da outra perna, o que devia ter me advertido de alguma coisa. Pedi para ele sentar, mas ele preferiu esperar que eu sentasse primeiro. Disse:
        - O senhor  Stephen Eliot!
        Respondi que bem, hm, ahn, mas ele continuou, dizendo que era meu leitor constante e admirador. Uma mentira, j que eu s usara aquele pseudnimo no ltimo livro. Disse que tinha grande prazer em me conhecer.
        - Ento sente - disse eu, como se s meus admiradores pudessem sentar, na minha casa.
        - Desculpe a indiscrio... - comeou ele, apontando para a minha perna.
        - No quero falar disso.
        - Desculpe.  que eu tambm perdi um p, mas fiz uma prtese e hoje me movimento normalmente. O senhor no...
        - Dona Maria, abaixa esse rdio!
        O grito o assustou e ele, prudentemente, aproveitou a interrupo para mudar de assunto. Era um homem da minha idade, pequeno, magro, bem-vestido e tinha os olhos saltados, como se o colarinho apertado os tivesse empurrado para fora das rbitas.
        - Como disse - continuou -, sou seu leitor atento.
        - Pensei que ningum lesse meus livros - disse eu, mentindo tambm. Sabia que eles vendiam razoavelmente bem, e regularmente, nas bancas. Vivia deles. Perguntei de qual ele gostara mais. Ele hesitou, depois respondeu:
        - Do ltimo.
        - Fria Assassina? - perguntei, para test-lo.
        - Ritual Macabro.
        O filho-da-puta me lia mesmo. Ele continuou:
        - Alis,  sobre esse livro que quero conversar com o senhor. Me deram seu endereo na editora.
        - Pois no.
        - Antes de mais nada, gostaria de perguntar... De onde o senhor tira suas idias?
        Pensei em sacudir a cabea, para que ele ouvisse a quinquilharia solta. Respondi que tirava minhas idias da minha cabea. Ele fez "Hmm", como se a resposta o desagradasse. Talvez esperasse que eu dissesse que tinha um fornecedor. Um contrabandista de idias. De confiana. Idias legtimas. Se quiser, eu lhe apresento.
        - A figura do Grego  pura imaginao? Hesitei. Era? Era.
        - .
        - No  baseado em ningum? Algum que o senhor conheceu? Algum de quem o senhor ouviu falar?
        - No.
        - Tem certeza?
        - Por qu?
        -  Porque, senhor Eliot, existem algumas, como direi, coincidncias engraadas. Perdo, engraadas no. Trgicas, na verdade.
        - Que coincidncias?
        - O senhor no leu no jornal sobre a morte daquela mulher, no Jardim Paraso? Ms passado?
        - No leio jornais.
        -  Ela foi esfaqueada vrias vezes. A cama ficou ensopada de sangue. Ainda no sabemos quem  o assassino. Ou a assassina. Ou os assassinos.
        - E da?
        Olhei, ostensivamente, para a mquina de escrever, onde eu deixara Conrad, no meio de uma linha, introduzindo a sua mo bronzeada pelo sol e o sal de muitos mares na blusa de Linda, seus dedos buscando o bico daquele seio que durante toda a tarde o desafiara atravs do tecido fino da blusa e que agora ia ver o que era bom. Eu preciso trabalhar, inspetor!
        - Tem uma coisa que a imprensa no deu porque os reprteres no ficaram sabendo. O assassino - ou a assassina, ou os assassinos - usou o sangue da vtima para escrever coisas na parede. Coisas... em grego, Sr. Eliot.
        Ele ficou me olhando, esperando uma reao. Esperou em vo. Continuou:
        - O assassino agiu exatamente como o assassino do seu livro. O Grego.
        - E eu com isso?
        - Bem, eu...
        - No me responsabilizo pelo que os meus leitores fazem!
        - No era um leitor imitando o livro.
        - Por que no?
        - Porque o livro saiu depois do crime.
        Agora era a minha vez de perguntar se ele tinha certeza. Tinha.
        - Na editora, muitas pessoas lem o livro antes de ser publicado - insisti. - Pode ter sido um revisor. Os revisores so capazes de tudo. Talvez uma vingana, pela minha colocao dos pronomes.
        Ele sorriu tristemente. Eu o estava decepcionando. Abri os braos.
        - Ento  uma coincidncia.
        - Claro que  uma coincidncia. Mas o senhor...
        - No me chame de senhor - disse eu. Era uma advertncia.
        - Voc h de convir que eu precisava investigar esta coincidncia. Ns, da polcia, desconfiamos das coincidncias.
        - Ns, os escritores, no podemos viver sem elas.
        - O fato de ns dois no termos um p, por exemplo...
        - No quero falar disso.
        - Claro, claro. No h possibilidade de o senhor, de voc, ter ouvido alguma conversa, algum comentrio sobre o crime, e ter usado ele, inconscientemente, como inspirao para...
        - Quando foi o crime?
        - Ms passado. Dia 12.
        - O livro j estava na editora.
        Ele levantou as mos na frente do peito antes de bater com elas levemente nas coxas, querendo dizer que isto encerrava a questo. Olhou em volta e comentou a quantidade de livros empilhados. Eu disse que a maioria era do meu pai. Ele disse que infelizmente no tinha tempo para ler.
        - S leio porcaria. Ento se deu conta.
        - Epa. Desculpe.
        - O que  isso? Tudo bem.
        - Eu no quis dizer porcaria. Quis dizer livros de leitura rpida. Que se vendem em banca.
        - Porcaria. Tudo bem. Histrias de quinta categoria.
        - No. Os seus so muito bons.
        -  O que  isso? Eu uso pseudnimos diferentes. Como voc sabe que so todos meus?
        - Pelo estilo. E o heri. Sempre  um ex-marinheiro.
        - E se chama Conrad.
        - Isso eu no tinha notado. Por que Conrad?
        - Dona Maria, o rdio!
        - Curioso, autores diferentes, mas sempre o mesmo heri.
        - E a mesma histria.
        - O senhor est escrevendo um agora? Voc.
        - A continuao do Ritual Macabro. J estou na metade.
        - No me diga! O Grego tambm est nesse?
        Deixa eu ver se me lembro. J faz algum tempo, este primeiro encontro. Entardecia. Era primavera? Era primavera. Eu no gostava de interrupes no meu exlio, mas de alguma maneira aquele homem me interessava, com seus olhos saltados e suas coincidncias e o seu p postio, sob a luz esmaecida que entrava pela janela. No sei se foi naquela primeira vez que ele me contou que seu p era de cabrito. De cabrito! Ele perguntou se o Grego tambm estava no novo livro e eu respondi que estava.
        - E o que ele anda aprontando?
        - Bom. Depois da cena final de Ritual Macabro, Conrad passa alguns meses num hospital. Quando comea o novo livro, ele est pronto para sair do hospital. Recebe a visita de uma mulher, linda, linda, chamada Linda. Ela traz um envelope com dinheiro, dez mil dlares, e um bilhete. O bilhete  do Grego e diz apenas: "No desista. " Quando ele vai perguntar para a mulher o que significa aquilo, descobre que a mulher no est mais ali. Ningum sabe quem  ela ou de onde ela veio. Ele sai do hospital. Sente uma grande nostalgia do mar. Usa parte dos dez mil dlares para pagar alguns estragos que andou fazendo na cidade na caa ao Grego.
        - Eu me lembro.
        - Procura o inspetor Hennessy, da Interpol. Seu melhor amigo. Um irmo mais velho.
        - Hennessy, claro. Como o conhaque.
        - Diz a Hennessy que vai tirar umas frias. Que est enojado de tudo. Que se um monstro como o Grego pode escapar da justia, ento a justia no significa mais nada. Diz que, face a face com o Grego, olhou no olho injetado do Mal e sentiu uma vertigem, sentiu que aquele monstro poderia carreg-lo para o fundo, e por isso recuou, e pela primeira vez na sua vida no confiou nas suas foras.
        - No parece o velho Conrad falando.
        -  Neste livro ele est mudado. Se sente velho, sujo, diz que quer voltar para o mar para se reencontrar. Sentir o sol e o sal na sua pele. O cheiro de livro velho. O mar de Ulisses, o mar de Sinbad e de Nemo...
        - De Cames.
        - Quem?
        - Cames. Os portugueses. Grandes navegadores.
        - Ah. . Conrad compra passagem para um cruzeiro de luxo. Ele est profundamente abalado pela sua experincia em Ritual Macabro. A figura do Grego o perturba de uma maneira inexplicvel. No apenas porque foi o primeiro vilo que ele no justiou antes da pgina 95, o primeiro que o fez recuar. Mas porque ele sentiu que, no Grego, tinha tocado em alguma coisa mais profunda e obscura do que uma vocao criminosa ou uma patologia ou apenas um tipo literrio.
        Senti um certo desconforto no inspetor, que obviamente tambm no queria ser carregado para o fundo. Preferia histrias simples. Crime e castigo. Nada que no fosse resolvido na ltima pgina, sem deixar fiapos ou dvidas ou, acima de tudo, perturbaes filosficas. Porcaria. Mas eu h anos no falava tanto com algum. Estava entusiasmado com a minha prpria voz. H quanto tempo!
        - Entende? Aqueles crimes ritualizados. Sem motivos, mas ao mesmo tempo obedecendo a um padro, a uma lgica terrvel, a uma compulso antiga e reincidente e... e... Entende?
        O inspetor olhou o relgio antes de responder:
        - Sim.
        - Conrad sente que est envelhecendo, e pela primeira vez na vida pensa nos seus prprios motivos. Pensa na morte. Ele que j enfrentou a morte centenas de vezes s nos meus livros, pela primeira vez pensa seriamente no seu fim.
        Est escurecendo. O inspetor coloca um p sobre o joelho da outra perna.  o p ruim. O sapato  menor do que o do outro p. No me lembro se eu j sabia que aquele p era de cabrito. No me lembro de detalhes. No estou reproduzindo o dilogo daquele primeiro encontro com exatido, claro. Muita coisa  inveno. O inspetor estava claramente impaciente. Mas eu continuei.
        - No mesmo navio viaja um traficante internacional de armas chamado Mabrik. Viaja com a sua mulher, uma dinamarquesa loira e esguia que, na primeira vez que olha para Conrad, estende a lngua, como um rptil roxo, e toca com a ponta da lngua na ponta do prprio nariz.
        - Epa - comentou o inspetor, seu interesse reaceso.
        - Pois  - concordei. - Sempre que os olhos de Conrad e da loira se encontram, ela o chama com o mesmo truque, usando a lngua como um dedo. O jogo  livre no navio e Mabrik  um jogador obsessivo. Perde e ganha milhares de dlares a cada noite. A loira no o acompanha na sala de jogos. Fica no bar, controlada pela me de Mabrik, uma velha de bigode que s usa preto e est sempre cochilando. Se fosse outra histria, Conrad no perderia tempo em decidir entre os dois desafios: tirar alguns dlares, ganhos com o sofrimento humano, de Mabrik, o mercador da morte, no jogo, ou aceitar o convite para experimentar a lngua da loira quase descendo pela sua garganta ou enroscando-se, como uma serpente roxa, no seu pau. Mas Conrad no  mais o mesmo.
        O inspetor desanimou de novo. Na hora eu pensei que ele talvez nem fosse um inspetor, que tivesse inventado toda aquela histria para me descobrir, penetrar no meu exlio e cobrar o final inconclusivo de Ritual Macabro. Apenas um leitor insatisfeito. Agora era claramente um ouvinte insatisfeito.
        - Conrad tinha voltado ao mar para se reencontrar, como algum que volta  sua fonte para se regenerar, mas tinha acontecido o contrrio. O mar, o mar dos vikings e dos piratas, de Drake, de Sabatinni...
        - De Vasco da Gama - sugeriu o inspetor, curvando-se para olhar o relgio, pois escurecia rapidamente.
        - O mar tivera outro efeito era Conrad. Agora era outro mistrio o que antes tinha a familiaridade reconfortadora de um bero. O mar era mais uma manifestao daquela angstia sem nome que ele sentia, daquele horror opressivo que nem ele nem o autor conseguem transformar em palavras. O mar no o consola mais, antes aumenta o seu horror, a sua impresso de um desgnio maligno por trs de tudo, dos homens e da natureza. Era isso que eu queria contar. O Grego fizera aquilo, desencadeara aquele horror no peito de Conrad, com seus crimes ritualizados. Em nenhuma das suas outras aventuras Conrad enfrentara um criminoso como o Grego, e no entanto o Grego s era diferente dos outros viles porque seus crimes no eram injrias para Conrad vingar, pstulas passageiras para Conrad cauterizar antes de seguir para outra cidade e outra histria, mas uma linguagem, um subtexto. Todas as histrias de Conrad eram sempre a mesma histria e agora ele e o autor descobrem que outra histria estava sendo contada por baixo da histria deles, uma histria reincidente tambm, como num ritual. As palavras que o Grego escreve nas paredes, em grego, com o sangue das suas vtimas, so como trechos vislumbrados dessa outra histria, fragmentos de revelao. Conrad descobre que, todo este tempo, desde a sua primeira aventura, esteve participando do ritual sem saber. Entende?
        O inspetor ergueu-se da cadeira. Ele no viera ali para ouvir aquilo. Subtextos no se compram em bancas. Disse que, infelizmente, precisava ir, que agradecia a minha gentileza mas... Eu o derive.
        - Espere! Acontece uma coisa estranha. Uma noite Conrad sai para o convs. Talvez tentando, pela ltima vez, desesperado, uma reconciliao com o mar e com a sua antiga pureza. O convs est vazio. E ento acontece uma coisa estranha. O navio entra numa zona absolutamente silenciosa. No se ouve nada. Nem vento, nem o rudo do mar, nem o rudo surdo, mais pressentido do que sentido, como um subtexto, das mquinas do navio. Silncio completo.
        E ento aconteceu uma coisa estranha. O inspetor e eu parecamos ter entrado tambm numa zona de silncio absoluto. Olhamos um para o outro, espantados. Levamos algum tempo para nos darmos conta de que dona Maria havia desligado o rdio. Ela apareceu na porta da cozinha e levou um susto quando viu o inspetor. No tinha ouvido ele entrar. Nem ouvira a nossa conversa, com o rdio naquele volume. E era a primeira vez em muitos anos que via algum comigo na sala. Depois disse, do mesmo jeito soturno com que diz tudo:
        - R. O gordo e o magro.
        - O que , dona Maria?
        - J vou indo. O jantar est na geladeira. A roupa passada est em cima da tbua.
        - Muito obrigado, dona Maria.
        Depois que ela saiu, o inspetor, que permanecia de p, virou-se para mim, os olhos ainda mais saltados, e perguntou:
        - E da?
        - O qu?
        - Conrad. No convs.
        - Silncio absoluto. E ento ele ouve uma voz feminina, cantando. Chega a olhar pela amurada do navio, esperando ver uma sereia acenando para ele do dorso de uma onda. Mas o mar  uma planura cinzenta e espessa coberta por uma fosforescncia irreal, sem sereias. E ento ele v, no convs, a poucos metros de distncia, tambm debruada sobre a amurada, uma mulher. Ela est cantando.  Linda. A mulher que levou o envelope do Grego para ele no hospital.
        - Outra coincidncia.
        - Em outra histria, seria uma coincidncia. Nesta, no .
        - Como?
        - Est bem, . Mas agora Conrad sabe que existe outro enredo, secreto, por trs deste, e no tem muita certeza de que quer ver como ele acaba. Em outra histria ele no hesitaria em se aproximar de Linda, pois sabe que ela o levar ao Grego. Agora hesita.
        - No parece o velho Conrad.
        - No  o velho Conrad.
        - Posso perguntar uma coisa?
        - Por favor.
        - O que era que o Grego escrevia, em grego, nas paredes, com o sangue das suas vtimas? No livro isso no fica claro.
        - Claro que no fica claro. Eu nunca digo o que ele escreveu.
        - Voc no sabe?
        - Dona Maria, abaixa o rdio!
        O silncio era absoluto. Ele sorriu. Depois ficou srio. Talvez estivesse tentando decidir se eu, alm de perneta, era louco. Ou no. Disse:
        - Posso fazer outra pergunta?
        - Por favor.
        - Por que voc no me perguntou o que o assassino de verdade escreveu com o sangue, na parede, no Jardim Paraso?
        Fiz um beio e dei de ombros. Foi a nica resposta que me ocorreu. Depois perguntei o que o assassino de verdade tinha escrito com o sangue, na parede, no Jardim Paraso.
        - Estava quase tudo apagado. Sobraram s alguns traos, quase imperceptveis. Foi por isso que os reprteres no viram.
        - Apagado, como?
        - Uma faxineira irresponsvel. Foi ela que descobriu o corpo, e a primeira coisa que fez foi limpar tudo. Alm de irresponsvel, m faxineira, porque limpou mal.
        - Ela no tem muita prtica.
        - Como  que voc sabe?
        - Eu conheo.
        - Mas eu nem disse quem .
        - Ela no se chama Llia? Silncio. Depois ele disse:
        - Saiu o nome no jornal.
        - Se saiu, eu no li. Nunca leio jornais.
        - Ento como  que voc sabe?
        - A coincidncia era atraente demais para no acontecer.
        O inspetor deu uma volta pela sala, lentamente, cuidando para no tocar nas pilhas de livros, pensativo. Perguntou se podia fumar, eu disse que sim, mas ele no pegou nenhum cigarro. Depois sentou de novo e me encarou. Sorriu, como que dizendo "O que  que ns vamos fazer com voc?". Disse:
        - Coincidncias, coincidncias. Eu no gosto de coincidncias.
        - Eu tambm estou comeando a no gostar.
        - Me diga uma coisa, Stephen.
        - Estevo.
        - Estevo. O Grego, nesse novo livro, pratica algum crime parecido com os do primeiro?
        - Eu estou recm na metade. Conrad e Linda esto no camarote dela. Ele est introduzindo a sua mo queimada pelo sol e o sal de muitos mares sob a blusa de Linda.
        - Ento ele se aproximou dela, no convs.
        - Sim, sim. Neste ponto j aconteceu muita coisa. Conrad decidiu enfrentar seu destino, apesar das premonies. E, mesmo, sou eu que decido o destino dele. Se ele no o enfrentasse no haveria livro, e eu j estou atrasado para terminar o livro. Conrad e Mabrik se encontraram num jogo de pquer que dura cinco ou seis pginas. Conrad limpou Mabrik. No fim Mabrik jogou o tesouro que lhe restava, a dinamarquesa loira e esguia, mas Conrad, que  um cavalheiro, recusou. Mesmo porque j tinha comido a loira dentro de um bote salva-vidas.
        - Uma trepada de muitas pginas.
        - No. A grande trepada vem agora. A trepada com a loira eu cortei no momento em que sua grande lngua se enrosca, como uma serpente roxa, no pau de Conrad.
        - Como termina o jogo de pquer?
        - A mesa de jogo est rodeada por algumas das maiores figuras do mundo dos negcios, reunidas naquele cruzeiro milionrio. Americanos, donos de cadeias de lanchonetes que cobrem o globo como uma malha gordurosa. Nobres europeus arruinados escoltando vivas ricas cujos rostos, misericordiosamente, mal so vistos por trs de camadas de maquiagem. Potentados rabes cora petrleo at no cabelo e suas imensas mulheres.
        - Corruptos brasileiros.
        - Nenhum brasileiro. Mabrik no pode ficar mal diante da comunidade internacional do dinheiro. Negocia armas de todos os calibres para todas as causas. Suspeita-se que consegue at armas qumicas e tem fama de sempre cumprir seus compromissos. Em suma,  um patife honrado. Precisa de uma sada honrosa, seno perde o seu crdito. Ento faz o seguinte. Abre uma carteira de couro marroquino e de dentro da sua ltima dobra pina uma nota de dinheiro armnio que s uma tira suja de durex separa da runa. Diz: "Esta nota no vale um peido. Nem a Armnia existe mais. Mas  a coisa mais valiosa que eu possuo. Foi o primeiro dinheiro ganho pelo meu pai, Mabul, que vendeu uma carabina aos turcos para usar contra o seu prprio povo, pois foi mais fiel a um negcio concreto do que a abstraes como pessoas e ptria, e at hoje  a luz que ilumina o meu caminho e o exemplo que guia os meus atos. Com esta nota eu pago a minha dvida. Se estivesse colocando o meu corao na mesa, no doeria tanto. " E Conrad fica num dilema. No aceitar aquela nota malcheirosa significava menosprezar o gesto generoso de Mabrik e afrontar as pessoas em volta, todas seguidoras da tica de Mabul. Aceitar a nota, e o valor que os outros do  nota, significava aceitar uma cumplicidade com Mabrik e a sua linhagem assassina. Conrad ento recusa a nota, dizendo que no poderia viver com a culpa de ter causado tanta dor a Mabrik, e diz que Mabrik fica lhe devendo um favor. "Um favor de que tamanho?", pergunta Mabrik. "Do tamanho do valor que voc d a essa nota malcheirosa", responde Conrad.
        - Cacete!
        - Obrigado.
        - E o Grego ainda no apareceu na histria.
        - Ainda no.
        - Mas vai aparecer.
        - Claro.
        - Voc j tem alguma coisa planejada para ele? Algum crime?
        - Tenho. Primeiro preciso escrever a cena da trepada. Sempre  a que d mais trabalho.  difcil chegar a um equilbrio certo entre a crueza que o leitor de porcaria espera e um certo, digamos assim, recato lrico. E pau, pau, mas no necessariamente boceta, boceta.
        - Eu noto que voc tem algum problema com vaginas.
        - Pelo amor de Deus! Em O Homem Cinza eu descrevo a grande trepada do ponto de vista da boceta.  a boceta que conta a trepada, por assim dizer. O pessoal da editora at encrencou. Disse que o leitor comum no ia entender.
        - Desse eu no me lembro.
        - Depois da trepada, que sempre acaba com as mulheres per-didamente apaixonadas por Conrad, Linda resolve ceder e contar onde o Grego est. Mas Conrad no gosta do que ouve. O Grego est  procura de Ann.
        - Ann?
        - E voc ainda diz que  meu leitor atento.
        - Ah. Ann. A namorada de Conrad.
        - Sim, a doce Ann, a jovem mdica que queria casar com Conrad, mas que ele rejeitou, porque no queria envolv-la na sua vida perigosa e instvel.
        - O Grego alcana Ann?
        - Alcana. Provavelmente I pela pgina 60.
        - E mata?
        Hesitei. Eu ainda no tinha decidido se Ann morria ou no. Mas no queria decepcionar o inspetor.
        - Mata.
        - Como?
        - Ele se apresenta na casa de Ann. Diz que se chama Hennessy, como o conhaque. Ann j ouviu falar de Hennessy, Conrad lhe falou dele: " como meu irmo mais velho. " Mas este Hennessy no  como Conrad o descreveu. "Desculpe, eu no quero ser indelicada", diz Ann, a doce Ann, "mas voc tem uma identificao?" O Grego responde: "No tenho, mas se voc quiser posso descrever Conrad em detalhes. Somos grandes amigos, como voc sabe. Ele tem uma cicatriz aqui, outra aqui... " E o Grego passa a descrever todos os ferimentos que ele mesmo infligiu a Conrad, em Ritual Macabro. Ann recua, horrorizada. "No, no, Conrad no tem essas cicatrizes. " "Tem agora", diz o Grego, sorrindo. "E eu tambm sei onde ele est, neste momento. Num navio de luxo, provavelmente na cama com uma mulher linda, linda, que ele pensa que seduziu, e que por isso lhe contar tudo sobre como me encontrar, mas que na verdade tem ordens minhas para contar tudo. Em pouco tempo Conrad estar aqui, e outra mulher linda, linda lhe dir onde me encontrar. " "Quem?", pergunta Ann, que agora est achatada contra a parede, pois o Grego segura uma faca contra o seu pescoo. "Voc, minha querida", diz o Grego. "No com suas prprias palavras. Com as minhas. Deixarei as direes para Conrad me encontrar gravadas no seu corpo. Ele precisar decifr-las, claro, mas isso no ser problema para Conrad. " "Voc  um louco!", grita Ann, a doce Ann, que nunca gritou com ningum. "No, no", diz o Grego. "Voc no entendeu. Eu no sou louco. Esta  outra histria. Conrad entendeu isso, por isso eu o derrotei da ltima vez. O terrvel  que eu no sou louco. " E com isso o Grego enfia a faca no pescoo de Ann, cuja ltima palavra, junto com uma golfada de sangue,  "Con... "...
        O inspetor tinha feito uma careta quando o Grego enfiou a faca no pescoo de Ann. Perguntei:
        - Voc j matou algum, inspetor?
        - J. Vrias vezes. Quer dizer. J matei vrias pessoas. Voc no sabe. Minha vida daria um livro...
        - Dos meus?
        - No. - Ele sorriu. - Infelizmente, no.
        - Matou... como policial?
        Ele fez um gesto para rechaar minha pergunta no ar e a substituiu por outra.
        - O que o Grego fez no corpo de Ann?
        - Por enquanto, nada. Isso vem depois. Ainda estou na pgina 40. Conrad est introduzindo sua mo queimada pelo sol e o sal de muitos mares sob a blusa de Linda, que...
        - Voc no sabe o que ele vai fazer?
        - Tenho uma idia. L no fundo. Na parte do crebro a que eu recorro para detalhes repugnantes. No imagino como seja I atrs. Um jngal, no duvido. Cobras, areias movedias...
        Eu estava sorrindo, se me lembro bem, mas o inspetor me olhava como se eu tivesse dito alguma coisa incompreensvel, grego para ele. Depois de um silncio, perguntou:
        - E o senhor? Voc?
        - Eu o qu?
        - J matou algum?
        - Vrias pessoas. Nos meus livros. Na vida real, no.
        - Voc disse que conhece a faxineira.
        -  a minha faxineira tambm. Vem aqui duas vezes por semana.
        - Ela no lhe falou nada do crime do Jardim Paraso?
        - Ns mal nos falamos. Ela faz o trabalho dela e vai embora. O inspetor levantou-se.
        - Ela  suspeita? - perguntei.
        - Do crime? No. Talvez cmplice. Mas lavar a parede foi uma coisa to estpida que no  nem suspeita. Ela talvez quisesse proteger algum. No  uma moa burra.
        - Ns mal nos falamos.
        O inspetor despediu-se. Disse que eu no precisava acompanh-lo at a porta. Tinha uma maneira estranhamente elegante de mancar, pisava no p de cabrito com uma certa delicadeza, uma certa deferncia. Que figura. Na porta, ele virou-se e disse:
        - Ouvir voc contar suas histrias  quase to bom quanto ler seus livros!
        - Venha quando quiser.
        - Olhe que eu venho mesmo.
        - Por favor.
        Ele j estava saindo quando eu disse:
        - Mais uma coisa.
        - O qu?
        - Voc vai falar com a Llia de novo?
        - Vou. Afinal, ela ser sua faxineira  um dado novo que pode significar alguma coisa. No imagino o qu.
        E arrematou:
        - Odeio coincidncias.
        Ele ficou parado, sua figura recortada na porta pela luz do corredor, como que pressentindo que aquele dilogo ainda no terminara. Eu falei.
        - Voc tambm deve ter boas histrias para contar. A sua vida... E ento ele disse uma coisa curiosa.
        - . Existe mais de uma maneira de perder o p. E saiu.
        
        
      2
        
        
         noite  pior. Comi meu jantar na mesa da cozinha, acompanhado apenas dos cheiros e rudos que sobem pelo poo do edifcio, as emanaes de um abismo de domesticidade. Pessoas falando ou cantando no banheiro. Televises ligadas. Algum batendo um bife. Mulheres e crianas trocando gritos entre reas de servio, a palavra "Riquinho!" reluzindo como uma moeda de prata no meio dos sons opacos que enchem a minha cozinha, depois o choro de uma criana, possivelmente o riquinho. No, era para um papagaio, que devolve o epteto num tom irnico. Cheiro de alho frito. O garoto que passa o dia inteiro imitando a descarga aberta de um carro. Outro louco. Uma briga. Homem e mulher. "Pois experimenta! Quero s ver. Experimenta!" Uma gargalhada, um pedao de cano e - posso jurar - o cheiro evanescente de um tomate recm-cortado. Pago o apartamento com o que a editora me paga. Para o resto, meu irmo traz dinheiro uma vez por ms. O mais velho. Pergunta se est tudo bem, se preciso de alguma coisa, nem senta. Tenho que ir, tenho que ir, eu no paro quieto, at o ms que vem. Ele est mais gordo do que eu, est sempre com a camisa aberta na barriga, como se o umbigo fosse uma ferida sensvel. Ele era o revolucionrio, hoje administra as coisas da famlia, sua muito, no pra quieto. Foi ele que ficou com a me, depois do acidente. A influncia da lua nos destinos humanos ter alguma coisa a ver com a gua salgada nas nossas clulas? s vezes tenho vontade de soltar o corpo nessa corrente de sons e cheiros que sobe do poo do edifcio s para ver se subo com ela. Mas no era isso que eu queria contar.
        
        Exoftlmico  quem tem os olhos saltados, como o inspetor. Como se chamar quem tem os olhos para dentro, como eu? So como duas cavernas, os olhos esto I no fundo, espiando tudo, nunca se expondo. Olho a cidade pela janela aberta da sala. Fico rodando pela sala, depois do jantar, slosh-slosh, apoiado na minha muleta, o rosto sempre virado para a janela, naquela noite como em todas as noites. Tinha uma nuvem sobre a cidade. Fumaa, poeira, uma nuvem que as luzes da cidade tornavam fulgurante, de um amarelo acinzentado que parecia latejar. As luzes da sala estavam apagadas, como todas as noites. No sei o que os vizinhos de baixo pensam deste animal que roda sobre suas cabeas depois do jantar, toc-toc, slosh-slosh, este estranho ser que no tem nem televiso. Toc-toc, como Ahab no convs do Pequod esperando que alguma revelao assome  janela. Durmo na mesma cadeira em que escrevo, s uso a cama quando a faxineira vem, e depois sou eu mesmo que arrumo a cama. Llia, Llia. O mais difcil  tomar banho, mas meu irmo mais velho mandou instalar ganchos nas paredes, fico sob o chuveiro num p s, agarrado nos ganchos, como no boxe de um navio que joga. Um rudo surdo, como um subtexto, entra pela janela da sala junto com um vento spero que passa na pele como lixa. O trfego da cidade, um borbulhar soturno no fundo da garganta que nunca pra. Por que Llia no me falou no crime do Jardim Paraso? Ns mal nos falamos. Eu mal conheo o seu rosto. Conheo mais o topo da sua cabea - ou ento eu  que estou com a cara entre as suas pernas, o cheiro doce do perfume barato por cima do cheiro de livro velho. No sei nem onde ela mora. O inspetor sabe. O inspetor conhece esta cidade condenada. Estas profundezas. Ele  uma das suas criaturas. Ele bate na porta da casa de Llia. Provavelmente um casebre numa vila. Meu Deus, Llia pode ter um marido, uma famlia. No sei de nada. Preciso pesquisar melhor meus personagens. Uma vez li em algum lugar, ou inventei, que certa atriz, antes de fazer um papel, insistia em saber at o nmero do telefone da personagem. Quanto ela cala? Como foi a sua infncia? Mas essa personagem s tem uma fala na pea, protestava o diretor. Ela s entra e diz que o caf est servido. Ou  uma faxineira. No interessa, diz a atriz, precisa saber a sua motivao. Qual  o seu signo? O pai, alguma vez, ameaou mat-la com um faco? Gosta de midos? O marido sabe que ela est na pea?
        O inspetor bate na porta da casa de Llia.
        - Lembra de mim? Inspetor Macieira, como o conhaque.
        
        Nunca escrevo  noite. Leio, na cadeira, at dormir. Prefiro tomar banho de manh, pois sempre acordo com a sensao de que estou emergindo de uma cloaca, com fiapos de sonho presos no corpo como dejetos. So sonhos confusos. Nunca lembro bem o que sonhei. Sei que nunca sonho com o acidente. Ou ento esta  sempre a parte coerente dos sonhos, a que eu no lembro. Depois do banho fiz meu caf. Chegou a dona Maria.
        - Meu guri t com remela dura.
        Afastei o bacon. Estava muito seco mesmo. Fui para a sala e comecei a trabalhar. Dona Maria ligou o rdio.
        
        Conrad introduziu sua mo bronzeada pelo sol e o sal de muitos mares sob a blusa de Linda. Seus dedos buscavam o bico daquele seio que durante todo o dia ele vislumbrara, como uma mancha escura, por baixo da blusa. Linda disse "No!", mas ao mesmo tempo desfez mais um boto da blusa, facilitando o acesso. Conrad estava curioso para ver como eram os seios de Linda. Tinha uma teoria segundo a qual os mamilos diziam tudo sobre uma mulher. O tamanho dos mamilos, o formato, a cor. Os de Linda eram mais rosados do que ele esperava. As aurolas saltavam dos seios e os bicos enrijecidos saltavam das aurolas, como se as pontas fossem os seios dos seios. Sensualidade, altivez, e cedo ou tarde me cravar uma faca nas costas, diagnosticou Conrad. Enquanto sugava um dos mamilos, Conrad procurou com a mo o zper do short. Linda disse "No" outra vez, mais um gemido do que uma palavra, e levantou o corpo para que Conrad retirasse o short e depois a calcinha. Ateno, auditrio. Na semana passada, vocs se lembram, esteve aqui a dona Valdecina, que fez um pedido realmente comovente. Ela queria construir no matagal atrs da sua casa, no Jardim do Leste, uma capelinha, bem no local em que sua filhinha foi estuprada e assassinada h alguns anos. A Prefeitura no queria permitir. Pois bem. Oh, Conrad. Sim, sim! Linda estava soluando de prazer. Conrad, enquanto trepava, mantinha um distanciamento analtico. Isto no  fingimento, concluiu. Ela est gozando mesmo. O velho lobo-do-mar fisgou mais uma com seu anzol infalvel. Sim, sim. Que importam a finitude humana e a perversidade do mundo se os justos comandam seus destinos? A questo no  se Deus existe ou no, a questo  se voc vai brochar s por causa disso. A Prefeitura vai permitir que dona Valdecina construa a sua capela. E tem mais. Mais, mais, gemia Linda. Ns recebemos a primeira doao para a construo da capelinha e ouam que coisa comovente, que coisa sensacional. Ateno, auditrio. A primeira doao veio justamente do homem que estuprou e matou a filhinha da dona Valdecina! Dorival Marques, o Dori, hoje cumprindo pena na Penitenciria Estadual. Dona Valdecina, venha at aqui. Mais! Mais! Havia algo de desesperado no pedido de Linda, nas suas pernas entrelaadas nas costas do velho lobo-do-mar, na sua voz.
        - Onde est o Grego? - perguntou Conrad.
        Ela parou. Sem descolar o rosto do rosto de Conrad, perguntou:
        - O qu?
        - O Grego. Onde ele est?
        Ela deixou a cabea cair no travesseiro. Olhou nos olhos de Conrad. Como nuvens passando num cu ventoso, o desejo deu lugar  surpresa e esta ao desapontamento nos seus grandes olhos azuis. Finalmente ficou apenas um azul triste e plido, quatro horas de uma tarde de vero em Estocolmo.
        -  por isto que ns estamos aqui?
        - No - disse Conrad. - Mas j que estamos to ntimos, aproveitei para perguntar.
        - Cachorro - disse Linda, tentando empurr-lo de cima dela.
        - Est feliz, dona Valdecina?
        - Dona Maria, o rdio!
        -  Eu sei que voc gostou - disse Conrad. - E quer mais. Pois estou propondo um negcio. O primeiro orgasmo foi de graa. Pelo segundo, voc me dir onde encontrar o Grego.
        -  Para ter outro orgasmo eu no preciso de voc. Basta um vibrador.
        - Mas um vibrador no tem o meu carter.
        - E a senhora vai perdoar o Dori, dona Valdecina?
        - Isso nunca, n? Pode ser que algum dia. Mas por enquanto...
        - Abaixa o rdio, dona Maria!
        - Est bem - disse Linda. - Mas dois orgasmos  pouco. Quero quatro, um em cima do outro. Antes de irmos tomar um drinque no convs para ver o pr do sol.
        - Quatro orgasmos antes do pr do sol... - suspirou Conrad. - No sei. Preciso consultar as bases.
        E Conrad soergueu o corpo para olhar seu pnis semi-enterrado entre as coxas de Linda. Linda sorriu. Mas seus olhos continuavam tristes.
        - Pagamento adiantado - props Conrad.
        -  De jeito nenhum. Que garantia eu tenho que voc vai conseguir?
        -  Que garantia eu tenho que voc vai me dar a informao depois do quarto orgasmo?
        - Nenhuma. E a minha informao pode ser falsa. J um pau duro no pode ser falsificado.
        - Nada feito - disse Conrad, e comeou a levantar-se. Linda o prendeu dentro dela, recruzando as pernas nas suas costas.
        -  Espere. Proponho um meio-termo. Depois do terceiro orgasmo, eu digo.
        - A verdade?
        - A verdade. Juro.
        E Conrad comeou a mexer lentamente, olhando nos olhos de Linda, vendo o azul dos seus olhos transformar-se gradualmente, tarde de vero em Estocolmo, manh de primavera em Veneza, anoitecer de outono em Delfos, at os olhos se fecharem. Mais, mais.
        
        ramos sete irmos. Como eu era o mais moo, sentava entre o pai e a me no nosso banco da igreja, os outros seis  direita da me. O perfume algo ctrico da me, o cheiro estranhamente metlico do pai. Nos almoos de domingo no casaro, ningum saa da mesa depois de comer. Era "dia de conversar com o pai". Ele ficava fumando seu charuto, a cadeira posta num ngulo com a cabeceira da mesa, as pernas cruzadas. Quando estava irritado, s ele falava. Defendia alguma posio tomada durante a semana nas reunies do laicado, ou criticava alguma posio da qual discordava, com veemncia, mas sem perder o jeito magnfico de ordenar as palavras para ns, seu pblico cativo. Fixvamos os olhos na ponta do charuto com que ele diagramava no ar a eloqncia bem arquitetada das suas frases - linha, ponto, espiral, parbola, exclamao. Vez que outra ele pegava um guardanapo de cima da mesa e em seguida o jogava de volta, com o desdm que merecia um argumento rechaado.
        Ele vivia para a igreja. Nosso pai - disse uma vez meu irmo mais velho - no tinha f, tinha febre. Ao meu lado no banco da igreja ele fechava os olhos e franzia a testa e, com a cabea atirada para trs, parecia estar se esforando para ouvir uma msica longnqua, ou outra missa, s para ele. Fora da igreja a religio o agitava. Ficava vermelho, vociferava. Mas nunca a ponto de errar a colocao de uma orao subordinada. No lembro o que dizia. Podia inventar, agora, mas mesmo agora, com esta mquina no colo, anos depois da sua morte, me pareceria uma afronta adaptar a sua eloqncia a estas pequenas fices. Nem sei quem vai ler isto. Desconfio que, se acontecer o que temo, dona Maria ficar com tudo que  meu. E s levar o rdio. O rdio, dona Maria! Talvez algumas panelas e a muleta, para o caso de secar a perna de um parente. Mas fui eu que enfrentei o meu pai pela primeira vez. Fui o primeiro. Um erro meu numa conta elementar ficara famoso na famlia e sempre que se dirigia a mim ele dizia: "E o nosso gnio da matemtica, o que tem a dizer?". Um dia, um domingo, tomado por no sei que demnio infantil, respondi: "Gnio  a v", e houve um arquejo coletivo na mesa, como se todos previssem o meu banimento da casa ou coisa pior. Mas ele deu uma gargalhada. Eu era o mais moo e era o favorito do meu pai. O nico que freqentava a sua biblioteca. Foi I que certa vez - anos depois da minha pequena rebeldia, eu nem sentava mais entre o pai e a me no banco da igreja, sentava numa ponta, j com um p no exlio - ele arrancou um livro das minhas mos e me disse para no perder tempo com os gregos. "Os gregos s tm as perguntas, comece a ler as respostas." Tragdias inteis e deuses familiares, esquea-os. Catarse no resolve. "Epifania!", exclamou, pressupondo que eu soubesse mais do que sabia. "Epifania e revelaes. A histria humana precisa de revelaes. Sem revelaes tudo volta ao seu comeo, tudo se repete, no h salvao." Eu no queria ser salvo? Salvao. Eu no entendia. Como, salvao? Eu j estava salvo. Me confessava e comungava todas as semanas, e certamente havia um banco s para a nossa famlia no cu tambm.
        "Os deuses da Grcia eram deuses do cotidiano, deuses para se encontrar no bar. Seu irmo gostaria disso, hein?" Referia-se ao irmo do meio, Francisco, que bebia como o desesperado que era. "Talvez seja isso que ele procure nos bares, um deus irmo, com as suas mesmas fraquezas, e com um exemplo pessoal pronto para consol-lo." Ele ainda estava com o livro arrancado na mo, e o sacudiu na minha frente. "Esquea isto. No procure irmos entre os deuses, nem deuses entre os irmos", disse. Ou coisa parecida. Perguntei por que aqueles livros estavam na biblioteca, se eram para ser esquecidos. Ele riu. Disse: "Aos 18 anos tive o cuidado de ler toda a obra de Nietzsche. Logo depois, tive o cuidado de esquecer tudo que li. " Eu devia procurar epifanias e revelaes. Para ser salvo, pelo menos na biblioteca do meu pai. Logo depois que ele saiu, pus-me a percorrer os ttulos nas estantes freneticamente, procurando um nome. Nite. Nite. Quem seria aquele Nite?
        
        O RDIO. O DIA INTEIRO, O rdio.
        - Ele est aqui, auditrio. Por uma deferncia especial do servio judicirio com este programa, trouxemos... Entrem, por favor... o apenado Dorival Marques, o Dori. Como vai, Dori?
        - Bem, sim senhor.
        - Dori, voc ficou sabendo da campanha da dona Valdecina para construir um santurio para a sua filha, a Valdeluz, no terreno atrs da sua casa, por este programa, no foi assim?
        - Sim, senhor.
        - E assim que ficou sabendo, o que foi que voc fez, Dori?
        - Mandei, n? Pedi pra mandarem um dinheirinho.
        - E voc sabe que a sua contribuio foi a primeira a chegar, Dori?
        - Pois .
        - O que foi que voc pensou, quando ouviu a dona Valdecina falando aqui no programa sobre a Valdeluz, Dori?
        - Bom. A gente fica, n?
        - Voc sentiu remorso, no  assim, Dori?
        - Senti, senti. Eu no queria que acontecesse aquilo.
        - Calma, auditrio. Vamos deixar o Dori falar. Voc sentiu remorso, Dori.
        - Sabe como . Tem horas que o cidado no se controla. Parecia que no era eu. At hoje eu penso assim: puxa, era eu fazendo aquilo?
        - Voc disse uma vez que estava tomado pelo demnio.
        - . Eu me senti que, assim... Que no era eu, entendeu?
        - Voc  religioso, Dori?
        - Sou, sim senhor. Sou do Olho do Divino.
        - Voc reza, Dori?
        - Seguido.
        - Voc reza pela alma da Valdeluz, Dori?
        - Rezo. Pela dela e pela minha.
        - Voc acha que o demnio ainda est em voc, Dori?
        - De jeito nenhum. Aprendi minha lio.
        - Dori, a dona Valdecina est aqui.
        - Eu sei.
        - Voc gostaria de ver a dona Valdecina, Dori?
        - . Depende dela, n?
        - A dona Valdecina est nos ouvindo I de trs. A senhora no  obrigada a vir at aqui, dona Valdecina. Este homem cometeu o mais terrvel, o mais pavoroso crime que um homem pode cometer. Ele roubou a inocncia de uma criaturinha, depois roubou a sua vida. Ele foi condenado pela lei dos homens e est cumprindo sua pena. Ele mesmo se condenou pelo que fez e est se punindo com o arrependimento. Agora ns estamos esperando o julgamento do seu corao, dona Valdecina. De onde estiver, a Valdeluz tambm est esperando para ver o que a senhora vai fazer. Eu sei que  uma deciso difcil. Ateno, auditrio. Quantos acham que a dona Valdecina deve vir at aqui falar com o homem que estuprou e matou a sua filhinha?
        Enquanto isto Conrad recorria  Rotao Contra-Equatorial, uma tcnica que aprendera de um marinheiro holands, para fazer Linda chegar ao segundo orgasmo e pedir mais, mais. A pena  o pai e o arado e o papel  a me e a terra neste velho ritual de profanao e semeadura, mas que possvel significado podem ter os tipos metlicos de uma mquina golpeando um pobre papel? De certa maneira, escrever  mquina corresponde a mandar capangas fazer o nosso servio sujo. Mantemos as mos limpas. Os que cavavam as letras primitivas com cunhas em tabletes de barro, estes sabiam que crime estavam cometendo. Foram os primeiros. Sempre que preciso trocar a fita da mquina, vou correndo depois lavar as mos como se elas estivessem sujas de sangue. Os que escrevem com pena assumem os seus livros e seus dedos sujos. Ns temos um libi. Somos apenas os autores intelectuais das nossas tramas.
        - Muito bem. E os que acham que dona Valdecina no deve vir cumprimentar o Dori?
        
        
        Linda chegou ao segundo orgasmo em pouco tempo, mas o terceiro levou trs pginas cheias, durante as quais Conrad recorreu aos ensinamentos que o velho Vishmaru lhe transmitiu em O Homem Cinza, o recolhimento a uma espcie de cmara interior, um ponto localizado no centro geomtrico do corpo, atrs do umbigo, de onde o iniciado podia controlar todas as funes e sensaes do seu corpo como se fosse um tcnico atrs de um painel comandando um autmato. Quando eu era criana, inventei um personagem, um outro eu, igual a mim em tudo, com a diferena de que jogava futebol melhor e no era da famlia. Um menino estranho, de origem desconhecida, que freqentava a nossa casa e a nossa mesa dos domingos mas morava num barco, e saa a navegar pelo mundo sempre que nossos problemas o aborreciam demais, e que tinha com relao a mim o mesmo sbio distanciamento que o Conrad interior, o Conrad iniciado nos ensinamentos de Vishmaru, tinha em relao ao Conrad que agora recorria a todas as suas tcnicas - o Chicote de Ormuz, o Meneio Levantino, o Estacato Turco - para fazer Linda chegar ao terceiro orgasmo. Vishmaru vivia numa casa senhorial perto de Londres, acompanhado de Kabal, metade mulher, metade cachorro, e alm de ser um mentor espiritual de Conrad tambm o aconselhava nas aplicaes financeiras que o mantinham independente e incorruptvel. Vishmaru dizia que o homem completo precisa de dois olhos para ver a realidade com perspectiva, um terceiro olho para enxergar a verdade csmica e um quarto olho nas bolsas de Londres e Nova York, pois a peregrinao mstica  favorecida por um bolso cheio. Certa vez coloquei na boca de Vishmaru uma condenao veemente dos editores e do pouco que pagam aos autores, mas a editora cortou. Valendo-se da sabedoria de Vishmaru e do que aprendera em todos os portos do mundo sobre como atingir a segunda maior aspirao do homem justo - depois de combater o Mal em todas as suas formas -, que  fazer a mulher gozar, Conrad foi buscar no fundo de Linda o terceiro orgasmo. Convulsivo, ondas sobre ondas, a besta quebrando a superfcie, o mar recuando e mostrando o seu cho, o lodo quente.  disto que ns somos feitos, foi neste sulco escancarado que nos semearam. Trs pginas cheias de datilografia intensa, mas valeram a pena. Conrad rolou para um lado. Levantou a cabea e olhou para Linda. Ela sorria levemente. O azul dos seus olhos era o de uma noite estrelada sobre o deserto, que  o mar finalmente saciado, ou coisa parecida.
        -  uma cena emocionante. Eles esto se abraando. Dona Valdecina est chorando. O Dori tambm est chorando. De onde estiver, Valdeluz est olhando para esta cena. O seu santurio ser construdo, ela nunca ser esquecida! Deus no abandona as suas criaturas!
        - Dona Maria, o rdio! Eu no posso trabalhar!
        
        - E agora, A verdade. Onde est o Grego?
        Conrad inclinou-se para fora da cama para pegar um cigarro no bolso do seu blazer. No, no fez isto. Conrad no fumava. Insistiu:
        - Quero a verdade.
        O sorriso no rosto de Linda era agora apenas um resqucio do outro, como um claro que fica na retina depois que fechamos os olhos.
        - Voc tem certeza de que quer saber?
        - Quero.
        - Voc no vai gostar.
        Conrad soergueu-se na cama e examinou o rosto de Linda, apoiado num cotovelo. O rubor estava deixando as faces dela. A superfcie se recompunha.
        - Fale - ordenou Conrad.
        - Neste momento, ele deve estar com Ann.
        Conrad sentiu como se de repente tivesse perdido todas as suas entranhas. No encontrou nem os pulmes para tirar o ar e produzir a palavra amada. Ann? A sua Ann?
        - Eu disse que voc no ia gostar.
        - O que ele quer com Ann?
        - Voc deve perguntar o que ele quer com voc.
        Conrad agarrou o rosto de Linda entre os dedos e virou sua cabea violentamente na sua direo.
        - Sem jogos! - disse, a cicatriz na sua testa pulsando como um sinal de perigo. - O que ele vai fazer com ela?
        - No sei. Ele s disse que iria procur-la.
        - Como descobriu onde encontr-la?
        - No sei.
        - Fale!
        - Ele disse que Hennessy saberia.
        - Hennessy? Hennessy jamais revelaria isso ao Grego.
        - O Grego tem meios para arrancar informaes das pessoas. Mais eficientes do que os seus.
        - Como o Grego sabia que eu estaria neste navio? Agora havia incompreenso nos olhos de Linda.
        - Ele no sabia.
        - A verdade! Foi ele que colocou voc neste navio, para me vigiar.
        - No!
        - Foi pura coincidncia, ns dois no mesmo navio?
        - Juro.
        - No gosto de coincidncias.
        - Embarquei neste navio para esquecer o Grego. Passei os primeiros dias trancada neste camarote. A primeira noite em que sa foi a noite em que nos encontramos. Levei um susto quando vi voc. Era muita coincidncia.
        - Coincidncias assim s acontecem em histrias de quinta categoria.
        - Ento esta  uma histria de quinta categoria.
        - Voc e o Grego eram amantes?
        Linda libertou seu rosto dos dedos de Conrad com um movimento brusco.
        - O Grego no precisa de amantes. O prazer dele  outro. Descobri isso muito tarde.
        - Voc no sabia o que ele fazia? Os assassinatos, o sangue nas paredes...
        Linda ficou em silncio.
        - Sabia ou no sabia?
        - Sabia!
        - E mesmo assim ficou com ele? Com um animal como ele?
        - E voc?
        - Eu, o qu?
        - Por que voc deixou ele escapar?
        - Eu deixei ele escapar? Olhe esta cicatriz aqui. E esta. E esta! Linda no olhou. Conrad estava ajoelhado na cama, inclinado sobre ela.
        - Lutamos trs vezes. Nas trs vezes ele me venceu,  traio.
        - Duas vezes. Na ltima vez voc venceu, mas no o matou.
        - Como voc sabe isso?
        - Ele me contou.
        - O Grego disse que eu podia ter matado ele na terceira luta, mas no matei?
        - Ele disse que estava no cho, sem defesa, e que voc tinha uma arma apontada para a cabea dele.
        Conrad virou o corpo e afastou-se. Sentou na borda da cama, de costas para Linda. Quando falou, sua voz tinha mudado.
        - E o que foi que eu fiz?
        - Voc no sabe?
        - Quero ouvir a verso do Grego.
        - Ele disse que voc ficou mais de um minuto com a arma apontada para a cabea dele. E que uma sombra passou pelo seu rosto.
        - Uma sombra? Ele disse uma sombra?
        - Uma sombra. Como se de repente voc tivesse percebido alguma coisa, ou se lembrado de alguma coisa...
        - Qual  a opinio dele?
        - Como?
        - Percebido alguma coisa, ou me lembrado de alguma coisa?
        - Ele s falou "uma sombra".
        - E ento?
        - E ento ele aproveitou a sua hesitao e derrubou voc, e correu.
        - Primeiro me deu um pontap, aqui. Depois correu.
        - Ento foi isso.
        Conrad virou-se para encarar Linda. Perguntou:
        - Por que ele me mandou aquele dinheiro no hospital, com o bilhete?
        - No sei. Foi a ltima coisa que eu fiz para ele. No nos vimos mais.
        - O que ele vai fazer com Ann?
        - No sei. Juro.
        Conrad levantou-se e comeou a catar sua roupa.
        - Ei! - disse Linda.
        - O qu?
        - Ns combinamos quatro orgasmos.
        
        Veja que cena emocionante, auditrio. Conrad James, com o pensamento em Ann, sua doce Ann, mas sempre um justo, embora tocado pelo horror e a dvida, sentindo-se oco por dentro, de novo com o harpo em riste entre as pernas de Linda, tentando atrair do fundo outro orgasmo. No estar a uma metfora para o homem moderno, desprovido das velhas certezas, sem qualquer convico nova para substituir valores perdidos, e mesmo assim seguindo as moes do instinto, vivendo como se tudo ainda tivesse um sentido? Hein, leitor? Foram os piores dez minutos da vida de Conrad, incluindo as trs lutas com o Grego. Ele s pensava em Ann, no Grego com a Ann, na pele branca de Ann e na faca do Grego, e na sombra, a maldita sombra que passara pela sua alma impedindo-o de estourar os miolos do vilo como faria em outras histrias, quando ainda no tinha dvidas. Eu tambm senti dificuldades em encher mais trs pginas com a caa ao quarto orgasmo. O rdio me distraa - o rdio, dona Maria! -, e tambm uma certa inquietao que eu no sabia definir, algo a ver com a visita do Macieira. O dia seguinte era dia de Llia, eu perguntaria se Macieira, o inspetor dos olhos saltados, a tinha procurado, e para saber o qu. Ela se surpreenderia, eu falando com ela. Eu perguntaria sobre o crime do Jardim Paraso. Quem era a mulher? Por que Llia apagara as palavras escritas em sangue na parede? Perguntaria quem era ela, qual era o seu papel naquela trama vagamente pressentida, e que at agora ainda  apenas isto, um pressentimento, um mau palpite. Escrevo isto sem qualquer inteno de evitar que o que tem que acontecer acontea, ou de incriminar quem quer que seja. Escrevo apenas para que saibam que eu adivinhei a trama, que no fui um inocente at o fim. Ser fcil me pegarem. Bastar me derrubarem, levarem minha muleta e barrarem a entrada da dona Maria no apartamento. No conseguirei me levantar do cho. Meus gritos por socorro se perdero na cacofonia do prdio. Talvez empilhem os livros do meu pai sobre o meu corpo, mais uma garantia de que no me levantarei e morrerei de inanio. Um tmulo encadernado. Mas pelo menos meus irmos sabero que eu sabia. Isto, claro, se no destrurem estes papis.
        
        EU E CONRAD NOS esforamos e, finalmente, arrancamos o quarto orgasmo de Linda, um orgasmo prolongado que acabou em soluos e emendou num choro. Ela se agarrou no pescoo de Conrad e no queria deix-lo sair da cama. Conrad, o justo, teve que lhe dar alguns tabefes para acalm-la.
        - O que voc vai fazer?
        - Preciso salvar Ann.
        - Estamos no meio do Mediterrneo! S chegaremos a um porto daqui a dois dias.
        - Darei um jeito. E, antes disto, mandarei telegramas de bordo. Tenho amigos. Contatarei Hennessy.
        - Hennessy j deve estar morto. Se o Grego arrancou a informao que queria dele, ele j deve estar morto.
        - Duvido.
        Conrad acabou de vestir-se. Abotoou o blazer na frente do espelho, examinando o prprio rosto. Pensando: Conrad, voc, decididamente, no  mais o mesmo.
        - No v! - gritou Linda.
        Mas Conrad j estava no corredor.
        Rumou para a sala de jogo. Mabrik estava na mesa de bacar.
        - Arr, Mr. Conrad. Um joguinho?
        - No. Preciso falar com voc.
        Mabrik arqueou uma sobrancelha. Tinha a pele morena e oleosa, e lisa. As rugas se concentravam em torno dos olhos, como formigas em torno de melado derramado. E os olhos tinham mesmo a cor de melado escuro. Eram profundos e cruis.
        -  o favor? Voc vai cobrar o favor?
        - Parte do favor - concedeu Conrad.
        Mabrik olhou em volta. No havia ningum no bar. Puxou Conrad pelo brao na direo do balco. O barman veio perguntar o que queriam.
        - Que voc desaparea - disse Mabrik. E, para Conrad: - E ento?
        - Voc tem contatos em Chipre?
        - Tenho.
        - Preciso que um helicptero de Chipre venha me buscar no navio.
        - Depois de amanh chegaremos a Chipre.
        - Preciso estar I amanh de manh. E quero pegar um vo para Nova York em seguida.
        - Posso perguntar por qu?
        - No.
        Mabrik consultou o relgio.
        - Vou ver o que posso fazer.
        Com um sinal da mo, Mabrik convocou um dos seus assistentes. Um moo muito branco cuja boca muito fina e vermelha parecia ter sido feita com um bisturi h dois minutos. Mabrik escreveu alguma coisa, rapidamente, num pedao de papel, entregou-o ao assistente e deu ordens numa lngua que Conrad no identificou. Quando o assistente se afastou, Mabrik chamou o barman com o mesmo sinal de mo.
        - Ouzo - pediu. - E voc?
        Conrad examinou a prateleira. Ainda no tinha experimentado o bar da sala de jogos. Viu o Glenlivet. Mas isso no era tudo.
        - O seu gelo  redondo?
        - No, senhor. Em cubos.
        - Ento esquece.
        - Qual  o seu negcio, Sr. Conrad? - perguntou o mercador de armas.
        - Nenhum. Vivo das minhas rendas.
        - E do que ganha no jogo...
        - Ganho pouco no jogo. Ganhar de voc foi fcil.
        - Por qu?
        - Porque voc queria me arrasar. At hoje no sei por qu.
        -  Obviamente porque eu sabia que voc estava comendo a minha mulher.
        - Por que no me mandou matar?
        - Por favor, Sr. Conrad. O senhor me toma por um gngster? Sou um homem ntegro, honesto e limpo. Os meus negcios  que so sujos. No posso ver sangue.
        - Conversa.
        - Verdade. Nem sou eu que bato na minha mulher,  a minha me.
        - Voc  um assassino, Mabrik. Est nos seus olhos. Mabrik ficou srio e em silncio por um instante. Depois sorriu.
        - Ento por que eu no mandei mat-lo? Conrad deu de ombros.
        - Voc preferiu me humilhar no pquer. Se vingar e ainda lucrar com isso. S que no deu certo.
        - Conrad, voc tem uma falha grave. E surpreendente, num homem com sua experincia.
        - Qual ?
        - Voc no reconhece a ambigidade humana. Meu povo tem um ditado...
        Conrad suspirou. No tinha pacincia com conversas crpticas, e muito menos com ditados armnios. Mas Mabrik continuou.
        - "No me entenda muito depressa. "
        - O que isso quer dizer?
        - Voc no pensou que eu podia estar perdendo para voc, de propsito?
        - Como, de propsito? Voc jogou sua mulher!
        - Exatamente. Estava lhe propondo um acerto. Mas voc no entendeu.
        E Mabrik fez um gesto que queria dizer "o que se h de fazer com os inocentes deste mundo?".
        - Que acerto? - perguntou Conrad.
        - Eu estava abenoando sua unio com Nicole. Eu a estava dando a voc, pelo menos at o fim do cruzeiro. Legitimizando a traio dela e a sua conquista clandestina. E, ao mesmo tempo, salvando a minha cara. Eu a teria perdido no jogo. No seria um corno, seria uma vtima da sorte, e um honrado pagador de dvidas. Era perfeito. Aplacaria a sua conscincia e a minha raiva e salvaria a vida de Nicole. Pensei que voc tivesse entendido. Mas voc recusou. Domage.
        - Nicole est morta?
        - Ainda no. Minha me ir mat-la, e no tem tudo o que precisa a bordo.
        Conrad ficou em silncio. No sentia nada. Sentia-se eviscerado. Estava pensando em Ann.
        - Que mundo, no , Conrad?
        - No h nada de errado com o mundo. Ele s  muito mal freqentado.
        - H tudo de errado com o mundo, Conrad. Ele nos merece.
        - Eu ainda no entendo por que voc no mandou me matar.
        - Depois que voc recusou Nicole, estava condenado.
        - Eu sairia da mesa com a nota malcheirosa do seu pai mas no iria muito longe.
        - Claro que no. Voc s seria visto de novo numa praia. Ou o que sobrasse de voc. Mas voc tambm recusou a nota. Fiquei lhe devendo um favor, e isso salvou a sua vida.
        - Depois que o favor estiver pago...
        - Voc morrer.
        O assistente de Mabrik chegou. Sua boca parecia estar supuran-do. Ele falou na mesma lngua indecifrvel para Mabrik, que sacudiu a cabea afirmativamente e o dispensou com um gesto.
        - Tudo acertado, Conrad. Um helicptero vir busc-lo no navio amanh de manh. Voc deve chegar ao aeroporto de Nicossia a tempo de pegar um vo para Londres e de I uma conexo para Nova York. As reservas j esto feitas.
        - timo.
        - O meu favor est pago?
        -  Depende do valor que voc d quela nota malcheirosa do seu pai.
        Mabrik ficou srio. Virou-se de perfil para Conrad, dando a entender que a conversa estava encerrada.
        - No est pago - disse.
        
        Eu no entendia por que meu pai tinha todos aqueles livros encadernados, guardados com aquele carinho, e ao mesmo tempo me dizia para ter cuidado: "Cuidado com as leituras, cuidado com as leituras!". Havia uma edio ilustrada das Mil e Uma Noites, odaliscas carnudas em papel acetinado que eu no sabia se olhava ou se cheirava, a Ilada - "Esquea os gregos!" - e at uma edio com capa de couro e letra gravada em ouro de O Capital, que eu olhei s uma vez, procurando as figuras. Um dia ele me encontrou sentado no cho da biblioteca, com um livro aberto na frente, namorando uma gravura sombria do mar, e decidiu fazer umas das suas declaraes em tom de oratria. Ele falava do mesmo jeito para um filho menor, um colega de congregao ou um jardineiro, e certa vez fora visto discursando animadamente para um pipoqueiro sobre o simbolismo das chagas de Cristo. Disse: "Todos estes livros, todas estas histrias, todas estas idias, todas estas palavras no significaram nada - nada! - se no fosse uma coisa. Voc sabe o qu?". No adiantou eu fazer "no" com a cabea, ele no estava me olhando. "Uma coisa que d sentido a tudo, uma coisa sem a qual as palavras so apenas manchas no papel, todas as histrias no passam de encantaes e todas as idias nascem mortas. O que ? Me diga, o que ?" Eu disse que no sabia. Ele baixou a voz, dramaticamente, e respondeu a sua prpria pergunta. "O pecado. " "Certo", disse eu, como se tivesse entendido e concordava sem hesitao. "O pecado!", gritou ele. "O que nos condena  o que nos salva. Ou, pelo menos, salva a nossa literatura. " Ele sentou na sua poltrona preferida, que tinha o couro rachado. Estava, agora, falando sozinho. "Muitas vezes voc vai ler um livro e sente que ali falta alguma coisa. Idias, timas. Redao, perfeita. Erudio. Estilo. Tudo. Mas falta uma noo do pecado. Voc sente que o autor reuniu todos os ingredientes mas esqueceu o principal. Quem no tem a convico do pecado nunca far a grande literatura. Voc concorda?" "Certo", respondi, cem por cento de acordo. Ele pareceu se dar conta da minha idade e fez um adendo. " possvel fazer manjar branco sem a essncia do coco?" "Impossvel", concordei. Manjar branco era umas das paixes dele. Anos mais tarde conclu que ele mantinha a biblioteca como um ex-alcolatra mantm uma adega bem estocada, para ter sempre  mo a magnitude da sua renncia. Ou um vertiginoso que escolhe viver  beira do abismo, como um desafio. Depois descobri que aquela era a sua vida clandestina. Uma das suas vidas clandestinas. Eu o entendi depressa demais.
        
        - Lembra de mim? Macieira, como o conhaque.
        - Entre - diz Llia.
        Como seria a casa de Llia? Um barraco. Como so os barracos? Nunca entrei num barraco. Minha me nos levava para distribuir roupa no Jardim do Leste, mas eu batia p e me recusava a sair do carro. No gosto do cheiro! Um barraco, mas bem-arrumado. Um quadro do So
        Jorge na parede. Filhos? No, Llia no tem filhos. Nem marido. Mora com a me. A me e uma irm, isso. Entre. Aceita um cafezinho? O caf  servido num copo. No, num ex-pote de gelia.
        - Voc est sozinha?
        - Minha me est no quarto dos fundos.
        A me  doente. Elefantase. No. Fraca do pulmo.
        -  sobre o crime do Jardim Paraso...
        - Sei.
        - Voc no disse  polcia que era faxineira de Estevo, o sem p.
        - Que importncia tem isso?
        - Voc sabe que ele escreve livros?
        - Sei.
        - E que num dos seus livros ele descreve um crime igualzinho ao do Jardim Paraso?
        Surpresa nos olhos castanhos de Llia. No so castanhos. Meu Deus, como so os olhos de Llia? Surpresa nos olhos (amanh eu vejo) de Llia. Ela nunca leu um livro meu. S l fotonovelas.
        - Que coincidncia! Como  a voz de Llia?
        - No gosto de coincidncias. Voc, por acaso, no reconheceu na parede riscada de sangue a marca da mente perversa, da mente criminosa, do escritor sem p, e decidiu limpar a sua culpa...
        - Eu?
        - O que estava escrito na parede?
        - Era grego.
        - Como voc sabe que era grego? Voc s l fotonovelas.
        - O senhor disse que era grego!
        - Confesse! Vocs so amantes. Vocs so cmplices. H um subtexto nesta histria e no descansarei at descobri-lo. Voc vem comigo at a delegacia. Agora!
        Ou ento:
        O inspetor Macieira entra no barraco sem dizer uma palavra. Examina a sala. Os mveis com forrao de plstico. As flores artificiais. A cristaleira, que era da av de Llia, uma parteira, chamada Valdecina, no, Lola, Lola Paixo, que fazia uma marca secreta em cada beb que ajudava a nascer, como pesquisadores que marcam pssaros para seguir seus hbitos migratrios, e que a cada faanha de um dos seus bebs, um que chegasse a vereador, ou a bandido famoso, dizia "esse  um Beb Paixo!" e ia visit-lo para pedir dinheiro, pedir a sua parte no seu sucesso, mas isso  outra histria. O macio Macieira espia o quarto dos fundos. A me de Llia dorme, ou entrou em coma. Quando Macieira volta para a sala j tem a faca na mo. Llia recua. Macieira, com o seu passo elegante, metade cabrito, metade inspetor, ou o que quer que ele seja, avana.
        - Eis um recado para o seu So Estevo - diz.
        E enfia a faca, primeiro a ponta, na garganta de Llia. Llia, Llia.
        Ou ento, ou ento!
        Llia recebe Macieira na porta com um beijo.
        - Fui visit-lo esta tarde - diz Macieira, tirando o casaco cuidadosamente e colocando-o nas costas de uma das cadeiras esmaltadas.
        - E a?
        - Deixei ele muito confuso. Ele no sabe quem eu sou. Ele no sabe quem voc . A esta altura ele no sabe mais nem que ele . Pobre perneta. Ns vamos peg-lo direitinho.
        Llia traz o seu conhaque num ex-pote de gelia.
        - Sabe como foi que eu me apresentei? Inspetor Macieira. Como o conhaque. Um bom toque, hein?
        Preciso parar com esta mania de inventar histrias. Mas se parar de inventar histrias eu vou ao fundo.
        
        A ligao do navio para Nova York estava ruim, a voz reverberava, parecia vir pelo fundo do mar, passada de cmara em cmara submarinas, uma voz aquosa. O mar agora s me traz ms notcias, pensou Conrad. A voz era da empregada dominicana de Hennessy.
        - Mr. Hennessy. He dead.
        Hennessy, morto! O Grego chegara at ele. Arrancara dele o endereo de Ann e o matara. Como foi? Quem matou? Mas a voz chorosa s repetia o seu lamento marinho.
        - Mr. Hennessy. He dead.
        Naquela noite, Conrad no dormiu. Pensava em Hennessy morto. Pensava em Ann nas mos do Grego. E era tudo culpa sua. Devia ter matado o Grego. Agora o Grego o atacava, matando seu melhor amigo e indo atrs da sua amada. Era no que dava ter amigos e amadas. Ficava-se vulnervel. Perdiam-se o sono e o raciocnio, pensava-se em vingana e no em justia.
        Quando, de madrugada, Conrad conseguiu dormir, sonhou que encontrava Hennessy despedaado, com partes do seu corpo espalhadas por uma imensa rea asfaltada, e que uma das mos de Hennessy, a vrios metros do antebrao correspondente, apontava na direo da carcaa calcinada de um carro, e dentro do carro, toda de branco a no ser pelo sangue que desenhara um colete vermelho sobre o seu peito, como um casulo num ninho preto, Ann, sua doce Ann, com uma segunda boca no pescoo. Era a primeira vez que Conrad sonhava numa das minhas histrias. No sei se a editora vai gostar.
        
        Eu cursava uma escola religiosa, ia  missa todos os domingos e tinha lies prticas de religio da me e das empregadas, alm das dissertaes do pai na mesa dominical, embora estas geralmente fossem sobre questes de poltica da igreja que eu mal compreendia e no precisava compreender. Mesmo assim, meu pai pediu a um primo, o padre Jos, que me desse aulas de catecismo, para me preparar para a primeira comunho, talvez adivinhando que aquela alma inquieta necessitava de cuidados dobrados. O padre Jos era magro e triste, mas entusiasmava-se com as imagens que escolhia para as suas lies.
        - O corao  como So Paulo...
        - Ele tambm no pode parar - adivinhei.
        - Hein? No, no. Ele propaga o sangue pelo organismo como So Paulo propagou a mensagem de Cristo pelo mundo. So Paulo levou o cristianismo at a ltima capilar, at a pontinha do dedinho...
        E o padre Jos mostrava a pontinha de um dedinho magro, onde no parecia estar chegando muito sangue.
        O crebro  que no pode parar. O crebro  um tubaro. Ns s morremos quando o crebro pra. Mesmo quando o corao no propaga mais o sangue, como as lies de Cristo, pelo corpo, ns s morremos quando o crebro morre. O tubaro, para tirar o oxignio que o mantm vivo da gua e para no ir ao fundo, tem que se manter em constante movimento. O crebro, o corao e os pulmes so os nicos rgos humanos que nunca tm folga. Mas o corao  uma bomba hidrulica, e os pulmes so foles. O crebro  um predador. Quando no tem mais o que consumir para se manter em movimento, consome a si mesmo. Ns dormimos. O crebro no dorme, sonha. O sonho  o crebro se consumindo, indo e vindo cegamente entre os seus circuitos como um tubaro faminto. Quando o sonho faz sentido, mesmo um sentido maluco,  porque o tubaro abocanhou alguma conexo e a est mastigando para ver se ali tem histria. Esse tubaro gosta de histrias. O padre Jos, que jamais entenderia a comparao do crebro, este maravilhoso receptor de revelaes para o corao cristo, com um tubaro cego, mesmo assim entendia a sua fome, e me lembro das aulas de catecismo como uma interminvel sucesso de histrias. Um incru, um dia, encontrou uma criana na praia tirando gua do mar com uma concha e a derramando num buraco na areia. "O que fazes?", perguntou o incru. "Estou transferindo o mar para este buraco na areia", respondeu a criana. "Isso  impossvel", disse o incru. "Pois  mais fcil eu transferir o mar, com esta pequena concha, para este buraco, do que encontrares uma resposta para o que procuras", respondeu a criana. "E o que eu procuro?", perguntou o incru. "Uma explicao lgica da Santssima Trindade", respondeu a criana, que era um enviado de Deus para salvar o incru do ceticismo. A histria do padre Jos terminava a, mas no meu crebro ela continuava, eu imaginava o homem, seria como o meu irmo mais velho? A criana podia ser eu, embora eu s conhecesse o mar dos livros do meu pai. E se... Mas o padre Jos notava a expresso do meu rosto e me chamava de volta  lio, eu precisava prestar ateno. A mente precisa de disciplina, no pode vagar. O padre Jos dizia:
        - A mente ociosa  o Jardim do Diabo.
        
        O HELICPTERO CHEGOU de manh. Antes de partir, Conrad procurou Mabrik. Encontrou-o no salo de jogo. O salo s comeava a funcionar  noitinha, no havia ningum ali alm de Mabrik. Ele tinha um baralho nas mos. Tirava cartas do baralho, uma a uma, e as atirava sobre a mesa com a figura para cima. Quando Conrad se aproximou da mesa, Mabrik acabara de virar o valete de um olho s.
        - Voc, decididamente, me d azar, Conrad.
        - O helicptero est a.
        - Eu sei.
        Mabrik ainda no tinha levantado os olhos. Mantinha-os fixos no olho do valete.
        - Eu tambm conheo um ditado armnio. Mabrik levantou os olhos. Conrad continuou:
        - "Um homem  escravo dos seus devedores. "
        - Esse eu nunca ouvi.
        Conrad no disse que acabara de invent-lo. Disse:
        - Quero que voc liquide a sua dvida comigo.
        - Como?
        - No mate Nicole. Mabrik sorriu com desdm.
        - Voc est perdido, Conrad.  um sentimental.
        - Poupe Nicole, e voc no me deve mais nada.
        - E estou livre para mat-lo...
        - Exato. Um atrativo adicional.
        - Minha me no vai gostar. Ela est fazendo os planos para a execuo de Nicole h dias. J telegrafou para Chipre, encomendando os instrumentos de que vai precisar.
        - Poupe Nicole.
        Mabrik voltou a olhar para o valete.
        - Est bem - disse, com um suspiro.
        - Ento estamos quites - disse Conrad. Mabrik deu um soco na mesa, fazendo voar as cartas.
        - No! - gritou.
        - Voc pagou o seu favor. No me deve mais nada!
        - No! No! No!
        Mabrik ergueu-se. Estava possesso. Sua tez parecia ter escurecido.
        - Voc acha que aquela nota malcheirosa do meu pai vale s isto? Uma carona de helicptero e a vida de uma cadela norueguesa? Isto  um insulto. Eu ainda no comecei a pagar voc, Conrad! Suma da minha vista! Suma da minha vista!
        Quando o helicptero decolou do solrio do navio, Conrad viu Nicole estendida  beira da piscina, s com uma calcinha de biquni. Sentada ao seu lado, toda de preto, encurvada e com a cabea pendendo sobre o peito, a me de Mabrik cochilava.
        
        Naquele dia, como todos os dias, o silncio me pegou desprevenido. Dona Maria desligara o rdio. Dali a pouco, j pronta para sair, apare-ceu na porta e avisou que a comida para o jantar estava na geladeira e a roupa lavada estendida na rea de servio.
        - Dona Maria, me faa um favor.
        Ela se assustou. Um favor? Eu andava muito estranho. Recebendo visitas e agora pedindo um favor. Que favor?
        - Amanh, quando vier, me traga um jornal.
        Outra esquisitice. Eu no tenho televiso, nem telefone, s comprara o rdio para ela ouvir e nunca lia jornais. Agora aquilo. Ela deu de ombros, querendo dizer que por ela tudo bem.
        
        Milagre. A aeromoa do avio que decolou de Londres para Nova York h pouco mais de meia hora informa que tem, sim, o usque Glenlivet para servir, e seu sorriso diz que Conrad tambm pode se surpreender se pedir mais alguma coisa alm de malte puro, como um programa depois de desembarcarem. Mas Conrad nem sorri.
        - E o seu gelo,  redondo?
        - Redondo?! No,  em cubos.
        - Ento esquea.
        Conrad fecha os olhos. Calcula o fuso horrio. Chegar a Nova York no comeo da noite. De Londres, telefonou para o escritrio da Interpol em Nova York. Ficou sabendo que encontraram Hennessy morto no seu apartamento. Fora degolado, e o criminoso depois escrevera uma palavra, com o sangue de Hennessy, na parede. Que palavra? O chefe da Interpol em Nova York comeara a soletrar.
        - A, ene...
        - Ann! - dissera Conrad, quase um soluo. Realmente, no era mais o mesmo Conrad. A editora no vai gostar.
        - No. Uma palavra estranha. A, ene, a, ene, g, ka, e.
        - Anangke?
        - Isso. Estamos investigando o que quer dizer.
        - Eu sei o que quer dizer.
        Outra surpresa. Pela primeira vez numa das minhas aventuras, das suas aventuras, Conrad demonstra ter qualquer tipo de erudio alm de tudo o que sabe sobre pistolas, carros, barcos e usques e da sabedoria prtica transmitida por Vishmaru. Conrad desligou o telefone antes que o chefe da Interpol pudesse perguntar o significado da palavra.
        Anangke. O que esse Grego quer de mim? Anangke. Necessidade cega. Ele mata por necessidade cega. Ele mata porque precisa matar. Ou ele quer dizer que  preciso matar? Em Ritual Macabro, no primeiro encontro, numa praia, entre Conrad e o Grego, este lhe dissera uma coisa estranha. "Que bom que voc veio, Conrad. Comea o catecismo. " Em seguida tinham lutado. Quando Conrad sentira que tinha o assassino sob controle, ele subitamente tirara uma faca, Conrad no sabia de onde, e o golpeara. Depois fugira. Aquela fora a primeira cicatriz. O terrvel, pensou Conrad mais uma vez,  que ele no  louco. Anangke no  uma explicao.  uma mensagem. A histria por baixo da histria. A editora no vai gostar.
        Conrad alugou um carro no aeroporto Kennedy e seguiu para a casa de Ann, em Long Island. Pela primeira vez, em qualquer uma das minhas histrias, das suas histrias, Conrad sentia o medo como uma presena fsica. Estava cheio de medo, o medo era como outro Conrad por dentro do velho Conrad.
        
        Decidi no matar Ann, a doce Ann. O Grego batera na sua porta.
        - Posso entrar? Meu nome  Hennessy. Como o conhaque.
        - Sr. Hennessy! O Conrad j me falou muito no senhor.
        - Somos grandes amigos.
        - Mas ele me disse que Hennessy era um irlands bonacho...
        - Ah, sim?
        - Eu no quero ser indelicada - disse Ann -, mas o senhor por acaso tem alguma identificao?
        Mas, contou Ann, enquanto Conrad a segurava nos braos, e afagava sua cabea, e beijava seus cabelos, o Grego j tinha entrado na casa, e j tinha a faca na mo. Ele a amarrara e amordaara. E arrancara sua roupa. E depois, lentamente, com a ponta da faca... Ann no pde continuar.
        - Pronto, pronto... - disse Conrad.
        Conrad, tomado de grande compaixo. Conrad, engasgado de ternura e horror. Conrad... Mas chega por hoje.
        
        Quando pra o rdio da dona Maria, o silncio parece oprimir os ouvidos. Mas em seguida os rudos do prdio comeam a se infiltrar no silncio, a fazer estrias no silncio, e a morna exalao do poo comum ocupa a minha sala. Quando o prdio silencia, h o rudo surdo da cidade, como um trovo, como o de uma mquina invisvel. Quando isto termina, h o barulho do meu corao que, como So Paulo, no cessa a sua catequese. No dia em que este tambm parar, ficar o som quase imperceptvel do tubaro indo e vindo, indo e vindo, rodando e rodando. At que isto tambm silencie, e eu me afogue.
        
        
      3
        
        
        Meu irmo mais velho sim, era um caador de baleias. Ele se chama Toms, por causa de Santo Toms de Aquino. Meu pai deu ao primeiro filho o nome de um santo filsofo e ao ltimo o nome de um santo primitivo, o primeiro mrtir da Igreja. Estevo. Posso ver Estevo na mesa. Est com o qu? Quatorze, no mximo quinze anos.  um leitor de Tarzan mas tambm  o nico dos sete irmos que abre os livros encadernados da biblioteca do pai, para ver as gravuras ou s para cheirar o papel. Mas ele j leu, sem entender, trechos da Suma Teolgica sublinhados a tinta pelo pai. Agora eu sei que quando moo meu pai procurava um endosso aristotlico para a sua crena furiosa.  medida que ia passando o tempo, sua alma em conflito ia desistindo de conciliar inquietao intelectual e f. Quando eu nasci, ele j se resignara  f cega e simples dos mrtires, por isto eu me chamo Estevo. Ele ento no pedia mais nada da religio alm de que fosse um quebra-mar para a sua angstia. Um lago, um ancoradouro. Mas era um estranho barco fundeado que criava suas prprias tormentas. Ali est Estevo olhando do pai para o irmo mais velho e deste para o pai com a mesma devoo, seu corao aos saltos. Trava-se uma batalha na mesa. O velho contra Toms, e por um obscuro raciocnio Estevo se sente culpado pela briga. Ele foi o pioneiro, o primeiro a afrontar o pai, anos antes. Por sua culpa se quebrou o encanto da mesa dominical. Agora o filho mais velho ergue sua voz contra o pai e a discrdia est solta na casa. Qual era a questo? No me lembro se foi bem assim, estou inventando. Toms desafiara um argumento do velho sobre a sacralidade da famlia e as razes superiores do sangue. Dizia que as razes da coletividade eram superiores e deviam prevalecer. "Ora, ora", dissera o pai. Ora, ora. E para o meu espanto, gritara:
        - Leia os gregos. Est tudo I. Leia os gregos!
        - Eu no preciso ler os gregos - respondera Toms, meu heri. - No preciso de histrias antigas. Basta a histria de hoje. Se o meu pai  injusto,  um injusto antes de ser meu pai.
        - O que que seu pai fez?
        Uma voz estranha na mesa, a da minha me.
        - Nada. Eu estou falando em tese.
        - Est falando bobagem.
        - Pro senhor!
        - Bobagem! O nosso advogado pensa que est numa das suas reunies do partido. Eu gostaria de saber o que falam de mim nessas reunies.
        - O senhor nunca  assunto.
        - Eu sei do que vocs falam! De acabar com a minha classe. Com a nossa classe. De destruir tudo que eu represento. O senhor se engana. Eu sou o assunto o tempo todo. Mesmo que voc no saiba, eu sou o assunto!
        - Ns discutimos a injustia. Se o senhor se considera a corporificao da injustia...
        - Leia Sfocles!
        - Eu estou cagando pros gregos!
        - Saia da mesa!
        Mas ele mesmo deteve Toms quando este se ergueu para sair.
        - Pense em tudo que voc quer destruir. Pense em por que quer destruir. Examine os seus motivos. No tm nada a ver com justia.
        - Eu conheo todos os meus motivos. Eu me enxergo. O senhor  que no se enxerga.
        - Sai daqui. Sai daqui!
        Mas outra vez ele o chamou de volta antes que chegasse  porta.
        - Esta  mais uma chaga no corpo de Cristo. Cada vez que um filho agride o pai,  mais uma chaga no corpo de Cristo!
        - Eu no agredi o senhor.
        Meu pai, meu outro heri, agora estava de p tambm. Vermelho.
        - Quando foi a ltima vez que voc foi  igreja? Nem na crisma do seu irmo...
        Toms voltou, conciliador.
        - Papai, ns estvamos para ter esta discusso h muito tempo.  melhor assim, botar tudo pra fora. Eu no agredi o senhor...
        - Voc disse um palavro na frente da sua me.
        Toms fez um gesto de desistncia. Estava na porta da sala de jantar quando o pai o deteve pela terceira vez.
        - Me agrida. Me destrua. Mas no abandone a Igreja.
        E ento o velho ator se superou. Conseguiu entrelaar as mos sem largar o charuto, atirou a cabea para trs com os olhos fechados e exclamou:
        - Dulcissima mater!
        - Grande me, essa sua Igreja. Fundada na disposio dos pais de matarem os filhos. Puta me, essa sua Igreja.
        - "Minha" Igreja, no. Sua Igreja. Ela  sua Igreja tambm! Mas Toms j tinha sado. Saiu da sala de jantar e da casa. S voltou depois para buscar suas coisas e nunca mais entrou no casaro.
        Vejo Estevo olhando fixo para um ponto na mesa, como Mabrik para o olho do valete, e se controlando para no chorar. Vejo a me chorando. Vejo os outros irmos. Francisco, o do meio, j com os olhos empapuados de bbado, mas curiosamente sempre o mais elegante de todos. No enterro do velho, depois do acidente, ele apareceu cambaleante, com a barba por fazer, as lgrimas correndo livremente dos olhos e o ranho do nariz, mal conseguindo falar, mas com um terno impecvel, sapatos lustrados, gravata no lugar e colete. Tem outro personagem na mesa, invisvel a no ser para mim. O outro Estevo. O que eu inventara, o que no precisava agentar as conseqncias daquela cena mas podia partir no seu barco para o mar e o esquecimento, pois tinha a bno de no pertencer  famlia. Ele se chamava Flix. Tudo o que precisava estava no barco e ele viajava s com um cachorro, seu companheiro de aventuras e confidente. Mas a esta altura minhas histrias do Flix tinham comeado a mudar, ora era o cachorro que me acompanhava, ora era uma mulher. Primeiro era o cachorro e a mulher, aos poucos o cachorro fora se transformando em mulher, em Ana. Coincidiu que o primeiro beijo que Flix deu em Ana, certa noite, sobre o lodo frio de um jngal, aconteceu na vspera da minha descoberta de que meu pai tinha outra mulher. Mas isso  outra histria.
        
        Fiz meu suco de laranja rapidamente mas no adiantou, dona Maria chegou antes que eu pudesse tom-lo.
        - Meu cunhado tava com gua na barriga. Tirou mais de um litro, parecia lavagem.
        Derramei o suco na pia. Dona Maria trouxera o jornal. Fui direto para as pginas policiais, no sabendo exatamente o que esperava encontrar. Um banco assaltado, um morto. Pai mata filho com faco. Nada do que eu estava esperando - fosse I o que fosse. Llia normalmente vinha s dez. No consegui escrever enquanto a esperava. Corrigi o que tinha escrito no dia anterior. Por que eu decidira poupar a vida de Ann? Aquilo me criaria um problema. Em vez de Ann morta, apenas uma razo para Conrad ir atrs do Grego com nimo redobrado para faz-lo pagar pelos seus crimes, Ann marcada, Ann neurotizada, mais uma carga para Conrad, j to debilitado por dvidas e indagaes que a editora decididamente no vai gostar. Quando chegou dez e meia sem que Llia aparecesse, decidi comear a escrever. - Dona Maria, abaixa o rdio!
        
        O Grego desenhara a palavra "omphalos" com a ponta da faca na barriga de Ann, de cima para baixo, de modo que o primeiro "o" era um crculo em torno do umbigo e o "s" parecia uma estrada no sop do monte pubiano. Conrad nunca vira Ann, sua doce Ann, nua, por isso aquele seu gesto, abrindo o robe para que Conrad examinasse sua ferida, tinha a solenidade de um sacramento. E ao mesmo tempo a ferida era um estigma. O Grego vira a nudez de Ann antes dele. A faca aviltadora do Grego riscara o ventre de Ann. Ele jamais veria o ventre de Ann na sua pureza original, como o ventre de Eva, sem marcas, sem nada escrito. "Omphalos." No, o Grego no a violara. O Grego nem tirara o casaco. O Grego apenas dissera que aquilo era uma mensagem para Conrad. "Ele saber onde me encontrar", dissera o Grego. Conrad, tomado de grande compaixo, engasgado de ternura e horror, pediu desculpas a Ann. Ele era a causa daquele ultraje. Se tivesse matado o Grego aquilo no teria acontecido. Mas agora perseguiria o aviltador e o mataria. "No v", disse Ann, agarrando-se a Conrad. "Fique comigo!" Mas Conrad precisava ir. Aquela seria sua ltima aventura, ele prometia. Depois ficaria com Ann para sempre. Mas no poderia viver no mesmo mundo com o Grego sabendo que tinha deixado aquele ultraje sem vingana, todos aqueles crimes sem resoluo, histrias inacabadas. Era o seu destino. "Mas  o que ele quer", insistiu Ann. "Voc no estar cumprindo o seu destino, estar cumprindo o dele. Ele  um louco, tudo isto para ele  um jogo, uma charada sangrenta feita por uma mente doentia. Fique comigo!" Mas Conrad precisava ir. O destino do Grego e o dele eram a mesma coisa, a charada era um desgnio antigo, o jogo era um jogo proposto h tempo, por outra mente obscura. Que jogo? "S saberemos quando ele terminar", disse Conrad. Talvez eu ganhe, talvez no. Mas preciso descobrir qual  o jogo.
        Decidiram que Ann iria para a casa dos pais, no interior. Conrad achava que ela devia ficar longe do mar. Longe do mar ela estaria segura. Depois de levar Ann ao aeroporto, comprar sua passagem para den, Iowa, e ajud-la a embarcar, Conrad rumou para Manhattan. A noite tinha uma tonalidade estranha, uma luminosidade difusa, no parecia noite mas o negror opressivo que precede uma tempestade no meio do dia. Eletricidade sem descarga, um trovejar contnuo sem troves, uma iminncia surda, um prenuncio, Conrad no sabia do qu. Que horas seriam? Talvez fosse dia mesmo. Ele no ajustara seu relgio. O corao desregulado. Eram oito da noite no Mediterrneo. Conrad desnorteado. "Omphalos." Qual era a mensagem do Grego? O mundo inteiro era uma parede na qual o Grego riscava suas pistas sangrentas, o Grego podia estar por trs dos prprios pressgios daquela noite falsa, at o reflexo intermitente dos faris no pra-brisa do carro de Conrad faria parte de um cdigo a ser sondado. Tudo era mensagem. O mundo era um vasto enigma, as suas partes dispersas eram as peas do jogo que faltava encaixar. Conrad ouvira em algum lugar que existia uma, e apenas uma, maneira correta de jogar o xadrez, mas que ningum ainda a descobrira. Todos os jogos de xadrez, mesmo entre os grandes mestres, eram tentativas frustradas, cada um um novo captulo na histria da ignorncia humana. Um hipottico jogador invencvel no seria necessariamente o que tivesse desvendado o jogo perfeito, seria apenas o que tivesse penetrado mais fundo na ignorncia e estivesse mais solitrio na sua busca. Era assim que Conrad se sentia. Estava  beira de uma revelao, na iminncia de alguma viso final, e isto apenas aguava sua solido. Aquela sensao de que at as entranhas o tinham desertado. Ele era apenas crebro e medo. A silhueta de Manhattan contra o cu amarelo, quando o carro de Conrad entrou numa das pontes sobre o East River, tambm poderia ser um cdigo, um carto perfurado com outra pista do Grego. Medo e crebro. E gravada no crebro de Conrad, como se tambm tivesse sido riscada pela faca profanadora do Grego, a imagem do ventre de Ann, da doce Ann, que nunca mais seria a mesma.
        
        LLIA NO VEIO, mas o macio Macieira entrou no apartamento, no pela porta mas pelo rdio, o rdio infernal da dona Maria. Me dei conta de que tinha ouvido o seu nome e por um momento fiquei desnorteado, como Conrad no caminho de Manhattan. Macieira? Onde? Tinham falado o seu nome no rdio.
        - Estamos em contato com o inspetor Macieira, da 12 DP, nosso bom amigo Macieira, que nos dar as ltimas notcias sobre o caso. Voc est a, Macieira?
        - Estou aqui. Bom-dia, bom-dia ao auditrio e ao pblico de casa.
        - Macieira, neste caso voc no est agindo apenas como policial, no  verdade? Mas tambm como um amigo da famlia.
        - Exatamente. Al?
        - Pode falar.
        - Exatamente. Eu sou padrinho do Zarolho. Era. Sou compadre da dona Glria e do Candiota. Do Cand.
        - O Cand est desaparecido, no  assim, Macieira?
        - Est, mas dever ser preso nas prximas horas.
        - Voc j sabe onde ele est?
        - Sei.
        - Macieira, h dias a dona Glria esteve neste programa. Estava desesperada porque o Cand tinha ameaado matar o Zarolho com um faco. Infelizmente, o caso teve o desfecho que a dona Glria temia. O Zarolho chegou em casa drogado e o Cand cumpriu a sua ameaa. No foi assim, Macieira?
        - Foi essa a ocorrncia, exato.
        - Isso no poderia ter sido evitado, Macieira?
        - A dona Glria tambm me procurou e eu tentei conversar com o Cand. Eu sei que voc tambm fez um apelo ao Cand, no ar. Mas...
        - O destino quis de outra maneira, no  assim, Macieira? O Zarolho escolheu o caminho do mal e o seu destino, de certa forma, estava traado. E ontem, vendo o filho chegar em casa drogado, outra vez drogado, o Cand, o pai desesperado, no se conteve e cumpriu sua ameaa.
        - Se bem que... Al?
        - Sim, fale, Macieira!
        - Se bem que, conforme eu estou informado, a histria no  bem assim. Eu conheo bem, porque o Luiz Carlos, o Zarolho,  meu afilhado. Era. E eu conheo a dona Glria e o Cand h muito tempo.
        - Alis, o Macieira  muito relacionado em todo o Jardim do Leste. Para quem no sabe, o inspetor Macieira  quase um heri para o pessoal do Jardim do Leste, no  assim, Macieira? Eu sei que voc vai dizer que no , mas o seu trabalho preventivo entre os menos afortunados  importantssimo.
        - A gente faz o possvel, no ?
        - Mas voc estava dizendo que o caso no foi bem assim. Como no foi bem assim, Macieira?
        - .  que parece que tinha mais coisa por trs da histria toda. Eu estou investigando.
        - Voc pode nos adiantar alguma coisa, Macieira? Das suas investigaes, para o nosso pblico. Seria possvel?
        - No quero, claro, ahn, comprometer o trabalho da polcia, mas parece que o assassinato tem, assim, outras conotaes, no ? Coisas do trfico de drogas. O Cand parece que tambm estava metido no negcio.
        - Oh, meu Deus. Ser possvel, Macieira?
        -  o que estamos investigando. Assim no seria s uma ocorrncia familiar, no ? A morte do Zarolho. Estaria ligado a uma guerra por pontos de txicos.
        - Que mundo o nosso, no , Macieira?
        -  um lugar muito mal freqentado, no ?
        - Boa, boa, Macieira. E ateno, auditrio. O inspetor Macieira vai nos manter informados sobre a sua investigao. Ele sempre vai fundo nas suas investigaes, no  assim, Macieira? Usando principalmente a inteligncia e a psicologia. Ainda no houve caso que o inspetor Macieira no resolvesse.
        - Houve um, sim.
        - S um! Ouviu, auditrio? R, r. Macieira: muito obrigado por mais esta participao no nosso programa.
        - Obrigado, bom-dia.
        - Bom-dia! E a nossa mensagem agora vai, do corao, para a dona Glria, que a esta hora deve estar enterrando o seu filho Zarolho. Coragem, dona Glria. Confie em Deus. Deus no abandona as suas criaturas.
        
        Conrad mantinha um apartamento em Nova York. Um pequeno apartamento, uma espcie de concha de acrlico, funcional como a cabine de um barco. A geladeira estava desligada e por isso no havia gelo nas formas. Sem pacincia para esperar que o gelo se formasse, Conrad apenas tomou um banho rpido e saiu para a rua. Estava cansado, mas sabia que no conseguiria dormir, pensando em Hennessy degolado, pensando na barriga marcada de Ann e na obsesso do Grego. Passava da meia-noite. Conrad finalmente ajustara o relgio para o horrio de Nova York, o que de certa forma o fazia sentir-se de novo no controle do seu corao. Pelo menos do seu corao. Conhecia um bar perto do Times Square, o umbigo de Nova York. O bar no tinha nada de extraordinrio, mas servia o usque Glenlivet e seu gelo era redondo e o barman era um velho judeu com quem Conrad gostava de conversar, quando queria conversar. O barman se chamava Spinoza. Em Fria Assassina, um dos seus palpites ajudara Conrad a resolver um caso. Ele recebeu Conrad com um aperto de mo.
        - Glenlivet, com gelo redondo. Acertei?
        -  bom estar entre amigos.
        - Voc est com timo aspecto.
        - Mentira sua.
        - Voc est com pssimo aspecto, mas achei que voc talvez no quisesse saber. Onde tem andado?
        - Estive num hospital, depois num cruzeiro de luxo.
        - Nenhum dos dois lhe fez bem. Evite lugares assim. A bebida j estava na frente de Conrad.
        - Eu nunca lhe perguntei - disse Spinoza. - Mas por que gelo redondo?
        - O usque prefere.
        - Como  que voc sabe?
        - Umbigo - disse Conrad.
        - O qu?!
        - Umbigo. O que o umbigo sugere a voc?
        - Sei I. O centro. O centro do corpo. O centro de qualquer coisa. O centro de uma igreja  chamado de umbigo, no ?
        - Toda igreja representa um corpo humano. Um corpo de braos abertos, como o de um crucificado. O centro da igreja corresponde ao centro do corpo, ao umbigo, e  o ponto de contato entre a terra e o cu, entre a humanidade e o cosmo. A parte central da igreja  a nave e o umbigo  o seu centro.
        - E ento?
        - Se algum quisesse marcar um encontro com voc, e dissesse apenas a palavra "umbigo", para onde voc iria? Para uma igreja ou um navio?
        - Eu no sairia daqui e manteria meu umbigo protegido. No vou a encontros com loucos.
        - Essa pessoa no  louca.  um assassino que usa o sangue e o corpo das suas vtimas para deixar mensagens, como instrues num jogo ou pistas de uma charada.
        - Certo. Perfeitamente normal.
        - Dor - disse uma voz feminina  esquerda de Conrad. Conrad virou-se. A mulher sentada ao seu lado podia ter cem anos. A pele tostada do seu rosto lembrava a tnue pelcula que envolve uma cebola. Conrad imaginou que com um leve puxo da ponta do seu nariz de bruxa retiraria a pele inteira e revelaria outra cara por baixo. S os fortes riscos pretos em torno dos olhos pareciam fixar a pele  carne do rosto.
        - O qu? - disse Conrad.
        - Umbigo. Dor. Parto. A marca do parto. Gerao. Geraes. A eterna renovao da espcie, sempre com dor. Uma gerao sai de dentro da outra.  natural, e  monstruoso.  dilacerante.  um crime. O umbigo  a cicatriz.  a marca do crime. Voc no pode negar que saiu da sua me, e que ela sofreu com isso. A prova  o umbigo. A paternidade  um mito,  uma histria,  uma abstrao legal. S a maternidade  real. Se voc quer sair do labirinto, no retrace a histria. Siga o cordo umbilical, siga a sua culpa. Ou voe. No h uma terceira sada.
        - Se voc tivesse que encontrar uma pessoa, e a nica indicao do local do encontro fosse a palavra "omphalos", para onde voc iria?
        - Para o tmulo da minha me. O que seria difcil, porque minha me casou com trs chefes ndios ao mesmo tempo, e quando ela morreu cada um quis uma parte do corpo para enterrar no cho sagrado da sua tribo, mas isso  outra histria. Onde est a sua me?
        Conrad mergulhou o olhar no copo de Glenlivet.
        - No quero falar disso.
        Ele no sabia quem era sua me. Sua origem era vagamente polonesa. Quando pensava na infncia, s se lembrava de um menino num barco, no alto-mar. Nada antes disso. Ouviu uma voz masculina  sua direita.
        - Omphalos? Eram as bossas nos escudos gregos.
        O homem sentado do seu outro lado tambm poderia ter cem anos, mas a pele estendida sobre o rosto descarnado parecia de aniagem, um disfarce improvisado para a caveira. Ele falava quase sem mexer a boca.
        - Tambm eram as extremidades dos rolos de pergaminho. Umbilicus, em latim. Um dos nomes do rolo, em latim, era "pnis". E esse o seu caminho. O caminho dos homens. Escudos. Brases. Estandartes. A guerra. A escrita. A razo. A histria dos homens. No d ouvidos a essa bruxa.
        - R! - gritou a bruxa.
        - Pais e filhos! - gritou o velho. - Mes so como a pele antiga que o bicho deixa para trs na muda. Como as cascas do ovo, um receptculo temporrio, intil no resto da histria. Pais e filhos. Siga esse caminho!
        - R! A histria dos homens...  a histria das mulheres feita por incompetentes! Cada guerra  um parto que d  luz cadveres e aleijes. Rios de sangue. Rios de sangue! Crimes sem proveito! Geraes condenadas!
        - Ei, ei - disse Spinoza, pedindo com um gesto que ela baixasse a voz.
        - R - repetiu a velha, mais baixo. - Um homem s sai de dentro de outro se o matar. Nenhum filho sabe quem  seu pai. Portanto, o homem que ele matar para poder nascer, esse  o seu pai. No me diga que voc vai querer seguir essa histria srdida. Siga o cordo umbilical. Siga o...
        Conrad a interrompeu. Era conversa demais para uma histria de quinta categoria.
        - Espere! Deixe eu perguntar para o velho. Para onde voc iria, se recebesse um convite s com a palavra "omphalos"?
        O velho ficou pensativo.
        - No sei - disse finalmente.
        - Claro que no sabe! - disse a velha. - Ele precisa consultar os astros. Desenrolar quilmetros de pergaminho. Examinar os pressgios, consultar os mapas e as cartas, e mesmo assim chegar  resposta errada. Mas eu sei. Aqui!
        E a velha bateu na prpria barriga com o punho cerrado.
        - Bruxa! - rosnou o velho.
        - No ligue para esses dois - disse Spinoza. - Eles so casados. H cinqenta anos que discutem. Sentam separados assim justamente para que sente algum entre eles e d motivo para outra discusso.
        - O que voc acha que significa "omphalos", Spi? Spinoza deu de ombros.
        - J disse. O centro. O centro do mundo.
        - E onde  o centro do mundo?
        - Depende. Pra mim  Nova York. Este  o maldito umbigo sujo do mundo. Para um muulmano  Meca. Para um catlico deve ser o domo da Baslica de So Pedro, ou a careca do papa. De que religio  esse seu amvel assassino?
        - No sei. Ele  grego.
        - Grego? Ainda  aquele mesmo animal da outra histria? No o prenderam?
        - Eu quase o peguei. Foi ele que me mandou para o hospital. Spinoza fez o bico, mas assoviou em silncio.
        - Me sirva mais um - pediu Conrad, apontando o copo.
        - Grego - disse Spinoza, pegando outro copo, enchendo com gelo redondo e derramando usque dentro. - Grego... O centro do mundo, para os gregos antigos, no era Delfos?
        - Era - disseram a velha e o velho, em unssono.
        - Delfos... - disse Conrad. - Pode ser.
        - Mas onde, em Delfos? - perguntou o velho.
        - E quando? - perguntou a velha.
        - Sua informao est incompleta - disse Spinoza.
        - Preciso dar um telefonema - disse Conrad, olhando o relgio e descobrindo, abismado, que ele voltara a mostrar a hora do Mediterrneo. Outro sinal.
        O chefe da Interpol em Nova York, Martell, como o conhaque, no gostou de ser acordado naquela hora da noite, mesmo por um velho amigo de Hennessy. No, no havia pista do Grego. No sabiam se ele ainda estava em Nova York ou mesmo nos Estados Unidos. A cena do crime, no apartamento de Hennessy? Conrad podia ir I no dia seguinte, era s dar o nome de Martell, a polcia local o deixaria entrar. O corpo fora retirado, mas nada mais fora tocado, a palavra grega ainda estava escrita na parede, nenhuma faxineira louca a apagara. No, no havia mais nada escrito nas paredes. Nenhuma marca no corpo de Hennessy alm do pescoo aberto de lado a lado, como um sorriso, desculpe, ns tambm o amvamos. A posio do corpo? Ele estava de bruos, os braos paralelos ao tronco, as pernas semi-abertas, os ps virados para dentro. Nenhum sinal nisto, pensou Conrad. Aparentemente, a nica mensagem da morte de Hennessy era a palavra "Anangke". Necessidade cega. Significando o qu? Martell no respondeu ao "boa-noite, obrigado e desculpe" de Conrad, apenas desligou o telefone, certamente amaldioando aquele estranho ex-marinheiro que vivia se metendo em aventuras que davam naquilo, agentes degolados ou acordados cruelmente de madrugada.
        Spinoza estava se preparando para fechar o bar. A bruxa e o marido, de p, examinavam um ao outro. Sua bolsa? Aqui. O chaveiro? Aqui. Conrad pagou pelo usque e se despediu. Ao cruzar a porta ouviu a velha gritar.
        - Siga o cordo umbilical. Siga a sua culpa! Ou voe! E o velho:
        - Pais e filhos.  tudo sempre sobre pais e filhos!
        
        Dona Maria me trouxe o almoo. Substitu a mquina de escrever por uma bandeja no meu colo.
        - Esse seu programa no termina nunca, dona Maria? Ela virou as costas.
        - Pelo menos pe mais baixo!
        Ela entrou na cozinha. O rdio continuou no mesmo volume. Pensei no inspetor Macieira. Ento ele era um personagem! No meu, um personagem da cidade. Dos trs encontros que eu tinha imaginado dele com Llia, podia descartar dois. Ele no era um assassino que, por alguma razo, tentava me incriminar repetindo os crimes que eu descrevia nos meus livros. Nem agia junto com Llia em alguma conspirao contra a minha sanidade, ou o que restava dela. Era mesmo um inspetor investigando um crime. Mas o crime existira mesmo? Se ao menos o inspetor voltasse a me visitar. Eu queria saber mais coisas sobre o crime e sobre ele. E estava com saudade do som da minha voz. A verdade  que gosto de me ouvir contar histrias. Eu no falara tanto sem ser interrompido desde o tempo em que me imaginava um garoto sozinho num barco no meio do mar, apenas eu e o meu cachorro, e eu me chamava Flix. Flix Culpa. Ouvira aquela expresso numa conversa do meu pai com o seu melhor amigo, o doutor Vico, e gostara do som: Flix Culpa. Flix. Eu me chamaria Flix e nunca cresceria. No interminvel programa da dona Maria um reprter passou a transmitir diretamente do enterro do Zarolho. Havia grande revolta entre os amigos do Zarolho. Falava-se em vingana contra o Cand. O macio Macieira devia estar no enterro do seu afilhado, consolando a dona Glria e recomendando calma. Eu cuido do assunto, calma. Em toda a sua carreira, ele s no resolvera um caso. No foi isso que ele dissera? Em toda a sua vida o macio Macieira s no resolvera um caso.
        
        Se por trs de toda grande fortuna existe um crime, como dizia o meu irmo Toms, eu nunca fiquei sabendo que crime ancestral nos legara aquele casaro com vitrais numa avenida de casares e aquele jardim comprido em que eu reinava. O jardim descia uma encosta atrs da casa, em trs terraos, e s eu me aventurava na vegetao espessa contra o muro dos fundos - uma coragem que meus irmos exploravam, pois era sempre eu que ia buscar a bola, j que era o nico que no temia cobras nem areias movedias. Era de I que eu arrancava uma planta rasteira e tenra, com gosto de aniz, que comia crua, at o dia em que o jardineiro, Joaquim das Flores, gritou que o que fazia aquela planta crescer era mijo de gato, menino! Foi I que vi o meu primeiro seio vivo, o de uma das tantas meninas que passavam pelo casaro, usado pela minha me como uma espcie de entreposto de caridade at que a colocasse como empregada em outro casaro. "S mostra, s mostra", e ela mostrara, e eu me julgara um conquistador intrpido, at descobrir que a trs dos meus irmos ela cedera mais do que a viso de um seio moreno, e o Francisco chegou a declarar que fora mais longe do que a minha imaginao alcanava: "Acabei dentro!" O primeiro terrao do jardim, perto do casaro, era o mais bem cuidado. Coberto de areio, com canteiros, bancos de pedra e at a esttua de uma pequena ninfa sem nariz. O segundo terrao, de terra batida, era onde jogvamos futebol, e onde eu sempre queria ficar no time do Toms, e montvamos a mesa de pingue-pongue. Em torno da qual, certa vez, com inesperada solenidade que me deixou impressionado, o Toms anunciou a fundao, naquele instante, da Sagrada Ordem dos Irmos da Bolinha e dos Cavaleiros do Segundo Terrao, cujos laos msticos nos manteriam unidos para sempre, mesmo que cada irmo fosse para um dos sete lados do mundo, desde que todos se submetessem ao ritual de iniciao. Quem seria o primeiro? "Eu", gritei eu, emocionado. Qual seria a iniciao? "Raquetao!", gritara Toms, e eu tivera que fugir para dentro de casa, perseguido pelos irmos s gargalhadas, sempre o inocente. O terceiro terrao, com a grama alta que se transformava num jngal perto do muro, era o meu territrio. Era a ilha do Pacfico em que Flix desembarcava do seu barco com seu co fiel para mais uma aventura, depois a alcova silvestre em que Flix, fazendo jus ao seu sobrenome, se masturbava sonhando com Ana, com muitas Anas. E a cidade era uma extenso do jardim. No era esta cidade doente que eu vejo pela janela, cujos estertores me agitam o sono, mas uma continuao do meu principado, e eu a dominava e amava. Vejo Estevo a caminho de casa, numa avenida de casares como o seu, sobre cujas paredes slidas a luz do entardecer de outono parece pousar como um vu, antegozando o cheiro de comida que o receber em casa, e a cidade e a casa so uma coisa s para o inocente. Vejo Estevo na biblioteca do pai, outro territrio encantado. Agora sei que meu pai guiava minhas leituras com pistas, como o Grego induzindo Conrad. "No chegue perto de Nietzsche", e I ia eu procurar o Nite. "Isto voc no consegue ler, ainda mais com o seu ingls", segurando Melville, e eu tentava ler Melville. Mas ele no lia mais. Quando Toms saiu de casa, meu pai no lia mais nada, salvo jornais e boletins da Igreja. Sentava na sua cadeira de couro rachado para ler os jornais ou os boletins, ou do seu lado da mesa de xadrez quando recebia o doutor Vico, "Monsieur Vic" como ele chamava o amigo. Na juventude os dois tinham passado uma temporada na Europa, entre Londres e Paris, e gostavam de relembrar a viagem, embora discordassem cada vez mais a respeito de detalhes,  medida que envelheciam. O doutor Vico gostava de contar histrias. Ele mesmo era personagem de uma histria espantosa, que eu s fiquei sabendo depois. Histrias, histrias. "O gnio de So Paulo foi transformar o cristianismo numa grande histria", disse o doutor Vico. Eu estava I. Eu estava atirado na poltrona de couro rachado do meu pai, lendo um livro. Ele e o doutor Vico se enfrentavam na mesa de xadrez. Meu pai lanava baforadas de fumo, deliberadamente, na direo do doutor Vico, que se defendia da fumaa com gestos exagerados. H anos eles faziam aquilo.
        - Os santos. A Igreja catlica  a maior de todas porque tem santos. Grande elenco, cada um com uma histria. Histrias para todos os gostos. Hein? Crimes. Sexo. Aventura. Emoes fortes. Milhares de histrias.
        O doutor Vico olhava na minha direo, me convidando para ser cmplice nas estocadas contra o meu pai, que s sacudia a cabea e dizia:
        - Monsieur Vic, Monsieur Vic...
        A cena com Toms na mesa fora dias antes. Meu pai no tocava no assunto. Mas parecia ter envelhecido anos em alguns dias. O doutor Vico apontava para mim.
        - Veja os seus filhos. Cada um  um santo. Um diferente do outro. Esse a gosta de ler. Cada um vai ter uma histria.
        - Nenhum vai dar em nada - disse o meu pai.
        Eu nunca tinha ouvido ele falar assim. No era uma opinio, era uma maldio.
        -  Estevo - disse o doutor Vico. - So Estevo, o mrtir. Sabe que "mrtir" tem a mesma raiz grega de "memria" e tambm quer dizer testemunha? O que voc vai ser nesta famlia, Estevo? Mrtir ou testemunha?
        - Joga - disse o meu pai, com impacincia.
        - Joguemos. Eu ainda no sei se o xadrez  o triunfo da mente humana sobre o infinito, ou se  o contrrio. O que voc acha, Estevo?
        - Testemunha - respondi, distrado.
        
        Conrad no voltou para o seu apartamento. Caminhou at o Times Square. Seria ali o umbigo do mundo? Vamos, Grego. Vamos. Voc e eu. Os anncios luminosos estavam acesos, mas anunciavam para ningum. O cu parecia ter baixado, a encruzilhada estava deserta. Que horas seriam? Conrad olhou o relgio mas no conseguia converter hora do Mediterrneo em hora de Nova York. Ele no conseguia pensar. Pela primeira vez nas minhas histrias, Conrad no consegue ordenar seu pensamento, o seu crebro  um caleidoscpio de imagens, o rosto assustado de Ann, as letras ainda vermelhas na barriga de Ann, Hennessy de pescoo cortado, meu pai com a cabea contra o asfalto, no, como  que meu pai entrou nesta histria? Esse rdio!
        - Dona Maria, o rdio!
        Conrad atordoado. Uma prostituta aproxima-se dele.
        - Serve o meu umbigo, baby?
        Ela realmente disse aquilo? Delfos, Delfos, ser Delfos? A mensagem est incompleta. Delfos, quando? Numa esquina um negro o espera atrs de um tabuleiro sobre o qual esto trs cartas com a figura para cima, trs valetes, e um deles tem um olho s.
        -  aqui, meu homem! - diz o negro, virando as cartas com a figura para baixo e mudando a posio delas sobre o tabuleiro rapidamente. - Acerte o valete de um olho s e voc ter a sua resposta.
        - E se eu no acertar?
        - Voc morre.
        Ele realmente disse aquilo? Conrad afasta-se. O negro grita:
        - Ei! E um grande negcio. No tem dinheiro na parada. Ou voc descobre a resposta ou voc morre. De qualquer jeito, tudo se resolve!
        A mensagem est incompleta, pensa Conrad, afastando-se. Falta informao. O Grego s lhe disse onde. Ele procura nas paredes. Uma palavra, qualquer coisa, em qualquer lngua. Procura nos letreiros, nas fachadas das lojas. Outra pista. Onde est a outra pista? E de repente a resposta vem, a resposta abre um claro no peito de Conrad. Vishmaru. O Grego est indo atrs de Vishmaru. Talvez esteja com ele agora. Talvez j o tenha matado e escrito o resto da mensagem com seu sangue numa parede. A pista que falta. Conrad olha para o cu. Que claridade  aquela? O que est acontecendo? O cu ficou cinza, ficou azul, a nuvem se iluminou, alguma coisa vai... E ento Conrad se d conta de que est apenas amanhecendo. Decididamente, no sou mais o mesmo, pensa, correndo na direo do seu apartamento.
        
        Toc-toc, slosh-slosh, rodando e rodando, um anti-Ahab escondido da baleia. As luzes da sala apagadas, o rumor que entra da rua com a brisa morna, o hlito da cidade, os olhos do exilado, I do fundo, examinando a nuvem roxa que cobre a cidade como uma maldio, procurando um sinal, qualquer sinal, qualquer revelao. Dona Maria j foi para casa, j comi meu jantar solitrio, agora rodo pela sala como se rodasse dentro do meu prprio crebro, cuidando para no derrubar as pilhas de livros empoeirados. Toc-toc, slosh-slosh...
        
        
      4
        
        
        - Minha cunhada t com placas desse tamanho na pele - disse dona Maria, apontando para as minhas torradas.
        Joguei as torradas no lixo. Peguei o jornal que dona Maria trouxera. L estava, na primeira pgina, uma foto do enterro do Zarolho e uma foto menor do Cand, pai e assassino. Numa das pginas policiais no interior do jornal havia uma entrevista com o inspetor Macieira, ilustrada com uma foto dele olhando srio para a cmera com seus olhos saltados. Macieira j fizera contato com o Cand, que concordava em se entregar  polcia desde que o Macieira estivesse presente. Macieira no tinha dvidas de que o assassinato fazia parte de uma guerra de quadrilhas. Cand dominava o trfico de drogas no Jardim do Leste, Zarolho e o seu grupo queriam o territrio, Cand reagira. Macieira no tinha dvidas.
        Ento bateram na porta e era o nosso heri. Comeava a segunda visita do macio Macieira. Seu rosto estava mais grave do que na fotografia do jornal.
        - Trago ms notcias.
        Eu no queria ouvir. Apontei para o jornal.
        - Estava lendo a sua entrevista. Voc  um personagem da cidade e eu no sabia!
        Ele mostrou as palmas das mos sem erguer os braos.
        - A gente faz o possvel.
        - Ouvi voc no rdio, tambm. Aqui, no rdio infernal da dona Maria.
        Ela me ignorou.
        - Trago ms notcias - repetiu o inspetor.
        - Vamos para a sala - disse eu, erguendo-me da mesa onde quase tomara o caf da manh, recusando o gesto de ajuda de Macieira e pegando minha muleta. Carreguei o jornal.
        - Trabalhei bastante nos ltimos trs dias. Conrad, o coitado, est numa enrascada.
        Macieira no sorriu. Sacudiu a cabea, compungido. Como se eu tivesse contado das dificuldades de um amigo. Ele esperou que eu sentasse antes de sentar-se tambm.
        - Infelizmente... - comeou ele.
        - Voc quer ouvir em que p est a histria? Enfatizei o   "p".
        - Depois. Antes, preciso me, ahn, desincumbir de uma notcia no muito agradvel.
        - Aposto que a minha histria  melhor.
        - Por favor. A moa. A Llia...
        Me deu vontade de rir. Senti um vazio na barriga e ao mesmo tempo um desejo quase incontrolvel de dar risada. O que era aquilo, afinal? Que jogo era aquele? Ele continuou.
        - Ela foi encontrada morta. Exatamente como Ann, no seu livro.
        - Llia?
        - A faxineira. Exatamente.
        
        No me contive e dei uma gargalhada. Ele baixou os olhos, como se a minha insensibilidade o embaraasse.
        - Desculpe, inspetor. Voc disse como Ann, no meu livro?
        - Sim. Uma faca no pescoo.
        - Mas Ann no morre assim, no livro. Alis, decidi que ela no morre de jeito nenhum.
        - Mas no outro dia voc me disse...
        - Eu disse como escreveria a morte de Ann. Mas mudei de idia e no a matei. Ela continua viva.
        Ficamos nos olhando, em silncio. Seus olhos saltados, os meus no fundo das suas cavernas. E agora?
        - Senhor Eliot...
        - Estevo.
        - Estevo. Outro dia, nesta sala, ns conversamos sobre certas, como direi...
        - Coincidncias.
        - Estranhas coincidncias. Eu descrevi um assassinato que era cpia perfeita de um crime cometido pelo vilo de um dos seus livros. O Grego. S que o livro foi publicado depois do assassinato. Correto?
        Outra vez, tive que me conter para no rir. Ora, ora, Macieira. Ora, ora.
        - Correto.
        - Na mesma ocasio, eu mencionei que a palavra escrita com o sangue da vtima numa parede, da vtima real, foi apagada por uma faxineira, e o senhor imediatamente identificou o elemento. A faxineira. Que por acaso era sua faxineira tambm.
        - Exato - me adiantei.
        - Como era coincidncia demais, fui procurar a faxineira, Llia. Eu me esforava para conter o riso. Perguntei:
        - Esperando descobrir exatamente o qu?
        - Qual era o papel dela nesta trama. Ela talvez fosse uma cmplice.
        De novo, no consegui me conter. Ele esperou pacientemente que eu terminasse de rir.
        - Estevo...
        - Espere, inspetor. Cmplice! Essa histria no tem p nem cabea. Essa histria no d p! Voc pensava que o assassino pudesse ser eu,  isso? Eu mal consigo calar um sapato, inspetor, o que dir andar por a esfaqueando mulheres e escrevendo coisas em grego nas paredes. A ltima vez que sa deste apartamento foi para ir ao dentista, e nem me lembro mais quando foi isso. E eu sou um escritor, inspetor. De quinta categoria, mas um escritor. Perteno  profisso mais inofensiva do mundo. S mato gente nas minhas histrias. E s vezes volto atrs e no mato.
        Ele sorriu.
        - S no concordo com o "de quinta categoria".
        - Obrigado. Mas, francamente, inspetor...
        - Estevo, voc conhece o Olho do Divino?
        J tinha ouvido aquilo em algum lugar. Mas no, no conhecia. E ento o macio Macieira contou uma das suas histrias. Histrias, histrias. Contou que no meio do Jardim do Leste, no umbigo do Jardim do Leste, existe uma igreja.  uma das poucas edificaes no Jardim do Leste que no  de madeira. Uma igrejinha que foi desativada pela diocese porque o padre enlouqueceu, e se recusa a ser substitudo. E, mesmo, ningum no Jardim do Leste o deixaria sair, pois consideram o padre Pedro um santo. Um dos primeiros sinais da loucura do padre Pedro foi a sua deciso de destruir o altar e substitu-lo por um imenso olho azul pintado na parede dos fundos da igreja. Ele diz que  o olho de Deus, o Olho do Divino. S pode entrar na igreja quem no tem vergonha de se apresentar diante do Olho do Divino. E ele mesmo no entra na sua igreja.
        - O prprio padre Pedro no entra na igreja?
        - . Ele mora num casebre atrs da igreja mas nunca entra na igreja. Porque ele tem vergonha de aparecer diante do olho azul de Deus.
        Tem o corpo todo marcado. Tem o corpo deformado. Ele diz que  porque sente na carne tudo que fazem aos seus filhos. Meu afilhado, o Luiz Carlos, o Zarolho, era coroinha da igreja. Quando ele perdeu um olho numa briga com o pai, no dia seguinte o padre Pedro amanheceu com um olho branco. Por isso ele nunca mais entrou na igreja. Diz que no quer que Deus o veja assim, no quer que veja o que fizeram com ele e com seus filhos. Tem vergonha. Manda os outros entrarem, desde que no tenham o que esconder de Deus, mas ele fica de fora, s vezes espiando rapidamente por uma janela e recuando antes que Deus o veja. Ele  milagreiro. Ele...
        O Macieira teve que parar porque eu estava rindo de novo.
        - Voc acredita nisso, Macieira?
        - Devia acreditar. Foi ele que fez a prtese no meu p. Agora me lembro. Foi na segunda visita do Macieira que fiquei sabendo do p de cabrito. De cabrito! O Macieira perdera o p, no tinha a quem recorrer, procurara o padre Pedro e este lhe dissera "encontre um p de cabrito e traga aqui". O Macieira ento sara atrs de um cabrito e...
        - Voc mesmo, sem um p, foi caar um cabrito?
        - Fui. E arranquei o p de um cabrito. Alis, o cabrito est vivo at hoje...
        - E no deixa voc mentir.
        - Exatamente.
        Me dei conta de que o inspetor no tinha nenhum senso de humor. As civilizaes em runas produzem cnicos e crentes. Ou voc no acredita em mais nada ou voc acredita em tudo. Mas naquela sala, naquela manh, com o rdio a todo volume na cozinha, ramos apenas um inocente e um louco. S faltava saber qual dos dois era o qu.
        - E o padre Pedro colocou o p de cabrito na sua perna...
        - S com as mos. Sem costurar, sem nada.
        - , Macieira...
        - Voc quer ver?
        Ele j ia arregaando a cala, mas eu o detive. Os horrores que a dona Maria trazia, diariamente, do Jardim do Leste para envenenar o meu exlio j me bastavam. E no posso ver cicatriz.
        - Voc, ento, tem um p de cabrito...
        - Voc tem alguma f, Estevo? Eu sei que a sua famlia  muito religiosa. E voc?
        - Eu s vezes sinto ccegas no meu p esquerdo, mas no passa disso.
        O esquerdo era o p que eu no tinha.
        - No entendo.
        - s vezes sinto ccegas no p que no tenho mais.  a minha nica experincia metafsica.
        - Ento voc no acredita no que o padre Pedro diz. Que os pensamentos maus tambm ferem a carne.
        - O que  que o padre Pedro diz?
        - O padre Pedro diz que pensar e fazer  a mesma coisa. Para o Olho do Divino,  a mesma coisa. Pensar tambm abre a carne.
        Eu ri de novo, mas desta vez foi breve, como uma tossida.
        - O que voc quer dizer, Macieira,  que eu posso ter cometido crimes em pensamento. Eu os imaginei, eles aconteceram,  isto? Consegui o que todo escritor sonha, que  influir na realidade sem sair de casa.  isso?
        Ele abriu os braos.
        - Isto  uma investigao. Temos que examinar todas as possibilidades.
        - Voc no respondeu a minha pergunta. Voc acredita no padre Pedro?
        - Eu acredito no pecado e na salvao.
        Ele acreditava no crime e no castigo. Acreditava que todas as histrias tinham que ter um fim, e fazer sentido ao Olho do Divino.
        - Voc acha que pecar em pensamento  o mesmo que pecar em ao, e que os maus pensamentos tambm podem abrir a carne?
        - No sei. Todo homem j matou um pai ou um filho em pensamento...
        - Ou um irmo.
        - Mas aos olhos da lei assassino  s quem mata mesmo.
        - E aos olhos de Deus? Ao Olho do Divino? O filho-da-puta respondeu indiretamente.
        - Eu entro na igreja do padre Pedro sem piscar.
        - E o olho azul de Deus tambm no pisca, aposto.
        - No - disse ele, srio.
        - Mas voc me disse que j matou muita gente.
        - Era necessrio.
        - E a necessidade  cega.
        - O Senhor...
        - No me chame de senhor - ordenei, senhoralmente. Era preciso no esquecer que eu tinha nascido numa avenida de casares enquanto ele era um personagem do lixo da cidade.
        - Eu ia dizer que o Senhor, Nosso Senhor, distingue uma morte necessria de um assassinato.
        Silncio. Depois:
        - Isto tudo  um jogo, no , Macieira?
        - No. O que  isso?
        -  um jogo!  uma charada. Qual  o jogo, Macieira?
        - Jogo nenhum. S estou fazendo o meu trabalho. Houve um crime. Houve uma coincidncia. Vrias coincidncias. Eu estou investigando.  o meu trabalho.
        - Um crime no, Macieira. Dois crimes. Voc esqueceu a Llia. Eu matei uma mulher no Jardim Paraso. Matei indiretamente. Imaginei um vilo, o Grego, ele tomou forma, foi I e, sem eu saber, esfaqueou a mulher e deixou uma frase escrita na parede, s para me comprometer. Llia, a faxineira, chegou, viu a mulher assassinada, viu a frase escrita com sangue na parede e pensou: "Isto s pode ter sido trabalho daquela mente doentia, daquela mente criminosa. Eu sabia que ele era louco, senti o gosto da loucura no seu smen.  melhor eu apagar tudo seno pegam o meu patro, pegam o pobre do perneta. "
        - Estevo...
        - Mas entra em cena o incansvel inspetor Macieira, o que at hoje s no resolveu um caso, auditrio, e que por uma coincidncia tinha lido um livro em que havia um assassinato igual quele, e...
        - No. Voc esqueceu. O livro saiu depois do crime.
        - Muito bem. O incansvel inspetor Macieira, que gosta de ler porcaria, um dia l um livro em que aparece um crime igualzinho ao do Jardim Paraso. O autor inclusive fala na frase escrita em sangue na parede, coisa que ningum sabia, pois a imprensa no deu, coisa que s a polcia e a faxineira sabiam. Alm, claro, do prprio assassino. Macieira visita o autor do livro. Descobre que a faxineira que apagou a frase da parede , por outra incrvel coincidncia, faxineira do autor.  coincidncia demais. At numa histria de quinta categoria, seria coincidncia demais. Macieira vai visitar a faxineira para descobrir qual  o seu papel na trama. E ento...
        Estendi a mo na direo do inspetor, como se o estivesse chamando ao palco. Era a vez dele contar a histria.
        - Bati na porta.
        - Onde ela mora?
        - Voc no sabe?
        - Ns mal nos falamos.
        - No Jardim do Leste.
        - Claro.
        - Bati na porta. Ningum abriu. Ouvi um barulho dentro da casa.  um casebre. O barulho de algum se arrastando pelo cho. E outro barulho, como o de um gargarejo. Depois o barulho de um mvel caindo.
        Eu no estava mais com vontade de rir. O inspetor continuou.
        - Forcei a porta. Llia estava estendida no cho. Atrs dela, um rastro de sangue. Como um vu de noiva, um manto, um lenol de sangue.
        - Cacete.
        - Ela tinha se arrastado at perto de uma mesa e virado a mesa. Sabe o que tinha em cima da mesa?
        - Sei que voc vai me dizer.
        Tentei rir mas no consegui. Estevo atordoado. Estevo com medo.
        - Os seus livros. Mesmo com o pescoo aberto, mesmo se esvaindo em sangue, ela teve foras para se arrastar at a mesa, derrub-la e pegar um dos seus livros. E estava com um livro na mo. E estava com um dedo entre as pginas do livro, marcando uma pgina.
        Engoli em seco.
        - Ora, ora, Macieira. Ora, ora.
        - Seu pai dizia isso, no ? Ele realmente disse aquilo?
        - O qu?
        - Ela acabara de morrer quando eu entrei. No ouvi mais o barulho de gargarejo, que era o som do sangue saindo pela sua garganta aberta.
        Ficamos os dois em silncio. Eu no queria mais rir. Disse:
        - Inspetor...
        - Sim?
        Ergui o jornal, que continuava na minha mo.
        - Aqui no jornal no diz nada sobre essa mulher, esse casebre, esse lenol de sangue. Li a seo policial toda e no vi nada disso. Todo o espao  dedicado ao enterro do Zarolho e  sua entrevista.
        Ele estava inclinado para a frente na cadeira. Sacudia muito a perna, mas seus olhos saltados tinham uma expresso triste. Devia estar cansado. Um justiceiro da cidade no tem descanso.
        - Fiz questo que ningum soubesse, muito menos a imprensa.
        - Por qu?
        - Voc no ouviu? Ela estava com um dos seus livros na mo. O dedo indicava uma pgina. Provavelmente escolhida ao acaso. Mas ela fizera questo, mesmo se esvaindo em sangue, de segurar um dos seus livros. Como quem faz questo de deixar uma mensagem. Uma pista.
        - Que livro era?
        - Ritual Macabro.
        Qual era o jogo do Macieira?
        - Que pgina?
        - A da cena na praia. O primeiro encontro de Conrad com o Grego.
        Conrad segue as pegadas do Grego na praia. O Grego acabou de matar mais um. Conrad chegou tarde, no evitou o crime por uma questo de minutos. A vtima est estendida no cho, a grande barriga para cima, em meio a uma poa de sangue. O Grego usou o sangue para escrever uma frase em grego na parede. Conrad no se detm para examinar o corpo ou a frase, porque viu pegadas de sangue na direo da praia, depois v pegadas na areia, pegadas limpas, pegadas de um homem caminhando lentamente, como se quisesse ser alcanado. E Conrad no demora a avistar o homem. Ele est de p, um pouco encurvado, com as mos s costas, olhando para o mar.  o Grego. No h dvida,  o Grego. Conrad se aproxima. O Grego vira-se para ele. "Conrad?" Conrad no diz nada. Est tentando localizar a faca. Sabe que o Grego s usa faca. O Grego fala de novo. "Que bom que voc veio. " E depois: "Vai comear o catecismo"...
        - O qu?
        - A cena de Conrad com o Grego na praia. Em que ele diz...
        - Eu me lembro.
        Eu me lembrava.  a cena em que o Grego diz a Conrad que ele est completamente enganado. Que ele, o Grego, no  um psicopata.
        Que o que ele faz  porque tem que ser feito. "Aquele homem I dentro", diz o Grego, indicando a casa da praia. "Ele precisava morrer. Muitos queriam a sua morte, mas ningum queria a culpa de t-lo matado. Eu no tenho culpa. Quando um homem precisa morrer e  o medo da culpa que detm os seus executores, ento a culpa  culpada, a culpa tambm tem que ser executada. Eu no tenho culpa nenhuma. Eu sou um inocente. A cada crime que cometo fico mais inocente. " "Voc  um louco", diz Conrad, tentando prever de onde o Grego tirar a faca. "Viu? Voc precisa se convencer que eu sou um louco para me matar sem culpa", diz o Grego. "Para que a minha morte se torne necessria. Eu no preciso me convencer de nada. Eu sei quem precisa morrer. No perco tempo. " "E como voc decide quem precisa morrer?", pergunta Conrad, para ganhar tempo, planejando o ataque. "No sou eu que decido, Conrad. J est decidido. Est na histria. Leia os gregos. Me leia. Eu no escrevo nas paredes para me divertir, sabe?" Lembro que a editora encrencou com a cena. Pela primeira vez num dos meus livros Conrad e um vilo tinham trocado mais do que cortesias foradas sobre uma mesa de restaurante ou de jogo, ou insultos, a ao estava demorando. Finalmente, ao. Conrad saltou sobre o Grego. A faca devia estar escondida na manga. Era isso, escondida na manga. Quando se afastou, deixando Conrad sangrando na areia, o Grego disse: "Primeira lio, Conrad. Mas no desista. O catecismo continua!"
        - Como  que eu sei que voc est dizendo a verdade, Macieira?
        - Venha comigo. Vamos ao necrotrio. Ela ainda no foi enterrada. Vamos  casa dela.
        - No posso sair daqui.
        - Por que no?
        - Dona Maria, abaixa o rdio!
        - Por que eu inventaria uma histria dessas?
        -  o que eu estou me perguntando.
        - Estevo, vamos fazer uma coisa...
        Ele chegou mais para a frente na cadeira. O sapato no p de cabrito era menor do que o outro, mas era um sapato comum. Ele provavelmente usava enchimento, se o p era de cabrito mesmo. Ele agora tinha a vantagem. Eu no estava mais rindo dele. Estendeu a mo, como se fosse tocar o meu joelho, mas a recolheu em seguida.
        - Vamos fazer o seguinte. Vamos supor que, por alguma razo misteriosa, alguma razo maluca, esses crimes tenham mesmo alguma coisa a ver com voc, suas histrias e seus pensamentos. Apenas como conjuntura.
        - Conjectura.
        - Isso. Conjectura. Apenas como uma especulao, digamos assim...
        - Literria.
        - Isso.
        Eu estava acuado e ele sabia disso. O inspetor Macieira resolvia os seus casos usando principalmente a inteligncia e a psicologia.
        - Ento, me diga. Qual  o prximo crime do Grego? No livro?
        - Ora, ora, Macieira. Ora, ora...
        - S como especulao. E ento?
        Concordei, pensando: "Que fique bem claro que eu nasci numa avenida de casares enquanto voc nasceu no lixo, e que j li mais livros do que voc ver na vida, Macieira, e voc no est me enganando nem por um minuto, pois um irnico ceticismo  o ltimo baluarte da aristocracia condenada, mas vamos I. " Contei da morte do inspetor Hennessy, mas omiti a palavra "Anangke", que no faria qualquer sentido no Jardim do Leste, e da visita do Grego a Ann, mas sem mencionar a profanao do seu ventre branco.
        - Por que o Grego no matou Ann?
        - E eu sei? - respondi, irritado, dando-me conta em seguida da incongruncia da resposta, mas ele deixou passar. Continuei: - Ele apenas deixa um recado para Conrad com Ann. Uma palavra, "omphalos".
        - Sim - disse o inspetor, como se soubesse o que significava.
        - Conrad deduz que o Grego se refere ao "omphalos" de Delfos, na Grcia. Mas a mensagem est incompleta. O que, em Delfos? Um encontro, presumivelmente, mas quando? E ento, de repente, ele tem uma revelao. O Grego j matou seu melhor amigo, j invadiu o lar da sua amada, s resta atacar... quem?
        - Quem?
        - Voc no  meu leitor? Quem?
        - Olhe, eu no estou me...
        - Vishmaru! O velho Vishmaru, pai espiritual de Conrad, que vive num casaro perto de Londres com Kabal, metade mulher, metade cachorro.
        - Isso eu no me lembrava mesmo.
        Se eu achasse que Macieira era capaz de ironia, desconfiaria que um "felizmente" ficara implcito no fim da frase.
        - O Grego certamente atacar Vishmaru e deixar o resto da mensagem em alguma parede, escrita com sangue, ou no prprio corpo de Vishmaru.
        - Ou da cadela.
        - No  uma cadela!
        Os olhos do inspetor ficaram ainda mais arregalados diante da minha exploso infantil.
        - Desculpe.
        Deixei a histria neste ponto. Conrad certo de que Vishmaru ser a prxima vtima do Grego, se  que j no foi.
        - Voc sabe o que vai acontecer? O que vai escrever?
        - Conrad corre para o seu apartamento. Tenta telefonar para Londres. No consegue ligao. A telefonista informa que h qualquer coisa com os cabos telefnicos. O mar, o mar est conspirando contra Conrad. Ele corre para o aeroporto. H algum problema com txis em Nova York. Uma conspirao de txis. Com a ajuda do porteiro do seu prdio, Conrad finalmente consegue um txi, mas tem que compartilhar com mais duas pessoas. Um homem e uma mulher que tambm vo para o aeroporto.
        Silncio. Fora o rdio a todo volume, silncio.
        - E ento? - pergunta Macieira, que est na beira do assento.
        - Conrad embarca para Londres. No avio, pede para a aeromoa um usque Glenlivet, com gelo re...
        Macieira fez um gesto impaciente como se estivesse afastando a aeromoa do caminho. No queria detalhes.
        - Ele chega a Londres a tempo? - perguntou.
        Deixei o suspense esticar, como um elstico. Eu tambm sou bom em jogos, Macieira. Finalmente:
        - No. Vishmaru est morto.
        - O Grego?
        - Sim. Vishmaru est cado sobre uma mesa, sobre o Times, sobre as cotaes do dia na Bolsa de Londres.
        - Degolado?
        - Dezoito facadas no peito. E tem um X na testa. E no tem o olho esquerdo. E o Grego escreveu uma palavra com sangue na parede: "Saiam. "
        - Outra pista.
        - A informao que faltava. O X na testa  o dez romano, o dcimo ms, outubro.
        - E dezoito facadas. Dia dezoito de outubro.
        - No, no. Isso seria muito fcil. O Grego tambm gosta de jogos. Como voc, Macieira. As feridas esto dispostas no peito magro de Vishmaru como a trajetria de um corpo celeste no cu. A falta do olho esquerdo completa a pista. Na magia negra, o olho esquerdo  o orifcio controlado pela lua. Nas cartas de Tar, 18 corresponde  lua. E o olho arrancado de Vishmaru est colocado ao lado da sua cabea, sobre as cotaes do dia na Bolsa de Londres, como uma pequena lua cheia.
        Macieira fez uma cara involuntria de nojo, que registrei com prazer. Continuei:
        - A palavra "Saiam"  o nome mgico da meia-noite. Estava completa a pista.
        - Em Delfos,  meia-noite, na lua cheia de outubro...
        - Exato.
        Macieira ficou me olhando. Um de ns era inocente, um de ns era louco.
        - O que acontece depois?
        - Ainda no sei. Tenho que pensar.
        Ele fez o gesto que sinalizava que o assunto estava encerrado, batendo com as palmas, levemente, nas coxas. Disse "Muito bem" e perguntou se podia voltar outro dia. Eu disse que tudo bem. Ele disse que precisava tratar do enterro da Llia, pois ela aparentemente no tinha ningum, e comeou a se dirigir para a porta.
        - Inspetor? Ele se virou.
        - Sim?
        - No corpo da Llia... Tinha alguma outra marca? Alm do corte no pescoo?
        - Marca? No. Nada.
        - Olhe, gostei de ouvir suas histrias. Ele continuou srio.
        - As minhas no so histrias. Infelizmente, so verdade.
        - Voc disse que sabia que a minha famlia  religiosa.
        - Eu disse?
        - Isso quer dizer que voc sabe quem eu sou. Sabia desde a primeira visita.
        - Sei. Sabia.
        Abriu os braos, para se desculpar.
        - Polcia tem um defeito incurvel - disse. - A curiosidade. Me informei sobre voc.
        - Qual  o seu jogo, Macieira? O que  que voc quer?
        - O que  isso? - disse ele.
        E no disse mais nada. Foi at a porta, no seu cuidadoso passo de cabrito, e saiu.
        
        Depois do almoo, demorei a colocar a mquina no colo e recomear a trabalhar. Fiquei imaginando o Macieira solto na sua cidade pestilenta. Fazendo o qu? Encontrando-se com Llia e dizendo: "Agora mesmo  que ele no entende mais nada. Pobre do perneta. " Ou ento indo at o necrotrio, tratar do enterro de Llia. Ele era um inspetor, isto era verdade. Mas tambm podia ser um louco. Ou um assassino. Estava usando a sua psicologia barata comigo. Mas para qu? Ou ento estava dizendo a verdade. Aquelas coincidncias estavam acontecendo mesmo. Um assassino igual ao Grego andava solto pela cidade, matando como o Grego...
        Ou ento, ou ento!
        Era o prprio Grego. O meu enigmtico personagem, a minha criao. Ele tambm tem uma mensagem para mim, ele est usando o mundo e o pescoo dos outros e suas paredes para me dar uma educao. Minha me dizia, esse menino tem imaginao demais. O meu excesso de imaginao transbordara, estava nas ruas, degolando pessoas. No h diferena entre pensar e fazer, ao Olho do Divino. Atirei a cabea para trs para dar uma gargalhada, mas a gargalhada no veio. Maldito Macieira. Sua psicologia barata funcionara. O Jardim do Leste j me embrulhava o estmago, agora invadira o meu exlio, a minha mente, o meu ltimo principado.
        Decidi trabalhar. Lembro que a ltima coisa que pensei antes de comear a bater  mquina e voltar  estranha aventura de Conrad foi em Llia. Mas no pensei em Llia com a garganta aberta, nem no rastro de seu sangue, como um vu de noiva, no cho do casebre miservel, nem no seu dedo incriminador entre as pginas do meu livro. Pensei, com satisfao: puxa, ela lia os meus livros! Cheguei at a desejar que a histria do Macieira fosse verdade s para que aquilo tambm fosse verdade. Ela me lia. Certamente sabia a cor dos meus olhos. Talvez at me amasse. Llia, Llia. Mas, ao trabalho.
        - Dona Maria, abaixa esse rdio!
        
        
      5
        
        
        Alguma coisa com os txis de Nova York. O mundo fora dos eixos. Finalmente o porteiro conseguiu um. "Kennedy! Kennedy!" Mas havia outras pessoas no txi que iam para o aeroporto. Uma freira e um homem desagradvel que assim que Conrad sentou entre os dois lhe enfiou o cotovelo no lado e indicou a freira com o queixo, querendo dizer que estava preparando uma. Comeou a contar uma anedota. Conrad olhou o relgio. Estava atrasado para o vo que reservara para Londres assim que desistira da ligao para Vishmaru. Seu pai espiritual, seu mestre, em perigo de vida por sua causa. "Um padre catlico, um pastor protestante e um rabino esto presos num elevador", comeou o homem. "O qu?", agitou-se a freira. Conrad viu pela licena que o motorista do txi tinha um nome grego. "Um padre, um pastor e um rabino esto presos num elevador..." "Mas isso  terrvel", disse a freira. "No, no, dona,  uma anedota." "Como, uma anedota? Um padre, um pastor e um rabino presos num elevador! Onde? Onde? Meu Deus, onde?" "No  verdade,  uma histria. Uma anedota!" Mas a freira estava com o rosto entre as mos, era preciso avisar algum, era preciso salvar aqueles homens! "No, no, dona." Conrad pensava em Vishmaru, o sbio. Um dia, numa das suas aventuras, Conrad naufragara e dera numa praia do oceano ndico, quase morto. Vishmaru, que passava pela praia, meditando, recolhera Conrad e o levara para sua casa simples, de paredes brancas. L Conrad recuperara as foras e descobrira a sabedoria de Vishmaru. As trs sabedorias. "Um padre, um pastor e um rabino ficaram presos num elevador, entende?" "Mas onde? Quando?" A freira no se conformava. "Faz muito tempo. " O homem j se arrependera de ter comeado aquilo. "Os trs se salvaram, dona, no se preocupe." A freira estava quase chorando. S de pensar naqueles pobres homens! As trs sabedorias de Vishmaru eram a sabedoria da mente - a razo -, a sabedoria do corao - o amor, a fraternidade -, e a terceira sabedoria, no localizada, a sabedoria do corpo todo. O homem passava pelos trs estgios da sabedoria na infncia, na adolescncia e na idade adulta - corpo, corao, mente - e precisava fazer a viagem de volta, voltar ao comeo,  sabedoria polimorfa do corpo. Mas voltar por meio da razo, por meio de um ato de vontade, sensorializando, erotizando a razo e depois racionalizando o estado infantil de comunho com o mundo, e... "No tem nenhum padre! No tem nenhum pastor! No tem nenhum rabino!" O homem estava gritando, fora de si. "Era tudo inveno sua?", quis saber a freira. "No! Eu ouvi de algum. " "Ento existe um elevador com um padre, um pastor e um rabino presos, pobrezinhos. " "No! No!" Vishmaru no adivinhava o futuro, mas suas profecias eram quase sempre corretas. Usava as cartas do Tar, ou o seu prprio olho mstico, sua viso interior, e acertava mais do que errava. Sim, usava seus poderes para investir nas bolsas de Londres e Nova York o pouco que ganhava dos seus pupilos. Mas vivia frugalmente. Tinha um Rolls Royce, mas tanto aquela casa numa praia do oceano Indico quanto sua casa perto de Londres eram escassamente mobiliadas, o prprio sbio dormia num estrado sobre o cho, e as paredes eram brancas e nuas. "Era uma anedota! Era uma anedota!" A freira no estava convencida, era mesmo? "Fui eu que inventei!", gritou o homem. "Est a, fui eu mesmo que inventei!" Agora a freira estava indignada. Assust-la daquela maneira. E que mente perversa. Que mente criminosa. Ele no podia inventar histrias bonitas, histrias inspiradoras, sem sofrimento? Francamente. "Era uma anedota. Uma anedota!" Vishmaru adotara Conrad, que no conhecia sua origem, que s se lembrava de ser um menino num barco no meio do mar, e guiara seus passos com conselhos e histrias. Muitas histrias. "O senhor devia se envergonhar", estava dizendo a freira. Quando chegaram ao aeroporto, Conrad saltou do txi por cima dos joelhos do homem. No podia perder tempo. Pagou sua parte na corrida rapidamente. Antes de ultrapassar a porta do terminal, olhou para trs. O homem estava em cima da freira, que se debatia sobre o asfalto, tentando estrangul-la. O motorista descera do txi e esperava o homem terminar para cobrar a corrida e ouvir o resto da anedota interrompida. Conrad correu para o check-in.
        
        A FAMLIA TINHA UMA CASA na praia, para a qual emigrava todos os veres e ficava at o recomeo das aulas. Iam todos, com quase todos os empregados, menos meu pai e eu. Por causa de um problema respiratrio de que no me lembro, eu no podia chegar perto do mar, por isto at os 16 ou 17 anos s conhecia o mar das gravuras sombrias da biblioteca do meu pai ou de fotos e filmes, e do relato dos meus irmos. Sabia que Toms era o mais intrpido, e nadava at alm da rebentao. O mar era um monstro, mas o meu irmo mais velho andava no dorso do monstro, sem medo. Meu pai no gostava da praia, no gostava de nenhum lugar onde no pudesse usar seu colete, preferia passar os veres na cidade. Ficvamos s ele e eu no casaro, alm de uma cozinheira. Uma faxineira vinha do Jardim do Leste duas vezes por semana, vez por outra seu Joaquim, que meu pai chamava de Joaquim das Flores, aparecia para retocar o jardim. Uma noite eu no conseguia dormir, devido ao calor, e sa a caminhar pelo corredor superior do casaro, na direo da escada. Acho que ia at a cozinha beber gua. Estava quase chegando  escada quando vi a porta do fundo do corredor, do quarto dos meus pais, se abrir e por ela sair uma moa. Ela no me viu. Veio caminhando na ponta dos ps pelo corredor na minha direo. Provavelmente tambm estivesse com sede. Quando ela me viu parou, assustada. Fechou rapidamente o robe da minha me, que usava sobre uma camisola de flanela, e ficou me olhando, com as mos juntas na frente do peito. Parecia uma moa simples, bonita, apesar dos olhos muito saltados. Nenhum de ns disse nada. Ela deu a volta e quase correu para o quarto. Eu voltei para o meu, com o corao batendo e a garganta apertada. Poucos minutos depois, ouvi uma batida na porta e a voz do meu pai. "Estevo?" No respondi. Ele abriu a porta, devagar. Fingi que estava dormindo. Ele chamou outra vez. "Estevo?" Depois fechou a porta e foi embora. Passei a noite toda sem dormir, querendo chorar e no conseguindo. De manh corri da porta do meu quarto at a escada, temendo que a porta do fim do corredor se abrisse outra vez. Tomei caf s pressas e corri para o fundo do jardim. O Joaquim das Flores estava no primeiro terrao, mas no parei para falar com ele, como fazia sempre. Me escondi no jngal dos fundos. Fiquei I durante toda a manh. Mas sabendo que na hora do almoo teria que enfrentar meu pai. Ao meio-dia seu Joaquim veio me chamar. "Est na mesa. " Quando entrei na cozinha, a empregada avisou que meu pai esperava por mim na biblioteca. Fui at I. Ele estava sentado na sua poltrona de couro rachado. Evitei os seus olhos. Ele me mandou sentar. Perguntou:
        - Dormiu bem?
        - Dormi.
        - Que calor, no ?
        - .
        Quando levantei os olhos, vi que ele tinha tapado os seus. Tinha uma mo atravessada na frente dos olhos, como uma mscara.
        - Estevo...
        - Qui?
        - Voc v o seu irmo?
        Meu irmo? A conversa era sobre o meu irmo?
        - No.
        - O Toms no procura voc?
        - s vezes.
        - E o que ele diz? De mim.
        - Nada. A gente fala de outras coisas.
        - No fique contra o seu pai.
        Eu no disse nada. Ele sabia que alguma coisa estava se rompendo, que alguma coisa estava acabando entre ns. Por um momento temi que ele aproveitasse a minha descoberta da noite anterior para reforar a nossa unio. Para propor uma cumplicidade de machos, embora nunca tivesse me falado nada sobre sexo, tudo que eu sabia aprendera dos irmos e dos livros. Ele tinha levado uma mulher para dentro de casa, para dentro do quarto, para a cama da minha me, mas aquele seria o nosso segredo, ns contra todos, ns contra a me. Mas eu no o acompanharia na traio. Fomos para a mesa, almoamos em silncio, ele no disse nada sobre a moa, ele nunca tocou no assunto e as coisas entre ns nunca mais foram as mesmas. Continuei freqentando a sua biblioteca e encontrando-o I, mas as coisas entre ns nunca mais foram as mesmas. Um dia ele perguntou por que eu no ia mais  igreja. Eu respondi, sem olhar nos seus olhos, que no entendia como ele ainda ia  missa, e se confessava, e comungava todos os domingos. Ele ignorou a minha resposta e perguntou se eu ainda acreditava na igreja. Respondi que no entendia como ele acreditava. Mas ele no ficou vermelho nem comeou a gritar, como eu esperava. Contou uma histria. Histrias, histrias. Um dia um homem procurou um sbio porque queria saber toda a verdade sobre a vida e o universo, pois estava angustiado, precisava saber tudo, toda a verdade. Daria toda a sua fortuna em troca da verdade. E o sbio comeou a falar, mas o homem o interrompeu depois da segunda palavra e disse: "Quero que voc me diga que foi Deus que criou o mundo e tudo que h nele, e que ns vivemos pela vontade de Deus, na sua bondade infinita, e que a vida terrena  apenas uma breve preparao para a vida eterna ao lado do Senhor e de todos que ns amamos - seno eu no pago. " E o sbio disse que era assim, e o homem deu toda a sua fortuna ao sbio e saiu feliz, pois alcanara a paz do esprito. Eu disse, agressivamente, que aquilo no era resposta e ele disse que em troca de toda a minha fortuna daria a resposta que eu queria ouvir, mas de graa a resposta era aquela. Mas eu me recusei a rir, e ele ento viu nos meus olhos que eu queria v-lo morto antes que a minha me voltasse da praia. Ento sim, ele ficou vermelho, e gritou:
        - Teu irmo te envenenou contra mim! E, os braos abertos para o alto:
        - Cristo, Cristo!
        No sei se, naquele vero, ele levou a mulher outra vez para dentro de casa. Eu no a vi mais. Um dia, quase no fim das frias, entrei no quarto deles e peguei o robe da minha me que a mulher usara naquela noite. Levei-o para o fundo do jardim e o enterrei no lodo frio do jngal. Como num ritual.
        No avio para Londres, Conrad sentou entre um homem e uma mulher. A mulher era bonita, loira, alta, o homem era bonito, moreno, alto, os dois usavam culos escuros o tempo todo, eram esportivos, eram perfumados. Conrad perguntou  comissria se serviam o usque Glenlivet. "Infelizmente, no, senhor. Mas temos... " "Esquece", disse Conrad. Recusou a comida tambm. Inclinou sua poltrona para trs e tentou dormir. Pensava em Vishmaru, que talvez j estivesse morto quela hora. O que  que o Grego queria dele? O catecismo continuava. Mas o que o Grego estava ensinando? Abriu os olhos o bastante para ver que a cabine do avio estava escura e comeavam a passar o filme. Fechou os olhos de novo. Sentiu uma mo pousar na frente da sua cala e comear a apalpar seu pnis. Abriu os olhos e se surpreendeu ao ver que era a mo do homem. Mas em seguida a mo da mulher pousou na sua perna e foi subindo pela coxa para apalpar seu pnis tambm, e encontrou a mo do homem. A mulher se assustou, mas no retirou a mo, passou a apalpar o dorso da mo do homem, que virou a sua palma para cima e agarrou firmemente a mo da mulher. Os dois se inclinaram para a frente, se olharam e sorriram, e comearam a conversar, sem se largarem as mos. Conrad perguntou ao homem se ele queria trocar de lugar e o homem aceitou. O homem e a mulher conversaram animadamente durante toda a viagem, de mos dadas. Como no dormiria mesmo, Conrad continuou a pensar em Vishmaru. No se perdoaria se Vishmaru, seu mestre, o bom sbio, morresse por sua causa. Talvez seu medo fosse infundado. Como o Grego saberia da existncia de Vishmaru? Mas o Grego, aparentemente, sabia de tudo. Sabia da sua amizade com Hennessy, sabia de Ann. Dona Maria, o rdio! Como Macieira sabia que meu pai dizia "ora, ora"? Macieira saberia de tudo como o Grego? Conrad pensava nos olhos bondosos de Vishmaru, na sua barba grisalha, na sua voz cmica, quase feminina, mas que s fazia rir quando o bom Vishmaru dizia alguma brincadeira, geralmente sobre si mesmo, pois era modesto e incapaz de ferir quem quer que fosse, mesmo em pensamento. Histria maluca a do Macieira. Ele devia pensar que eu era um bobo ou um louco. Os pensamentos tambm ferem a carne... Ora, ora, Macieira. Ora, ora. Qual seria o jogo dele? O que o Grego queria com Conrad? O Grego j podia ter matado Conrad. Tivera duas chances e no o matara. Estava preservando Conrad para o qu, para que revelao ou martrio? Mas Conrad tambm tivera a chance de matar Macieira, quer dizer, o Grego, e no o fizera. Dona Maria, abaixa esse rdio! Uma sombra passara pelo seu rosto e ele fora incapaz de puxar o gatilho e matar o Grego como ele merecia, como o animal que ele era. E por isso agora o Grego podia estar matando o bom Vishmaru. Seu mestre, seu conselheiro, o guardio da sua alma.
        Conrad foi o primeiro a descer do avio em Londres e correu para pegar sua mala depois de passar pelo controle de passaportes. A mala demorou a aparecer. Quando saiu do terminal para procurar um txi, Conrad viu o casal que viajara com ele sair de outra porta. Os dois estavam abraados e ainda conversavam animadamente.
        Joaquim das Flores dizia, com sua voz mansa, que tudo tem seu tempo certo, e se uma planta floresce antes do tempo, ento o tempo  que est errado.
        - Por que o senhor s cuida do terrao de cima do jardim e no arruma o segundo terrao, seu Joaquim?
        - Cada coisa no seu tempo.
        Daquele jeito o seu Joaquim nunca chegaria ao terceiro terrao, nunca limparia o jngal, pois certamente morreria antes.
        - Algum vai arrumar I atrs, um dia.
        - Seu filho, seu Joaquim?
        Eu sabia que ele no tinha filhos. Ele pensou um pouco e respondeu.
        - Quem arrumar I atrs, esse ser meu filho.
        Eu contei para Toms da intrusa na cama da nossa me e ele disse um palavro. Mas disse que j sabia que o velho tinha outra mulher. Como, eu quis saber. Ento aquela no fora uma aventura passageira? Ele perguntou como era a mulher. Eu respondi: moa, bonita, os olhos saltados
        -  ela mesma. Eu conheo. Os dois esto juntos h anos.
        - Mas ela  to moa!
        - Quando eles comearam, ela era uma menina.
        - Mas por que ele trouxe ela para dentro de casa agora?
        - Talvez j tivesse trazido antes. Em outros veres. Voc  que no viu.
        Eu me lembrava dela no corredor, caminhando na ponta dos ps, para no acordar o So Estevo. No era a primeira vez que dormia I. O Toms parecia estar hesitando em dizer alguma coisa. Finalmente disse.
        - Eles tm um filho. Da tua idade.
        Eu baixei a cabea para esconder o choque. No sei se Toms chegou a ouvir o soluo, que tentei disfarar com a tosse.
        - Como  que voc sabe tudo isso?
        - Eu sei de coisas sobre o velho que voc nem sonha. Pensei: ele est me envenenando. Eu sou o favorito do meu pai e por isso ele est me envenenando. Que coisas? Mas o Toms me poupou. Meu irmo mais velho me protegeu. Disse "Deixa", disse que era melhor eu voltar para casa. O seu Joaquim, que trabalhava no casaro desde que o Toms nascera, no aprovava o que ele fizera, saindo de casa, virando-se contra o pai, tentando levar os outros irmos com ele.
        - No era o tempo - dizia o seu Joaquim. - Ainda no era o tempo.
        Do aeroporto para A estao de trem. Rpido! Conrad guardou a mala na estao. Pegou o trem que o deixaria perto da casa de Vishmaru, nos arredores de Londres. S tinha um lugar no vago, entre um homem de meia-idade que lia seu jornal e uma mulher muito plida que olhava fixamente para a frente, sem expresso. Conrad hesitou, mas acabou sentando entre o homem e a mulher. Se deu conta de que h muitas horas no botava nada na boca, salvo o usque Glenlivet. Mas no tinha fome. O medo ocupava o seu estmago. No sabia se chegaria a tempo de salvar Vishmaru. O velho no morava sozinho, tinha Kabal, a mulher-cachorro, tinha discpulos. Mas nada deteria o Grego. Conrad chegara tarde para salvar a vtima do Grego na casa da praia, chegara tarde para salvar Hennessy, chegara tarde para evitar que a faca aviltadora do Grego riscasse o ventre da doce Llia, Ann, Llia, Ann, Ann! Se era inveno do Macieira, por que Llia no apareceu ontem? Eles eram cmplices. Macieira a estava usando no seu jogo. Mas qual era o jogo? Conrad tentava decifrar os motivos do Grego para fazer aquilo com um pobre perneta. Quer dizer, com ele, Conrad. No podia ser s vingana, s o capricho sangrento de uma mente cruel. O que era?
        - Catecismo - disse o homem  direita de Conrad.
        - O qu?
        - What?
        - O senhor falou?
        - Cataclismo - disse o homem, apontando para uma notcia no jornal, algo sobre uma guerra em algum lugar, Conrad no se interessava muito por poltica. - Duzentos mortos num dia s. E as armas continuam chegando, para os dois lados. Do mesmo fornecedor, no duvido.
        - Homens! - disse a mulher  esquerda de Conrad, como se um dos dois tivesse feito algo reprovvel.
        - O qu?
        - What?
        - A senhora disse alguma coisa?
        - Eu disse "homens!".
        Conrad e o homem do jornal se entreolharam. O homem do jornal decidiu ir adiante.
        - O que a senhora quer dizer com "homens"? Ela apontou para o jornal.
        - Perdi 17 filhos nessa guerra.
        - Impossvel, madame.  uma guerra entre muulmanos. rabes, ou coisa que o valha. Duvido que a senhora tivesse 17 filhos rabes. Ou mesmo um s. Altamente improvvel.
        - Cento e dezessete! - disse a mulher.
        - Minha senhora, vamos ser sensatos. Ou a senhora  um prodgio de fecundidade para dar  luz tantos filhos, ainda mais rabes, ou est havendo algum engano.
        - Voc acha que eu no posso ter filhos?
        - No se trata disso. Eu...
        A mulher levantou-se num impulso e bateu no prprio quadril.
        - Veja esta bacia!
        -  uma tima bacia inglesa, mas...
        - Ela j produziu milhes de filhos. Geraes inteiras! E voc v algum filho do meu lado? V? Nenhum. Fui abandonada, como as cascas de um ovo. Como a pele que os bichos deixam para trs, na muda.
        O homem tambm estava de p. Olhava em volta para os outros ocupantes do vago como se procurasse um aliado contra aquela louca. Finalmente ordenou:
        - Sente-se!
        - No sento!
        - Sente-se ou sentir o metal frio do meu guarda-chuva nas suas entranhas!
        A mulher sentou-se, contrariada. O homem ainda ficou de p por alguns segundos, para assegurar-se de que ela estava sob controle. Depois tambm se sentou.
        - Mulheres - disse, indignado, para Conrad. - Ainda bem que nunca tive qualquer contato com essa espcie. Elas sangram, voc sabe. At a rainha. Eu nunca tive me. Graas a Deus, no foi preciso. Meu pai e um colega de escola me tiveram.
        Do outro lado de Conrad, a mulher resmungava.
        - Homens. Infanticidas. Parricidas. Matricidas!
        - O qu? - desafiou o homem, pronto para levantar-se outra vez.
        - Calma - pediu Conrad.
        - Monstros! - insistiu a mulher, olhando para a frente.
        - No sei para que precisamos de mulheres - disse o homem. - Do bons sopranos, est certo, mas para isso temos os castrados. A mulher nasceu de um cochilo do homem. Est a a Bblia que no me deixa mentir. Mas elas no me pegam dormindo.
        - Mal-agradecidos!
        Quando Conrad desceu do trem, a mulher e o homem estavam de p outra vez e o homem ameaava trespass-la com seu guarda-chuva enrolado.
        Reli o que tinha escrito. A editora certamente no ia gostar. Escrevia aquelas histrias h vinte anos, uma mdia de uma por ms, eram mais de duzentas, por que aquelas mudanas de repente? Eu no sabia o que o Grego queria de Conrad, no sabia o que o Macieira queria de mim e agora tambm no sabia nem o que eu estava querendo. Aquelas cenas absurdas, Conrad tomado de dvidas e medo, o mundo transformado num enigma, a editora certamente no ia gostar. Mas eu ia em frente. J tinha passado a grande trepada e me aproximava do desenlace, o leitor que tratasse de desenredar o enredo. Aquela histria teria at epgrafe e eplogo. At epgrafe e eplogo! Seria um marco na histria das histrias de quinta categoria. No rdio infernal da dona Maria, o locutor anunciava que as contribuies para a construo do santurio para a pequena Valdeluz j chegavam a milhares e que acabava de chegar uma doao do conhecido homem de negcios Mabrik. O qu?!
        - Dona Maria, aumenta esse rdio!
        Ele realmente dissera aquilo? Eu devia estar delirando. Estava bem que a realidade invadisse a minha fico, mas a minha fico comear a invadir a realidade era demais, era loucura, era coisa do macio Macieira. Eu devia ter ouvido errado. Ou estava enlouquecendo. O Macieira tentava de todas as maneiras penetrar no meu crebro, mas eu tinha uma surpresa para ele. Quando penetrasse... no me encontraria ali. Arr! Calma, calma. Ao trabalho.
        
        O Joaquim das Flores era analfabeto, um homem de cor indefinida e fala mansa que era o empregado mais antigo do casaro. No morava mais no poro, tinha um casebre no Jardim do Leste e vinha irregularmente inspecionar o seu jardim. Percorria o primeiro terrao com os olhos semicerrados, tentando descobrir alguma coisa para aparar, ou corrigir, ou recolocar no lugar. Procurando uma formiga para expulsar do paraso.
        - Quando o senhor vai cuidar do resto do jardim, seu Joaquim?
        - Cada coisa no seu tempo.
        - A parte dos fundos  um jngal. Acho que j tem at tribos de pigmeus.
        - No tem no. Eu chego I.
        - Por que o senhor cuida tanto desta parte?
        - Porque isto aqui faz parte da casa.  como outra pea da casa do seu pai. Aquela parte ali - apontando para o segundo terrao - eu vou cuidar quando o seu pai morrer e os filhos tomarem conta da casa.
        Todos os filhos menos o Francisco e eu j tinham sado da casa. Eu estava perto dos vinte anos, foi pouco antes do acidente, pouco antes de tudo acontecer. Eu tinha parado de estudar, passava o dia inteiro lendo e  noite saa, s vezes me encontrava com os irmos para conversar ou ia, com o Francisco, "s putas". O Toms ento estava fugindo da polcia poltica. Eu no sabia bem por qu. Nunca me interessei muito por poltica.
        - E o jardim dos fundos, seu Joaquim?
        - Desse eu cuido quando a casa for sua.
        - O senhor acha que eu vou ficar com a casa?
        - Vai - disse o velho sbio. E o velho sbio acrescentou: - Mesmo se ela no existir mais, voc vai ficar com a casa.
        Se a paternidade  ou no uma abstrao legal eu no sei, mas o fato  que, depois de anos de silncio entre ns, s vezes cortado por dilogos secos da minha parte e constrangidos da dele, meu pai mandou seu advogado me procurar. O doutor Vico arranjou uma maneira de me pegar sozinho na biblioteca. E comeou, claro, com uma histria.
        - Um dia eu cheguei para uma das nossas batalhas de xadrez e encontrei seu pai colocando um pedao de papel entre as pginas de um livro, como se fosse uma cerimnia. Voc sabe como o seu pai  teatral. Ele tinha o livro aberto numa mo e com a outra, lentamente, solenemente, colocou o papel, uma espcie de carto, entre as pginas, depois fechou o livro com um estalo. Foi no dia em que voc nasceu. E ele ento me contou que no dia do nascimento de cada um dos seus filhos tinha feito a mesma coisa. Marcara uma passagem num dos seus livros preferidos para que o filho que estava nascendo naquele dia o encontrasse mais tarde, quando estivesse em idade de ler. No significava nada. Era um recado, uma mensagem. Ele apenas queria proporcionar aquele prazer ao filho, no futuro. Ele imaginava que todos os filhos fossem ter o mesmo gosto pela leitura que ele tinha. Mas s voc teve.
        - Os papis eram santinhos, cada um correspondendo ao nome de um dos filhos. J encontrei cinco. Eu no sabia que ele tinha colocado com essa inteno. Pensei que fossem marcadores de livro que ele tivesse esquecido, s isso.
        - Tem muita coisa sobre o seu pai que voc no sabe.
        - Eu sei de coisas demais sobre o meu pai.
        - Voc encontrou o seu santinho?
        - Nem o meu, nem o do Toms. Que livro era? O meu?
        - No sei. Aposto que nem o seu pai se lembra. Um dia voc vai encontrar.
        Olhei para as estantes cheias de livros encadernados at o teto. A busca podia levar uma vida inteira. Pelo menos, uma vida curta inteira. Uma vida de mrtir.
        - Seu pai  uma das melhores pessoas que eu conheo, Estevo. Ele  difcil, eu sei. Mas ele era louco pelos filhos.  louco pelos filhos.
        - E ns o decepcionamos?
        - No.  que, sei I. Essa coisa de pais e filhos  sempre complicada. O tempo passa, as pessoas mudam,  uma tragdia.
        Ele pensou sobre o que tinha dito e concluiu que estava certo.
        -  isso. A tragdia  que o tempo passa. A tragdia humana  essa. O tempo  o instigador, o tempo  o assassino, o tempo  o profanador.  por isso que a inocncia  impossvel. S o atemporal  inocente e nada  atemporal, tudo acaba aviltado pelo tempo. E pela certeza da morte, que  o ltimo crime do tempo.
        Ele riu com a sua prpria eloqncia, mas seus olhos srios tentavam penetrar nas minhas cavernas, eu estaria entendendo tudo aquilo?
        - As pessoas s vezes ajudam o tempo a degrad-las - disse Estevo, o Reto.
        - No julgue o seu pai. Ele  um homem dilacerado. Ele hesitou, examinou o prprio adjetivo e o aprovou.
        - Dilacerado,  isso. Tem uma mente aguadssima, mas a embotou contra essa maldita religio. Quando ns tnhamos a sua idade, passvamos noites inteiras discutindo sobre, literalmente, Deus e o mundo, e quando eu no tinha mais argumentos contra a f que ele defendia, ele me supria de argumentos! Muito mais agudos e destruidores do que os meus. Mas sempre voltava  sua f, como a criana que joga fora o brinquedo maravilhoso e prefere brincar com a caixa.
        - Ele dilacerou a famlia - disse Estevo, o Inflexvel.
        - Ele sempre foi um apaixonado pela famlia, pela casa. Ele s no soube, talvez, expressar este amor. Veja s, o que ele tinha que dizer aos filhos deixou marcado em livros, com santinhos. Isto apesar de ser um homem eloqente, um orador inflamado. Uma vez quase chegamos aos socos numa discusso sobre o pecado original, sobre a Flix Culpa.
        - Eu me lembro - disse Estevo, o Crebro Pega-Mosca.
        - Sempre fui fascinado pelo amor que os catlicos tm ao pecado. Eles cultivam o pecado, so agradecidos ao pecado. Sem a feliz culpa de Ado, a humanidade no teria se degradado e a Igreja seria desnecessria. Estaramos livres da histria e do tempo, mas no teramos a liturgia, o doce martrio dos santos e a redeno final.
        - Meu pai, nesse ponto, foi extremamente catlico. Decidiu amar o pecado pessoalmente.
        Assisti no rosto do doutor Vico,  lenta evoluo da perplexidade para a desconfiana e para a certeza. Ento eu sabia?
        - Voc sabe?
        - Da outra famlia? Todos os filhos sabem.
        - Foi por isso que voc se afastou dele?
        Baixei os olhos. H anos que nenhuma lgrima saa daquelas cavernas, mas eu era precavido. O doutor Vico, sem saber o que dizer, brincou com uma das peas de xadrez sobre a mesa  sua frente.
        - Voc quer saber como isso comeou? - perguntou, finalmente.
        - No.
        - Eu conheo a histria, eu...
        Mas eu no queria ouvir histrias. No aquela. Interrompi o doutor Vico com um gesto, sorrindo ao mesmo tempo, para no parecer indelicado. Afinal, ele era quase da famlia, era o padrinho do Toms.
        - Voc  mais intransigente do que ele.
        - Isso  fcil: ele no  intransigente. S o que ele faz  transigir. Traiu tudo.
        O doutor Vico fez uma cara de sofrimento.
        - Traio. Essa palavra...
        O trado era eu. O casaro continuava o mesmo, a avenida de casares, a cidade, tudo. Eu  que subitamente me sentira um estranho. Minha me continuava vivendo com ele como sempre. Eu  que era o ofendido. Meus irmos comentavam o pecado do velho com divertida tolerncia - "E o safado nos fazia confessar at punheta" -, eu  que era o ultrajado. Estevo, o Ultimo Inocente.
        Dias antes dessa conversa eu soubera, pelos meus irmos, de uma histria espantosa envolvendo o doutor Vico. Histrias, histrias. Com seus trinta anos, o doutor Vico, que era um homem bonito e solteiro, se apaixonara pela mulher do seu scio num escritrio de advocacia, e o amor fora correspondido. Tinham passado a se encontrar num apartamento que o Vico alugara justamente para encontros amorosos, j que morava com a me. Um dia, no entanto, a mulher convidara Vico para dormir na sua casa, pois o marido estava viajando. O Vico sabia que seu scio estava viajando, mas hesitou, cheio de culpa. O marido, alm de seu scio, era um dos seus melhores amigos. Tra-lo j era terrvel, tra-lo na sua prpria cama era impensvel. Mas Vico, que nas discusses com o meu pai defendia a soberania do homem sobre a sua existncia, interpretou seus prprios escrpulos como uma intromisso indevida, de foras atvicas, na sua liberdade de escolha e escolheu aceitar o convite da amante. Como um gesto de liberdade. Obviamente, quando estavam, Vico e a amante, na cama, em flagrante deleite, chega o marido, que esquecera justamente na sua mesinha-de-cabeceira um papel importante. Chega, d com a cena, e fica paralisado. Tem um derrame, um acidente cerebral que o deixa para sempre com a mesma cara, de horror e incompreenso diante da traio. Vico e a mulher levam o marido para o hospital. Acompanham a sua recuperao, que  lenta, e no  completa. O homem recobra alguns movimentos, mas o seu rosto permanece o mesmo. O horror e a incompreenso. Vico -  o que se conta - convence a mulher de que os dois tm que viver juntos, e o marido junto com eles. Cuidaro dele. Expiaro o seu remorso cuidando dele. Tero sempre aquela cara, aquela mscara de reprovao para lembr-los da sua culpa, para lembr-los do que fizeram. Ouvi aquela histria com grande dor, embora os meus irmos dessem gargalhadas. Admirava o doutor Vico, o seu bom humor, a sua amizade de tantos anos com meu pai, a sua inteligncia, no podia imaginar que carregasse aquela tragdia na vida, seria verdade? Era. E mais. Diziam que a mulher tinha resistido  insistncia de Vico para que o homem ficasse no quarto com eles enquanto faziam amor. No, aquilo no. Mas Vico insistia. Era preciso. Eles no lavariam a sua culpa se no fizessem assim. Todas as luzes do quarto acesas. Os dois repetindo, na cama, o ato da traio. E o marido sentado numa cadeira do lado da cama, o rosto retorcido pelo horror e a incompreenso. "Aposto que no fundo o velho Vico se excitava com isso", comentou um dos meus irmos, mas imaginar a cena me enchia de pavor. De certa maneira aquela revelao sobre o doutor Vico completava o desencanto que comeara com a viso da jovem mulher saindo do quarto do meu pai e andando na ponta dos ps pelo corredor, e que se acumulara nos anos seguintes e me transformara naquele ser ultrajado que agora pensava, enquanto o doutor Vico sacudia a cabea e dizia "Traio, traio, no gosto dessa palavra": eu no gosto  do ato, no gosto  do que o tempo fez com os meus heris.
        Como acabara a histria do Vico? Nem sei se a histria  bem assim, posso estar inventando. A mulher teria desistido e fugido. Por algum tempo Vico e o marido teriam vivido juntos, depois Vico o internara. Vico no tinha se casado, isto eu sabia. Eu o imaginava visitando o amigo no hospital. Semanalmente. Encarando aquela mscara todas as semanas. E pensei: eu fiquei na casa no para no abandonar minha me ou os meus privilgios de prncipe dos jardins, eu fiquei na casa para que ele visse a sua culpa, diariamente, no meu rosto. Estevo, o Implacvel.
        O velho Joaquim das Flores dizia:
        - Acontece o que tem que acontecer. Ningum  culpado.
        Eu no entendia. Pensava que ele estava falando sobre o pequeno drama da sucesso no seu jardim, plantas morrendo para que outras pudessem nascer. Sem dor, sem histrias. Eu precisava de culpados. Sem o pecado e a retribuio, aquela histria no tinha sentido.
        Antes de deixar qualquer pessoa entrar na manso de Vishmaru, Kabal, a mulher-cachorro, propunha um enigma pelo interfone. Sua voz saa fanhosa do alto-falante embutido numa das pilastras do porto de entrada: "Qual  o animal que de manh anda de quatro,  tarde anda sobre dois ps e ao entardecer sobre trs?" Conrad sabia a resposta antiga, era o homem, que na infncia engatinhava, na juventude andava altivo sobre suas duas pernas e na velhice usava uma bengala, mas Kabal disse: "Errou. " Conrad pensou depressa. " Vishmaru, o sbio. " "No!" " Sigmund Freud", arriscou Conrad. "No!" "Eu desisto. Quem ?" E a resposta de Kabal viera envolta em risadas. " Priapo!" Ela abriu o porto. Conrad entrou, intrigado. Aparentemente, nenhuma tragdia ocorrera na manso. O Grego ainda no chegara a Vishmaru. Conrad encontrou Kabal recostada numa imensa poltrona colocada no meio de uma vasta sala nua. Vishmaru no gostava de adornos. O nico mvel da grande sala era a poltrona na qual Kabal, com as pernas cobertas por uma pele, sorria para Conrad. No, Vishmaru no estava em casa. Tinha ido a um encontro, em Londres. Um encontro? Em Londres?
        Vishmaru no ia a encontros. Os outros  que vinham encontr-lo, na sua manso asctica, e sentar-se a seus ps santos.
        - Este  um encontro importante - disse Kabal.
        Ela estava diferente. Um olhar mortio. E o sorriso no deixava o seu rosto.
        - Com quem? - perguntou Conrad, temendo que o Grego tivesse atrado Vishmaru para uma armadilha. - Ele foi sozinho?
        - O motorista o levou. Ele vai dormir na cidade. No sei com quem era o encontro.
        Aquilo era estranho. Mas pelo menos Vishmaru estava vivo. Isso se a ida a Londres no fosse uma armadilha do Grego...
        - Ele foi procurado por um grego?
        - Por gregos, americanos, japoneses...
        - No. Um grego em especial.
        E Conrad descreveu o Grego. No, no, nenhum grego com cara de assassino aparecera na manso. Kabal agora estava com a cabea atirada para trs, e o seu sorriso aumentara. Ela estaria drogada? Mas Vishmaru no admitiria aquilo. De repente ela afastou a pele que cobria suas pernas. Conrad teve um choque.
        - Mas... Voc no  mais metade cachorro! Ela deu uma gargalhada.
        - Que histria  essa de cachorro? Olhe melhor.
        E ento Conrad viu que no s suas pernas eram de mulher como estavam abertas, e ela estava nua da cintura para baixo, e os seus plos pubianos formavam a cabea de uma seta, apontando para baixo, como que para mostrar o caminho ao atnito Conrad.
        - Cubra-se - disse Conrad.
        - Venha!
        - Cubra-se!
        E Conrad afastou-se, chocado, transtornado, ainda por cima tonto com a falta de alimento. Foi at o quarto de Vishmaru. Seu mestre, o guardio da sua alma. Ficou por um longo tempo olhando as paredes nuas, a humilde esteira no meio do quarto onde Vishmaru dormia. Era ali que, na sua imaginao conturbada, ele temera encontrar Vishmaru morto, com os sinais do ritual sangrento do Grego espalhados pelo seu corpo e pelas paredes. Felizmente, Vishmaru estava vivo. Mas Vishmaru ainda corria perigo. Ele precisava encontr-lo em Londres, para proteg-lo. Precisava... Ento Conrad sentiu um corpo encostar-se no seu por trs, e os braos de Kabal o enlaaram, e uma das suas mos desceu at o seu pnis para acarici-lo enquanto a outra apresentou, na frente dos seus olhos, um envelope.
        - Isto chegou para voc hoje - disse Kabal.
        Conrad tentou pegar o envelope, mas Kabal o afastou do seu alcance. Conrad tentou virar-se, mas Kabal estava colada s suas costas e girou junto com ele.
        - Dou o envelope em troca de uma coisa.
        - O qu?
        - Isto - disse Kabal, espremendo o pnis que ainda no largara.
        - Est bem - resignou-se Conrad.
        Kabal comeou a pux-lo para a esteira, mas Conrad resistiu.
        - Aqui no. No quarto dele, no!
        - Ento no meu.
        Quando cruzaram a grande sala da manso, Conrad arrastando os ps de cansao e fome e Kabal montada nas suas costas, um bando de discpulos passou por eles na direo do quarto de Vishmaru. Ficariam ali em torno da sua esteira, recitando frases das trs sabedorias de Vishmaru, at que anoitecesse. Conrad imaginou que se ele e Kabal estivessem trepando na esteira, os discpulos interpretariam a cena como uma das verdades emanantes de Vishmaru e a contemplariam com a mesma devoo. No quarto de Kabal, deitado de costas na grande e mole cama de Kabal, de cuja existncia ele nem desconfiava, Conrad recorreu, com algum remorso, aos ensinamentos de Vishmaru para manter uma ereo enquanto sua mente peregrinava, e enquanto Kabal subia e descia no seu pau Conrad chegou a dormir, e sonhou com Llia. No, o que Llia estaria fazendo num sonho de Conrad? Sonhou com Vishmaru, o bom Vishmaru, sentado ao lado da cama, sorrindo e perguntando: "Est bom, meu filho?" E pensou: pronto, agora tra meu pai.
        O envelope tinha apenas o seu nome escrito na frente. Fora entregue no porto aquela tarde. Dentro, um papel dobrado. No papel, uma frase: "Esta noite, aja naturalmente. " Depois uma palavra, "Sassur". Depois, a frase: "s vezes s o que  preciso para desvendar um mistrio  olhar para a frente. " Finalmente, a frase: "Epifania: a ltima lio. "O maldito Grego com seus jogos. Mas pelo menos desta vez usara uma esferogrfica em vez de sangue.
        
        Desta vez, eu nem ouvira o rdio parar. No ouvira a dona Maria sair. S parei de bater  mquina quando me dei conta de que mal estava enxergando o papel, precisava acender a luz. Eu queria pedir para a dona Maria trazer o jornal no dia seguinte. Tambm tomara uma deciso. Ia pedir que ela telefonasse para o meu irmo mais velho. Queria falar com o Toms. No sabia exatamente sobre o qu, mas precisava falar com ele. Naquela noite no jantei. Nem entrei na cozinha. S levantei para mijar e voltei para a cadeira. Histrias, rpido! O turbaro no pode parar. O enterro da Llia. Nenhum parente, ningum. S o Macieira. E o padre Pedro. O padre envergonhadssimo com o caso, o que Deus iria pensar? Uma pobre moa degolada, sem ningum. O padre Pedro escondendo o rosto nas mos. O vexame, a vergonha. Ele no passaria nem perto de uma janela da igreja, com medo de que o olho de Deus o visse.
        Ou ento. Ou ento!
        O Macieira e Llia num bar. O Macieira tomando um conhaque, com o dedinho levantado.
        - Acho que temos o perneta onde o queremos. Ele j est pensando em chamar o irmo! Pobre inocente...
        
        
      6
        
        
        Tomei meu SUCO de tomate depressa quando ouvi a chave da dona Maria na fechadura. Foi ali, ali.
        - Meu irmo t escarrando sangue.
        - Dona Maria, a senhora conhecia o inspetor Macieira?
        - Rf - foi a sua resposta.
        - Ele  muito conhecido no Jardim do Leste. Falaram nele no rdio, outro dia.
        Dona Maria j tinha ligado o rdio.
        - Conhece, dona Maria?
        - Rf.
        - E o padre Pedro?
        - Eu, hein?
        Desisti e fui para a sala. Toc-toc, toc-toc. Tinha dormido mal. Sonhos estranhos. O sangue escorrendo pelo bueiro. Coloquei a mquina no colo e comecei a bater. Faam seu trabalho sujo, capangas. Escrever  mquina  no deixar vestgios, um perito graflogo concluiria: "O culpado  a mquina." A nica desvantagem da datilografia para o manuscrito  que sobra mais lugar para as entrelinhas, esses corredores de fantasmas e divinaes. Mas assim  impossvel! - Dona Maria, abaixa esse rdio!
        
        "Sassur", Conrad sabia, era o nome mgico das nove horas da noite. No trem, voltando para Londres, sentado, prudentemente, entre duas mulheres, Conrad estudava o papel que o Grego lhe deixara. Como o Grego sabia que ele estaria na casa de Vishmaru justamente naquele dia? Deduzira quais seriam os seus movimentos depois de encontrar Ann e a mensagem na sua barriga. Deduzira qual seria a sua deduo, sabia que Conrad concluiria que o prximo passo do sanguinrio Grego seria atacar o homem que ele mais admirava no mundo. O Grego conhece a minha mente, pensou. O Macieira pensa que conhece a mente do autor, que pode manej-la, que pode penetr-la e esprem-la, mas  uma pretenso ridcula. O que pode um inspetorzinho com p de bode contra a mente de um homem que l Joyce no original, que l Conrad? No voc, Conrad. O outro. Voc continua no trem, sentado, prudentemente, entre duas mulheres, estudando a mensagem crptica do Grego. "Esta noite, aja naturalmente. " Onde? Quando? s nove horas, certo. Mas em que circunstncia ele deve agir naturalmente? Ele deve fazer o que naturalmente faz toda vez que chega a Londres, ser isso? Deixa ver. Procurar Priscila, uma das duas nicas bailarinas acrobticas da Inglaterra com um diploma de Oxford. Mas isso  outra histria. Jantar no Oyster Cloister, onde todos os garons so ex-padres que servem as mesas de hbito, mas sem a parte de trs, e no usam roupa de baixo. A nica casa de Londres em que, alm de comer grandes ostras, voc pode beliscar a bunda de um padre. A editora no vai gostar. O Slings and Arrows, o nico pub de Londres com gelo redondo. Sim, era onde ele ia todas as noites. Agir naturalmente, em Londres, para Conrad, era ir ao Slings and Arrows. Estarei I s nove da noite, e  melhor voc estar tambm, Grego. Ou pelo menos o resto da mensagem, as ltimas instrues para o nosso encontro em Delfos, o umbigo do mundo.
        - Posso lhe contar uma histria?
        Era a mulher do lado esquerdo de Conrad. Ela tinha uma voz grossa e a sua mo sobre o joelho de Conrad era grande e apertara com fora.
        - No - respondeu Conrad, mas ela fez que no ouviu e comeou a contar sua histria.
        - Com meus 15 ou 16 anos, entrei para um clube de xadrez, em Manchester...
        Ela jogava bem, mas no melhor do que a maioria dos outros membros do clube. Um dia chegou a Manchester o grande campeo romeno Piotr Paterfamilias, que havia 17 anos no perdia um jogo. O campeo foi convidado a visitar o clube, onde jogaria uma simultnea com todos os scios. A imprensa estava I, uma multido, e Piotr Paterfamilias derrotou a todos com facilidade. A todos, menos um.
        - Eu.
        Ela derrotara o romeno. Pela primeira vez em 17 anos, o grande Piotr Paterfamilias, que todos julgavam ter descoberto a maneira perfeita de jogar o xadrez, fora derrotado. E por um adolescente num obscuro clube de xadrez em Manchester. Naquela noite, o adolescente j era uma celebridade nacional. E, no dia seguinte, nova sensao: Piotr Paterfamilias anunciava aos jornais que seu vencedor do dia anterior era na verdade seu filho! Reconhecera o seu rosto, os seus olhos, um pai no se engana. E lembrara que, 15 ou 16 anos antes, estivera em Manchester, e conhecera, no sentido bblico, uma mulher. Uma amante do xadrez que pedira para ser fecundada pelo mestre. Os pais do adolescente reagiram. Aquilo era uma mentira! O jovem era filho deles, a me jamais conhecera o romeno, nem era to louca assim por xadrez. Mas Paterfamilias insistiu. Disse que compreendia que a mulher quisesse esconder o fato, respeitava a sua posio, mas queria o seu filho, queria-o ao seu lado, inclusive para orientar sua carreira no xadrez. Pois o menino era obviamente um gnio, como o pai.
        - Menino? - estranhou Conrad. - Mas voc  uma...
        - Eu sou homem - cochichou a mulher. - H anos que me visto de mulher, para escapar de Paterfamilias. Ele continua me perseguindo. Lutou nos tribunais para provar que era meu pai. Subornou laboratoristas para darem atestados falsos provando que o nosso sangue era o mesmo. Envolveu a diplomacia do seu pas no caso. Pagou pginas inteiras nos jornais. Tentou me seqestrar vrias vezes. Minha me provou que nem morava em Manchester na poca em que ele diz que a engravidou e, mesmo, ficou provado que ele nunca estivera em Manchester antes. As cortes decidiram contra ele, mas mesmo assim ele persistiu. Aquilo tornou-se a obsesso da sua vida. Ele abandonou o xadrez, perdeu todo o dinheiro que tinha lutando para provar que eu era seu filho e s por isso o derrotara naquela tarde. Quando no tinha mais o que fazer, legalmente, comeou a me perseguir. Eu lhe ofereci uma revanche. Ele recusou. Propus declarar  imprensa que naquela tarde eu roubara, desfizera um lance dele enquanto ele jogava com outros, trapaceara. Recusou. Ele infernizou a minha vida. No pude estudar. No pude trabalhar, casar, ter uma vida normal. No pude mais nem jogar xadrez. Finalmente decidi simplesmente mudar de identidade. Simulei um suicdio, fiz uma plstica e passei a viver como mulher. Ele no acreditou no meu suicdio. Ainda est  minha procura. Enlouqueceu. Hoje vive pelas ruas, olhando a cara de todos que passam, dizendo "Meu filho, meu filho... "
        Ela suspirou, depois sacudiu a cabea e disse:
        - Homens!
        A mulher  direita de Conrad, que esperara pacientemente a sua vez, disse:
        - Posso lhe fazer uma pergunta?
        - No.
        - Quando eu era bem mocinha, tive uma aventura amorosa e fiquei grvida. Como meus pais eram muito severos e eu no tinha ningum para me orientar, fiz eu mesma um aborto. Joguei o embrio na privada e puxei a descarga. Meus pais nunca ficaram sabendo, eu nunca contei a histria a ningum. Depois tive uma vida normal, casei, nem vou dizer o nome do meu marido, pois o senhor certamente o conhece, tive filhos, hoje estou muito bem de vida. Alis, neste momento estou vindo da casa da minha velha me, 90 anos e ainda toca acordeom como uma garotinha, mas isso  outra histria. Ultimamente, no entanto, passei a ter sonhos esquisitos. Sonho com o embrio que mandei para o esgoto. Meu primeiro filho. Sonho que ele sobreviveu, que cresceu nos esgotos, alimentando-se Deus sabe de qu, mamando em ratazanas, o senhor sabe como  o impulso vital, ainda mais na nossa famlia. Passei a ter fantasias, tambm. No podia mais chegar perto de privadas, com medo de que alguma coisa me puxasse para baixo, para os esgotos. O senhor pode imaginar como essa fobia afetou a minha vida e a minha higiene pessoal. Finalmente, decidi procurar um psicanalista. Na primeira sesso, contei do meu aborto. Ele foi a primeira pessoa do mundo que soube da histria. Depois contei dos meus sonhos, dos sonhos do embrio crescendo no esgoto, tornando-se um beb, depois uma criana... E ento vi que o psicanalista tinha lgrimas nos olhos. E ele me contou que aquele embrio era ele! Sim, tinha se criado num esgoto e mamado em ratazanas. Tinha 15 ou 16 anos quando, pela primeira vez, abriu um bueiro e decidiu investigar o mundo aqui fora. Foi a primeira vez na sua vida que comeu qualquer coisa que no fosse dejeto. Com muito custo conseguiu se adaptar  vida na superfcie. Estudou  noite enquanto trabalhava e, com imensos sacrifcios, conseguiu um diploma de psicanalista e uma tima reputao no meio, pois seu nome me tinha sido muito recomendado. Alis, depois da primeira sesso ele j disse qual era meu problema: um grande sentimento de culpa pelo meu pecado juvenil, nunca revelado. Fiquei muito orgulhosa, como me. Agora, minha pergunta  a seguinte. Devo continuar meu tratamento com ele, ou o fato de ele ser meu filho, rejeitado ainda em embrio, vai afetar o nosso relacionamento e impedir que ele me trate com objetivismo clnico? Sim, porque...
        Foi nesse ponto que eu ouvi o nome da minha famlia no rdio.
        No infernal rdio DA dona Maria, no interminvel programa que a dona Maria ouvia o dia inteiro. Aparentemente surgira um problema para a construo da capelinha em memria da Valdeluz, pois o terreno atrs do casebre da dona Valdecina, como a maior parte dos terrenos no Jardim do Leste, pertencia  nossa famlia, a Prefeitura no tinha a ltima palavra. A maior parte dos terrenos do Jardim do Leste pertencia  nossa famlia! Eu no sabia. Muito dinheiro continuava chegando para as obras da capelinha. O prprio assassino, Dori, se comprometera a erguer o monumento, junto com outros detentos. O Jardim do Leste estava mobilizado, faltava s resolver aquela questo do terreno. Mas dona Valdecina no devia se desesperar, pois Deus no abandona as suas criaturas.
        
        O MDICO DISSERA A meu PAI que ele tinha que escolher, ou um bom charuto ou a vida, e ele respondera que a escolha era impossvel, porque um bom charuto  a vida. Ele mesmo repetira a frase na mesa do almoo, sem muito sucesso.  que a sua platia estava reduzida. A minha me, silenciosa como sempre, o Francisco, de ressaca como sempre, e eu, o trado. No fim daquela tarde eu o encontrei na poltrona de couro rachado da biblioteca com o charuto aceso na boca. Mas estava encurvado para a frente, com o charuto apontando para o cho.
        - O senhor est sentindo alguma coisa?
        Estevo seco, perguntando s por obrigao filial. Afinal, no era um monstro.
        Ele fez que no com a cabea e encostou-se no respaldo da poltrona. Caiu cinza do charuto na frente da sua camisa. Ele me olhou ento, e era o olhar de um homem prostrado que espera um golpe. Pensei em alguma coisa para dizer, alguma coisa que no fosse uma acusao.
        - J encontrei cinco santinhos. Faltam dois.
        - O qu?
        - Os santinhos que o senhor colocou nos livros, quando cada filho nasceu. J encontrei cinco. Faltam o meu e o do Toms.
        Ele fez que sim com a cabea. Depois disse:
        - Eu mudei.
        - Mudou?
        - Os santinhos. O seu e o do Toms. Botei em outros livros. H poucos dias.
        - Ento o senhor se lembrava onde eles estavam?
        - Claro.
        Um pensamento iluminou o seu rosto por um instante e ele me examinou, como se tentasse decidir alguma coisa, antes de dizer:
        - O Toms nunca vai encontrar o dele. A nica vez que ele entrou nesta biblioteca foi para esbarrar numa mesa e quebrar um vaso. Ele tinha sete anos. Voc se lembra? Claro que no. Voc ainda no era nascido.
        Eu sorri. Afinal, no era um monstro.
        - Por que voc no leva o livro para o Toms? - perguntou.
        - Eu no sei onde o Toms est.
        - Sabe.
        - No sei, pai.
        - Est bem. Mas quando souber, entregue o livro a ele. Diga para ele procurar a parte marcada com um santinho. Com o santo dele. Ser uma mensagem do seu pai.
        Aquela era a conversa mais longa que tnhamos tido nos ltimos cinco anos. De alguma maneira, eu no queria que ela acabasse.
        - Em que livro est o meu santinho?
        - Voc vai encontrar, um dia. Tem tempo.
        Ele se levantou da poltrona e dirigiu-se para uma das estantes.
        - Por que o senhor trocou de livros? - perguntei.
        Ele fez um gesto vago com as mos. Estava de costas para mim, inclinado para trs, tentando localizar alguma coisa numa prateleira alta.
        - Muita coisa aconteceu.
        - Ns no fomos os filhos que o senhor esperava.
        - Ou eu no fui o pai que eu esperava.
        No. Autocrtica! Aquilo era milagroso. Mais um pouco e teramos todas as nossas culpas despejadas no tapete. Como pescadores em torno da safra do dia. Aquela arraia  minha. Aqueles caranguejos so meus...
        Ele fez eu me aproximar com um aceno e apontou um livro numa prateleira de cima.
        - Pega aquele I, com a escada.
        Subi na escada e peguei o livro. Um volume fino, encadernado. O ttulo era Apocrifia. Desci a escada e entreguei o livro ao meu pai. Ele me entregou de volta.
        - Leve para o Toms.
        - Eu no sei onde ele est.
        - Descubra onde ele est - disse o velho ator. - Voc sabe como isto  importante.
        
        NO INTERMINVEL PROGRAMA da dona Maria, interromperam a transmisso do auditrio para uma reportagem externa. E ateno: o foragido Candiota dos Santos, o Cand, que h dias matou com faco o seu filho Zarolho, foi abatido a tiros h poucos minutos pelo inspetor Macieira da 12a DP. Estamos aqui com o inspetor Macieira, que nos dir o que aconteceu.
        - Ele prometeu se entregar a mim e ns tnhamos marcado um encontro aqui. Como  que vocs sabiam que era aqui?
        A reportagem seguira o inspetor Macieira. A reportagem sempre seguia os passos do famoso inspetor Macieira no Jardim do Leste.
        - No sei se ele se assustou com a presena de vocs. O fato  que avanou em mim de faco. Olha aqui, pegou de raspo.
        O inspetor Macieira est sangrando, mas no parece ser coisa sria.
        - Fui obrigado a atirar.
        Cand morreu com um tiro no olho.
        - Eu no queria matar o Cand. Ele era meu compadre. Mas olha a.
        O inspetor Macieira est sangrando muito. Vai ser levado agora para o hospital. J tem muita gente aqui rodeando o corpo do Cand. Padre Pedro, o senhor teria alguma coisa a dizer aos nossos ouvintes?
        - Que vergonha, que vergonha!
        O senhor tem alguma coisa no olho, padre Pedro!
        -  o meu olho branco. No sei o que h com ele.
        Conrad tinha um pequeno apartamento em Londres. O andar superior de uma casa estreita em Mayfair. Ele tambm alugava parte do poro, que mandara isolar para praticar tiro ao alvo. Era em Londres que mantinha as suas armas. Escolheu uma Beretta e colocou junto com as outras coisas - leno, carteira, chaveiro - em cima da cama, enquanto tomava banho. Debaixo do chuveiro, Conrad examinou o que estava sentindo. Remorso, sim, pelo que fizera com Kabal, a ex-mulher-ca-chorro, companheira de Vishmaru, mas no havia como resistir. E ele pensara em Vishmaru o tempo todo, fazendo a penitncia junto com o ato. Cansao, pois cruzara e recruzara o Atlntico em 48 horas. E o que mais? Fome. Claro. H quantas horas no comia? Mas o sentimento que dominava Conrad era um sentimento novo. De antecipao, ao mesmo tempo de temor e euforia. Ele sabia que alguma coisa iria se romper na sua vida, que alguma revelao era iminente. E que alguma coisa estava acabando tambm. No era mais o velho Conrad. Seria aquela sensao que o impedira de matar o Grego? A sombra que passara pelo seu rosto quando tinha a arma apontada para a cabea do Grego, o sentimento que detivera seu dedo no gatilho - alguma coisa percebida ou alguma coisa lembrada? - talvez fosse a premonio de que se acabasse com o Grego ali, se o matasse como um animal, estaria se privando desta revelao, estaria sabotando o seu prprio destino. O Grego precisava viver para que Conrad finalmente se entendesse. A editora no vai gostar. O que eu penso que estou fazendo, uma histria de quarta categoria? Conrad saiu do banho, vestiu-se e colocou a Beretta na cintura, atrs, por baixo do blazer.
        Eu sabia onde Toms estava. No dia seguinte sa, ingenuamente, com o livro embaixo do brao. Para algum que estivesse me seguindo, aquele seria o sinal. Se ele estiver com o livro  porque vai ao encontro do irmo. Mas por que ele levaria o livro ao irmo, que importncia tem esse livro?  porque  tudo sobre pais e filhos, entende?  uma coisa antiga, um ritual, um encargo solene: o filho mais moo levando ao primognito uma mensagem de paz do Pai. Eu levava o encargo to a srio que nem abri o livro para procurar a passagem marcada pelo meu pai, o trecho que ele queria que Toms lesse. Eu era apenas o intermedirio. E I vai ele, Estevo, o ltimo Inocente, com o livro embaixo do brao, na sua misso sagrada. Homens!
        
        O Slings and Arrows ficava no Soho. Os dois irlandeses que atendiam atrs do bar se chamavam Ortega e Gasset, e receberam Conrad efusivamente.
        - Gelo redondo para o marinheiro!
        Conrad olhou em volta. Nenhum sinal do Grego. Encostou-se no balco mas mudou de lugar depressa quando notou que tinha ficado entre um homem e uma mulher. Ortega colocou o copo com Glenlivet e gelo redondo na sua frente. O bilhete do Grego dissera que muitas vezes, para desvendar um mistrio, bastava olhar para a frente. Conrad olhou para a frente. Examinou as fileiras de garrafas atrs do bar, os psteres, as coisas escritas nos espelhos, a lista de pratos no quadro-negro. Onde estava a mensagem? Gasset postou-se  sua frente. Nada na cara de Gasset tambm. Que horas eram? Seu relgio estava adiantado. Marcava a hora em Delfos.
        - Que horas so?
        - Dez para as nove.
        Onde estava a mensagem?
        - Onde voc tem estado, marinheiro?
        - Pelo mundo.
        - Essa cicatriz na sua testa  nova.
        - Voc conhece o mundo...
        - . Um lugar muito mal freqentado.
        Conrad afastou-se do balco. Andou pelo pub, olhando as pessoas, olhando os quadros, lendo tudo que estava escrito, procurando a mensagem. Talvez tivesse interpretado mal o bilhete do Grego e estivesse no lugar errado. Avistou Martin, da Interpol. Ele era francs, pronunciava-se Marta, como o conhaque. Martin levantou seu copo numa saudao. Depois fez uma cara triste.
        - Soube do Hennessy. Duro.
        Conrad fez um gesto, querendo dizer o que se vai fazer? Continuou perambulando. Perguntou as horas a um homem de grandes bigodes que tirou um relgio do bolso.
        -  Cinco para as nove. Sabe, este relgio tem uma histria interessante...
        Mas Conrad afastou-se. No queria ouvir mais histrias. Onde estava a mensagem? O Grego entraria pela porta s nove em ponto? Ou mandaria algum? De repente, Conrad lembrou-se de uma coisa. Bem em frente ao Slings and Arrows, do outro lado da rua, tinha um restaurante grego. Como era o nome do maldito restaurante? Saiu porta afora, carregando seu copo. Ali estava o restaurante. Bem em frente. Seu nome era Omphalos.
        Toms e mais dois ou trs do seu grupo estavam na nossa casa da praia. Eu no sabia exatamente o que eles tinham feito, no entendia de poltica, mas o doutor Vico um dia me dissera: "O Toms devia cair fora desse negcio", como se eu soubesse qual era o negcio, "a coisa est endurecendo". Meu pai fazia reunies no casaro, gente do laicado mais outros que eu no conhecia, e alguns que eu conhecia, de ver na televiso, mas que nunca vira na nossa casa antes. Eu no perguntava aos meus irmos o que estava acontecendo, no queria saber. O Francisco  que me contara: "O Toms est na casa da praia", e eu achara aquilo perigoso, a casa da praia era um esconderijo bvio, meu heri seria descoberto. "At agora ningum pensou em procurar I... ", disse Francisco. E I vai Estevo, com o livro embaixo do brao, em direo  casa da praia. Quando cheguei, a casa parecia deserta, mas vi que tinha algum espiando por trs das venezianas fechadas. Me identifiquei. Disse que queria falar com Toms, ele falaria comigo. Uma porta se abriu e apareceu um homem com cara de ndio, de cabelos compridos, vestindo uma japona grossa, que apontou e disse: "Ele est caminhando na praia. Pra I. " Deixei o carro junto  casa e comecei a caminhar pela praia. Avistei a figura de Toms, ao longe. Ele caminhava na minha direo. Abanei. Ele no respondeu ao abano, ainda no tinha me identificado. Continuamos caminhando, um na direo do outro, at que ele me reconheceu, e abanou alegremente, e apertou o passo, e correu os ltimos vinte metros. Nos abraamos na frente do mar. - Estevo! Que bom que voc veio!
        
        
      7
        
        
        Conrad entrou no Omphalos. O restaurante era pequeno, a iluminao era azul. O maitre aproximou-se com um grande sorriso azul e perguntou se ele tinha reserva.
        - No sei - disse Conrad.
        - Seu nome ...
        - Conrad James, desta vez.
        O maitre consultou seu caderno.
        - Ah, sim. Mr. James, s nove horas. Mesa para dois. Seu amigo est no bar.
        - Meu amigo?
        - Por aqui.
        O Grego estendeu a mo, mas Conrad no a apertou. O Grego estendeu a outra mo tambm e afastou os braos do corpo, para que Conrad o revistasse.
        - De que adianta? - disse Conrad. - Eu sei que voc tem a faca em algum lugar.
        O Grego estava sorrindo. O animal estava sorrindo.
        - Eu nunca ataquei voc, Conrad. Sempre me defendi dos seus ataques.
        - Mas eu tenho todas as cicatrizes.
        - Glenlivet, certo?
        - S se eles tiverem gelo redondo.
        - Mandei buscar no pub. Tm.
        O Grego fez o pedido. Ele no estava bebendo.
        - Fico lhe devendo isso. Alm das cicatrizes. E dos dez mil dlares.
        - E de uma tarde com Linda, no seu camarote. Ou foi no dela? Esse detalhe ela no me contou.
        - Tudo correu de acordo com os seus planos.
        - Eu s no previa que Linda se apaixonaria por voc. Voc causou uma forte impresso, Conrad.
        - Acho que foi o contraste. Ao contrrio de voc, eu no uso faca nas...
        Conrad calou-se. O ventre riscado de Ann lhe viera  mente e ele teve que se conter para no saltar sobre o Grego. No agora. O momento chegaria. Mas no agora.
        - Voc j esbofeteou duas ou trs, Conrad. Verdade?
        O Grego tinha um rosto magro, com as mas salientes. Sua idade era indefinvel. O cabelo, cortado rente ao crnio, era cinzento, no era grisalho. Agora estava azul.
        - Voc sabe que eu vim para mat-lo - disse Conrad.
        - No, Conrad. Voc veio para ser morto.
        - Um de ns, ento.
        - No, Conrad. Voc. Eu j escolhi.
        - Pensei que voc no escolhesse. Que voc apenas fizesse o que  necessrio.
        - Exato. E  necessrio que voc morra.
        - Voc j podia ter me matado.
        - Ah, mas no antes da ltima lio. O catecismo, lembra?
        - Qual  o seu jogo? O que voc quer?
        - Mas no est claro? Eu quero mat-lo. Toda esta histria  para um nico fim. O seu.
        - Desde o comeo?
        - Desde o comeo. Tive que matar uns trs antes de chamar a sua ateno. Foram as frases na parede, no foram? Voc sempre gostou desses toques. Eu sabia que voc estava em Nova York e comecei a matar pessoas para despertar o seu interesse, atiar a sua compulso de se meter onde no  chamado.
        - Como voc sabia que eu estava em Nova York?
        - Hennessy. Ele sempre me contou tudo sobre voc. A ltima informao que me deu foi o endereo de Ann, da doce Ann. S que ele no sabia que ia ser a ltima informao.
        - Hennessy era seu amigo?
        - Digamos que tnhamos interesses em comum.
        - Ento por que voc o matou?
        - Ele tinha se tornado inconveniente. E eu queria deixar uma mensagem para voc.
        - Anangke.
        - Anangke. Por sinal, sabe qual  o seu apelido na Interpol? Popeye.
        Conrad terminou seu usque. O momento chegaria. No agora.
        - Aquela mulher - disse Conrad - no Jardim Paraso...
        - Onde?
        - Nada. Isso  outra histria. Aquela primeira mulher. A primeira vez que voc escreveu coisas na parede. Foi para me provocar?
        - Bem, misturei negcios e prazer. Ela precisava morrer, mas achei que era um bom momento para comear a despertar a sua curiosidade. Voc no se interessa por crimes menores, no , Conrad? Voc precisa se defrontar com o Mal. Sempre com maiscula.
        O Grego continuou:
        - Satisfiz o seu desejo. Ali estava um inimigo  sua altura, uma manifestao inquestionvel do Mal - e o Grego enfatizava comica-mente o "Mai" - do quai voc precisava livrar a cidade, para que a cidade se regenerasse e voc a deixasse no fim da histria. Mas sabe o que aconteceu com o paladino nos tempos modernos, Conrad? Ele no consegue mais sair da cidade. Porque a cidade no tem fim. Ele pensa que est desaparecendo no horizonte, mas continua dentro da cidade, as cidades vo at o horizonte. Outro Glenlivet?
        - Depende. Ns vamos nos matar em breve ou esta conversa ainda continua? No quero desperdiar bom usque.
        - Vamos jantar. Nossa mesa est esperando. E voc deve estar louco de fome!
        O Grego chamou o maitre.
        - Dimitri. Podemos descer?
        A mesa dos dois era na parte de baixo do restaurante. Um salo do mesmo tamanho da parte de cima, s que a iluminao era vermelha. E s havia homens em volta das mesas.
        - Veja quem est I - disse o Grego.
        E Conrad olhou, e viu, numa mesa do fundo, Vishmaru, sorrindo bondosamente, com as mos no colo, ligeiramente encurvado, ouvindo atentamente o que diziam seus companheiros de mesa, um homem careca, de bigode, com aspecto latino-americano, e Mabrik, o comerciante de armas. Conrad ficou olhando para o trio inslito, sem saber o que pensar, at que o Grego o empurrasse discretamente para a mesa que os esperava. Dimitri lhes deu os cardpios, mas Conrad no conseguia tirar os olhos de Vishmaru.
        - O que ele est fazendo aqui?
        -Tratando de negcios. Mabrik voc conhece. O outro  Garcia Mrquez, um colombiano. No o escritor, claro. Esse  o maior traficante de cocana do mundo.
        Conrad atnito. Conrad de novo sem entranhas. Que possvel negcio poderia reunir o bom e sbio Vishmaru, seu pai espiritual, e aqueles dois?
        - Olhe  sua volta, Conrad.
        Conrad olhou. Todas as mesas estavam ocupadas por homens. No havia nada de especial neles. Conversavam discretamente. Na maioria eram homens com mais de quarenta anos, bem-vestidos. Executivos, profissionais liberais, talvez alguns do mundo dos espetculos. O Grego continuou:
        - Se tentssemos matar um ao outro agora, antes de comer, o que seria uma lstima, j que a comida aqui no  autntica mas  boa, voc com a Beretta que tem na cintura e eu com a faca que tenho escondida em algum lugar, estes homens se escandalizariam. Alguns talvez at desmaiassem se vissem sangue. Protestariam veementemente com o dono do restaurante e com as autoridades. Mas tem gente aqui que  responsvel por mais mortes que voc e eu juntos, Conrad. Com duas ou trs excees, todos aqui esto metidos no negcio de drogas ou armas. Os negcios que fazem o mundo girar. Com dez por cento do que estes homens faturam anualmente daria para resolver a fome no mundo, Conrad. Mas, por favor, antes de puxar sua Beretta e comear a atirar em todos, olhe para eles e me diga se algum parece representar o seu Mal com maiscula. Voc pode imaginar um deles enfiando a faca em algum, depois usando o sangue para espalhar grafitos sangrentos nas paredes? Ou riscando uma palavra com a ponta da faca na barriga de algum?
        - No quero falar disso.
        - Omphalos, Conrad. Aqui  o umbigo do mundo. Voc pensou em Delfos, confesse. Delfos, onde as divindades da pr-histria, as monstruosas serpentes da me-terra, foram derrotadas para que nascesse Apoio e a histria mstica dos homens. O marco divisrio entre a idade do caos e a idade dos deuses, Delfos, onde... Ah, Dimitri. O cordeiro?
        - De confiana.
        - Voc viu a cara dele?
        - Vi. Parecia ser de boa famlia.
        - Uma cara honesta?
        - Sim.
        - Nem um pensamento mau?
        - Nenhum.
        - Pode trazer. Conrad?
        - Qualquer coisa.
        A fome desaparecera. Conrad olhava para Vishmaru. O velho estava sacudindo a cabea, com o mesmo sorriso beatificado, as mos no colo. O manto branco, tingido de vermelho pela luz do restaurante, deixava aparecer os braos muito finos. Conrad precisava tir-lo dali. Ele no sabia onde estava metido.
        - O cordeiro para ele tambm - disse o Grego para o maitre, indicando Conrad. - Quanto mais inocente, melhor.
        - Eu vou at I - disse Conrad, comeando a se levantar.
        O Grego o segurou pelo pulso. O Grego tinha as mos finas e os dedos longos e delicados, mas Conrad conhecia a sua fora.
        - Espere. Vamos comer primeiro. Depois iremos at I. Ele sabe que voc est aqui.
        - Vishmaru?
        - Foi ele que proporcionou este nosso encontro. Conrad zonzo. A falta de comida. O usque. A luz vermelha.
        - Como?
        - Depois, depois.
        Um garom trouxera um prato de berinjelas marinadas. Oferta da casa.
        - Prove - disse o Grego. - Voc no come h muitas horas. Conrad enojado. Descobrindo que no podia comer mais nada, nunca mais. Que aquele ato de colocar coisas na boca e mastig-las at que se transformassem numa papa, e engolir a papa, que cairia num saco membranoso onde seria banhada em lquidos quentes e pegajosos era uma coisa repulsiva, o estmago lhe virava o estmago, o mundo era revoltante, a vida era revoltante... Como se estivesse lendo os seus pensamentos, o Grego disse:
        - Que revoluo, no , Conrad? Coisas vivas comendo coisas mortas. s vezes nem esperando que elas morram. Olhe!
        E o Grego apontou com o queixo para uma mesa vizinha onde um homem, com a cabea para trs, introduzia lentamente na boca o pequeno tentculo de um animal que ainda se retorcia, como que se debatendo contra o destino.
        - E a vida, Conrad. Aceite-a. Voc conhece a histria do...
        - Por favor, histrias no.
        - Esta voc vai gostar. A histria do homem que no agentava o sofrimento humano, que queria se distanciar do mundo e do feio espetculo da vida, e ps mil homens a trabalhar noite e dia, sem po nem gua, abaixo de chicote, para construir uma plataforma que o elevasse aos cus, onde ele respiraria ar puro e estaria longe da injustia dos homens?
        - O que voc quer, Grego?
        - Eu j disse. Quero...
        - Me matar, eu sei. Mas por que este jogo? As pistas sangrentas para me atrair at aqui. Este poro maldito, estas histrias?
        O Grego olhou em volta.
        - Conrad, por favor. Voc est sendo conspcuo.
        E realmente, algumas cabeas tinham se virado e alguns rostos mostrado reprovao com a voz alterada de Conrad. Conrad baixou a voz.
        - Por que voc no me matou antes? Por que tudo isto?
        - Porque voc no podia morrer inocente, Conrad. Eu no quero que voc morra como mrtir, quero que morra como testemunha. Quero lhe dar uma educao. E, no fim, a morte, como um diploma.
        - Voc me odeia. Por qu?
        - No! Ser possvel que eu fiz tanto esforo, gastei tanto sangue alheio, sujei tanta parede, para nada? No existem culpados, Conrad. O terrvel no mundo  sua terrvel inocncia, a sua inocncia reincidente.
         o tempo nos matando sem remorso, sem desculpas, sem nem reconhecer seu crime. Por necessidade cega. Nada pessoal. Por isto o ritual. O ritual  a imitao dos ciclos reincidentes da vida, mas com um ingrediente a mais: o significado. O que para o mundo  rotina para ns  drama. Crime, culpa, expiao, salvao.
        - Mas o ritual tambm  reincidente. Tudo recomea.
        - Bravo, Conrad. Voc no vai morrer como um cordeiro, afinal. O ritual, ao mesmo tempo que nos conforta com significados, tambm reitera a gratuidade do drama que no fim no significa nada, pois tudo recomea. Mas d outra lio tambm, a principal: que  preciso ir at o fim. No importa se o que voc busca no fim  a salvao da sua alma ou a confirmao de que nada significa nada,  preciso ir at o fim. E no fazer como voc.
        - O que que eu fiz?
        - Voc ficou no meio do caminho, Conrad. Num idlico mundo juvenil de fantasias, de aventuras de quinta categoria, sempre as mesmas. Esqueceu o seu comeo e no quer reconhecer o seu fim. Esqueceu o seu primeiro crime, que foi abrir caminho, rasgando a carne da sua me, para sair do ventre e entrar no mundo, e pensa que pode viver numa eterna adolescncia, imune ao tempo e  degradao. Como o Popeye. Muda o desenhista mas no muda o personagem. O desenhista morre mas o personagem vive, na sua eterna inocncia.
        - Mas ento eu estou certo. Se a realidade  inocente, ento eu sou o supremo realista. Vivo no meu prprio crebro, onde o passado e o presente se intercalam, onde s existem histrias e tudo se iguala porque tudo vira fantasia. Vivo no jardim do den antes da queda, antes do pecado.
        - Mas voc no  um personagem, Conrad. Voc no est imune ao tempo, por mais que seu crebro queira convenc-lo do contrrio. Resultado: voc  um adolescente de quarenta anos. O mundo  inocente porque no tem a conscincia dos seus crimes. Voc no pode se dar a este luxo, Conrad. Voc tem uma conscincia, veio includa no pacote. Eu sou inocente como o mundo porque sei exatamente o que eu fiz e no tenho culpa. Pratico os meus crimes pela mesma razo que o mundo pratica os seus, porque so necessrios. Veja Conrad.  tudo metabolismo.
        Ele fez um gesto que englobava todo o poro vermelho e seus ocupantes.
        - Coisas vivas comem coisas mortas, ou semivivas, e as metabolizam para viver. O que sobra  lixo,  excremento. Isto tudo seria de muito mau gosto se houvesse uma alternativa. Mas no h,  assim que ns somos feitos. Estes senhores  nossa volta suprem as fo-mes do mundo. Partes do mundo tm fome de armas para acertarem as suas diferenas, e eles as fornecem. Outras partes do mundo tm fome de drogas para o xtase ou o esquecimento, e eles as fornecem. As armas e as drogas so metabolizadas e o que sobra so cadveres. O lixo, o excremento. Isto no  moral ou imoral,  o mundo. Ele est literalmente cagando para o seu julgamento, Conrad. Outra das fomes do mundo  pela espiritualidade, pela expiao e a salvao e um antdoto para o singelo fato de que a gente envelhece e morre. E Vishmaru a fornece. Os lderes espirituais so gigols da finitude humana.
        - Mas a espiritualidade no tem lixo.
        - Tem Conrad. Estou falando com um espcime. Voc acaba de saber que o seu pai espiritual  um homem como os outros, com as mesmas fraquezas e cobias, e voc est se sentindo como merda. Exatamente como eu me senti quando descobri que meu pai era dono de um bordel de garotos em Alexandria. Mas isso  outra histria.
        - Sobre o que Vishmaru e aqueles dois esto conversando?
        - Higiene.
        - Higiene?
        - A lavagem de dinheiro. De como a organizao internacional de Vishmaru, com seus sditos e investimentos em diversos pases, pode ajudar a lavar o dinheiro que Mabrik e Garcia Mrquez ganham ilicitamente. Alis, um dos tpicos da conversa  voc.
        - Eu?
        O garom serviu os dois pratos de cordeiro, cujo aroma quente de ervas finas quase fez Conrad vomitar. Os dois queriam um vinho? O Grego no bebia, pediu gua mineral. Conrad no quis nada. Nunca mais botaria nada na boca, se pudesse evitar.
        - Eles esto falando sobre mim?
        - De passagem, Conrad. No seja vaidoso. Coma. Minha me dizia: "Morra de barriga cheia e faa pelo menos alguns vermes felizes."
        - Falando o qu?
        - Que voc no continuar servindo Vishmaru, como pistoleiro.
        - Eu, servindo Vishmaru?
        - Voc nunca soube, no ? Perto da sua inocncia, este cordeiro era um sulto depravado. Muitas das pessoas que voc matou, no seu implacvel combate ao Mal com maiscula, matou por sutil instigao de Vishmaru, que as queria fora do caminho.
        - Isso  mentira!
        Outra vez, rostos virados e rudos de reprovao. O Grego fez um gesto com a mo para que Conrad baixasse a voz.
        - E verdade. Voc foi usado. Nunca a frase "inocente til" foi to apropriada. Alis...
        Conrad levantou-se, virando a mesa. Vrios homens levantaram-se  sua volta, apreensivos. O que estava acontecendo?
        - Conrad, espere!
        Mas Conrad j se dirigia para a mesa de Vishmaru. Estava tonto de desnutrio e indignao, mas estava lcido. Derrubou mais algumas mesas no caminho. Um garom tentou det-lo, mas foi derrubado com um soco e derrubou mais uma mesa na sua queda. Vishmaru estava de braos abertos para saudar Conrad com sua voz feminina.
        - Meu filho!
        Conrad ficou de p ao lado da mesa, encarando Vishmaru, que no parava de sorrir candidamente.
        - Sente-se - disse Mabrik. Dimitri estava ao lado de Conrad.
        - Cavalheiro, por favor...
        - Tudo bem, Dimitri - disse Mabrik. - Ele est conosco. Eu pagarei pelos estragos.
        Conrad sentou-se. As outras mesas aos poucos se recompunham, com os homens murmurando e ouvindo as desculpas de Dimitri: "Cavalheiros, mil perdes, mil perdes", e os garons juntando pratos, copos e comida do cho. Algum disse: "Onde  que estamos?", mas o incidente foi absorvido.
        - Como vai, Mabrik?
        - Bem, bem. Voc est horrvel.
        - Como est Nicole?
        - Bem.
        - Sua me?
        - No quero falar disso.
        Conrad deduziu que a me de Mabrik tinha morrido durante o sono, provavelmente envenenada por Nicole.
        - E voc, meu filho? - perguntou Vishmaru. - Est to desfigurado...
        - Foi um dia estafante. Um dia de revelaes.
        Conrad se deu conta de que estava sentado de costas para o salo. Onde estaria o Grego? No era saudvel ficar de costas para o Grego numa noite de decises.
        - Quem  este? - perguntou o colombiano, irritado porque ningum se lembrara dele.
        - Desculpe - disse Mabrik. - Este  Conrad James, de quem estvamos falando h pouco. Conrad James, o senor Garcia Mrquez, da Colmbia.
        Conrad olhou para a mo que Garcia Mrquez lhe estendera como se o hbito de apertar as mos ainda no tivesse chegado  sua tribo. Completou a apresentao.
        - Sou pistoleiro de Vishmaru.
        O sbio deu uma das suas risadas, que sacudiam todo o seu corpo e faziam sua barba grisalha balanar como um babador. Era uma risada de criana. Depois colocou uma mo suave sobre o brao de Conrad e o corrigiu.
        - Meu discpulo. Meu amigo. Meu filho.
        - Por isso voc pediu para o Grego me matar.
        Outra risada infantil de Vishmaru. Mabrik olhou srio para ele.
        - Isso  verdade? - perguntou Mabrik.
        O sbio levantou os braos numa divertida defesa contra aquele absurdo.
        - No, no!
        - S que o Grego resolveu me dar uma educao sobre o mundo antes de me matar e perdeu a oportunidade. Existe um velho ditado armnio...
        - Qual? - perguntou Mabrik, arqueando uma sobrancelha ctica.
        - "s vezes  preciso escolher entre fazer o discurso e comer a sobremesa."
        - Esse voc inventou agora.
        - Est bem, um novo ditado armnio...
        - Ns s tnhamos decidido que El Grego substituiria o senhor, Sr. Conrad, no departamento de...
        Mas o colombiano se calou porque alguma coisa estava acontecendo s costas de Conrad. Mabrik tinha arregalado os olhos, Vishmaru tinha se virado, Conrad continuava olhando para a frente, acompanhando tudo pelo rosto de Mabrik, que disse, rapidamente: "Shmar!" E ento Conrad viu pela expresso dos trs na mesa que alguma coisa muito feia tinha acontecido s suas costas. Quando se levantou e virou para trs, j com a Beretta na mo, Conrad viu muitos homens correndo na direo da escada, virando mesas e cadeiras, e viu o que os tinha espantado. O corpo do Grego estava estendido no cho, com uma faca na mo. A faca que ele enfiaria na nuca de Conrad se no tivesse sido interrompido pelo assistente de Mabrik, cuja boca parecia uma ferida supurada, e que estava em p ao lado do corpo, segurando uma pequena foice. O corpo do Grego estava sem cabea. Conrad procurou a cabea do Grego com o olhar e finalmente a localizou em cima de uma mesa, exatamente sobre uma travessa de carne de cordeiro. A expresso no rosto do Grego era de serena inocncia. Como se a cabea no tivesse nada a ver com o vexame do corpo.
        - Carajo! - disse Garcia Mrquez.
        - Est acabado - disse Mabrik.
        - Ainda no - disse Conrad.
        E apontou a Beretta para a cabea de Vishmaru, mirando no pequeno crculo vermelho no centro da sua testa, e puxou o gatilho, furando o seu olho csmico. Depois Conrad desmaiou.
        Um remanso. Como flutuar num lago plcido depois de ser carregado por correntezas. Mas era apenas o silncio do rdio da dona Maria. Ela apareceu na porta e anunciou que o jantar estava na geladeira e a roupa estava na corda e que j ia embora. Muito bem, dona Maria. No, espere! Eu preciso que a senhora me traga o jornal e telefone para o meu... Mas dona Maria j tinha sado e fechado a porta. Continuei batendo  mquina.
        As serpentes DA ME-TERRA entre as suas pernas, entre os seus testculos, subindo pelo pnis... Conrad abriu os olhos e viu Nicole, e sua grande lngua roxa e o seu pnis semi-acordado fazendo uma espcie de dueto preguioso, depois o pnis enrijecendo e assumindo o papel masculino no pas de deux, apenas um suporte para a lngua bailarina, onde  que eu estou? Uma grande cama, lenis de seda, o que aconteceu? Tudo confuso. Nicole desaparece. Agora  Mabrik ao lado da cama, como voc se sente?
        - Bem, eu acho...
        - Voc desmaiou. Trouxemos voc para c. Tivemos que sair s pressas do restaurante. Infelizmente, havia muitas testemunhas. Nenhuma que se apresentar voluntariamente  polcia,  verdade, mas vrios dos meus competidores estavam no local e um deles pode aproveitar a oportunidade para tentar me embaraar.
        - O que fizeram com os corpos?
        - Lixo. Excremento. Foram eliminados.
        - Estraguei seu negcio com Vishmaru...
        - Existem muitos lderes espirituais. O meu povo tem um ditado...
        Conrad gemeu, mas decidiu no protestar. Afinal, lhe devia a vida.
        - "No se regozije quando muitos procuram Deus,  sinal que Ele desapareceu".
        Eu no teria feito melhor, pensou Conrad.
        - Agora eu lhe devo a vida, Mabrik.
        - Correto.
        - Voc pagou a sua dvida.
        - .
        - E agora pode me matar.
        - Exato.
        Os dois ficaram se olhando.
        - Nicole me pediu para no mat-lo.
        - O que apenas reforou sua deciso de me matar.
        - Certo.
        - E ento?
        - Voc pode se levantar? Tivemos que forar comida pela sua goela abaixo. Talvez ainda esteja fraco.
        - Posso me levantar.
        - Ento vista-se e venha at a sala de jogos.
        Quinze minutos depois, ainda tonto, mas contente por estar vivo, Conrad saiu do quarto. Descobriu que estava numa manso com gramados em volta. Teve alguma dificuldade para encontrar a sala de jogos. Mabrik estava sentado atrs de uma mesa redonda coberta com feltro verde. Havia vrias mesas para jogos de carta na sala, alm de uma mesa de bilhar e mesas de xadrez. Nicole estava sentada numa poltrona, atrs de Mabrik. Conrad cumprimentou-a com um discreto movimento de cabea.
        - Nicole?
        Ela no respondeu. Apenas estendeu a lngua e alisou uma sobrancelha. Na mesa, na frente de Mabrik, tinha um baralho.
        - Sente-se, Conrad. Conrad sentou-se.
        - Proponho que a gente decida tudo no olho do valete.
        - Tudo o qu, exatamente?
        - Sua vida. Isso no  tudo, para voc?
        - Se eu virar o valete de um olho s...
        - Voc morre.
        - Se voc virar, eu vivo.
        - Simples.
        Simples demais, pensou Conrad.
        - Posso ver os quatro valetes?
        - Certamente.
        Mabrik procurou os quatro valetes no baralho e os atirou, um a um, sobre o feltro verde. S um valete tinha um olho s.
        - Voc embaralha - disse Mabrik. Conrad embaralhou as cartas.
        - Eu corto - disse Mabrik.
        Mabrik cortou o baralho, juntou as duas partes e o colocou no centro da mesa.
        - Os hspedes primeiro - disse Mabrik, indicando o baralho. Conrad hesitou.
        - No gosto desse jogo - disse.
        - Por qu?
        - No depende de qualquer habilidade. No h como influir no resultado. No d nem para trapacear. Estamos entregues  sorte pura. No gosto.
        - Mas esse  o seu encanto. A sua pureza. Eu nunca jogo contra os outros. Nem me interessa ganhar dinheiro no jogo. Sou sempre eu contra a sorte. Ou o destino. Ou o desconhecido. Ou que nome voc queira dar.
        - Voc apenas desafia a sorte e se perder tem outra chance. Eu estou jogando a minha vida. No gosto de entregar minha vida  sorte. No importa a sua pureza.
        - Eu j joguei a vida no olho do valete.
        - Quando?
        - Contra o meu pai.
        - O seu pai?
        - Sim. Mabul, a luz que ilumina o meu caminho, o exemplo que guia os meus passos. Um tinha que matar o outro. Uma questo de negcios apenas, nada a ver com o que sentamos um pelo outro. E ele disse: "A deciso j foi tomada, s nos resta descobrir qual . O olho do valete nos dir." Ele perdeu.
        - Voc acha que a minha sorte j foi decidida, que ns s vamos jogar para descobrir qual  a deciso?
        - Acho. Voc no?
        - E o que o olho do valete dir a voc?
        - Como?
        - Se eu virar o valete de um olho s, isto decide a minha vida. Ela termina. Se voc virar, isto tambm decide a minha vida. Ela continua. E a sua vida? O seu destino? Estou me sentindo muito egosta, s eu vou me divertir...
        Ele ficou em silncio por um longo instante, olhando para Conrad. Finalmente disse:
        - Est bem, Conrad. Voc joga a sua vida e eu jogo Nicole. Ela  a minha vida.
        Conrad olhou para Nicole. Ela parecia no ter ouvido. Passava a mo pelos cabelos loiros e compridos com o olhar perdido.
        - Est bem - concordou.
        - Comece.
        Conrad virou a carta de cima do baralho. Era o dois de copas. Mabrik virou a segunda. Era o dez de paus. Conrad virou a terceira, notando, com o rabo do olho, que Shmar, o assistente, tinha entrado na sala. O rei de espadas. Mabrik: um valete com dois olhos! Conrad, o quatro de ouros. Mabrik, o nove de paus. Continuaram virando cartas. Conrad sentiu que Shmar estava s suas costas. Provavelmente j estava com a pequena foice na mo. Mabrik tirou o segundo valete com dois olhos e, duas cartas depois, Conrad tirou o terceiro. Sobrava um valete no monte cada vez menor, e era o de um olho s. Conrad, o rei de paus. Mabrik, o sete de ouros. Conrad, a rainha de ouros. Mabrik, o s de espadas. Conrad, o cinco de paus. Mabrik... O valete com um olho s. Ele no levantou os olhos da carta. Estava olhando para o olho do valete quando disse:
        - Nicole, v com ele.
        - Mabrik... - comeou Conrad, mas ele o interrompeu com um gesto, os olhos ainda no olho do valete.
        - Saia daqui, Conrad. Vire  direita quando passar pelo porto e siga a estrada, logo voc chegar  estao. Nicole, v com ele. No leve nada. S o que tem no corpo.
        - Nac! - disse uma voz atrs de Conrad, e em seguida uma frase numa lngua estranha, uma frase agressiva que fez Mabrik erguer a cabea com surpresa.
        Mabrik levantou-se e respondeu na mesma lngua, com maior ferocidade. Shmar tirou Conrad do caminho com um empurro. O golpe do brao que segurava a foice foi to rpido que Conrad s se deu conta do que tinha acontecido quando a cabea de Mabrik caiu sobre o feltro verde, em cima do valete de um olho s, enquanto seu corpo desabava atrs da mesa. Shmar j tinha pegado Nicole pelo brao e saa correndo da sala com ela, Nicole s teve tempo de dar um adeusinho para Conrad. Segundos depois, os dois passavam correndo pela janela da sala de jogos, sobre o gramado, provavelmente na direo do porto. Conrad preferiu o atalho. Saltou atravs da janela e caiu no gramado junto com uma chuva de vidro estilhaado. Levantou-se e correu atrs de Shmar e Nicole.
        Eles estavam correndo para a garagem. J tinham pegado um carro. Passaram a toda velocidade por Conrad, Shmar na direo, Nicole s gargalhadas. Conrad escolheu o menor dos carros que sobravam e tambm arrancou. No sabia se havia mais capangas de Mabrik dentro da casa, mas certamente no queria ser encontrado na mesma sala com as duas partes do mercador de armas.
        Agora sim, pensou Conrad. Est acabado.
        Aquela no seria apenas mais uma histria de quinta categoria. Teria epgrafe e eplogo. Escrevi o eplogo, no qual Conrad se declara cansado de tudo e disposto a renunciar a sua vida de aventuras, se Ann o aceitar. Ann, a doce Ann. Mas Conrad no procura Ann. Talvez com medo de que a ltima revelao seja que Ann tambm no  o que ele pensava, que ele tambm a entendeu depressa demais. Conrad acaba comprando um veleiro para navegar sozinho, sem mulher, sem nem um cachorro, pelos mares do mundo, onde  s voc contra os desgnios do planeta, onde sobre cada onda voc joga no olho do valete, mas contra um inimigo sem sangue. No  verdade que a cidade no acaba, que a sua peste se estende at os horizontes. Ainda existem lugares intocados, o lodo frio de jngales onde voc pode deitar e sonhar que nada acaba e nada  trado. De qualquer jeito, esta foi a ltima histria de Conrad.
        Pensei numa epgrafe em grego, mas depois achei que seria demais e, mesmo, a grfica que imprime meus livros dificilmente teria os caracteres. Escolhi as ltimas linhas de um poema de Denise Levertov, "To the reader", que descobri num dos livros do meu pai: "... e enquanto voc l o mar vai virando as suas pginas escuras, virando as suas pginas escuras". Mas botei em ingls: 
        and as you read
        the sea is turning its dark pages,
        turning
        its dark pages.
        A editora certamente no ia gostar. De qualquer jeito, tinha terminado dentro do prazo.
        
        
      8
        
        
        - Este  um bom lugar para um catecismo - disse Toms.
        Caminhvamos de braos dados na beira do mar. O mar estava cinzento, o dia era frio, no havia ningum mais na praia. Toms decidira me educar. Contar coisas que nunca tinha contado.
        - Sabe o nmero 200, o casaro a vinte metros do nosso? Na mesma calada? Est vazio. Agora  usado para torturas. Gente que eles no querem levar para um quartel ou para a polcia, levam pra I. O poro  igual ao nosso, tem paredes grossas. No se ouvem os gritos da rua.
        - Como  que voc sabe?
        - Conheo gente que esteve I. Conheo gente que morreu I.
        - Mas...
        - Estevo, sabe quem  o dono do casaro? E o pai.
        - Mas ele no deve saber.
        - Estevo. O Francisco tem me contado das pessoas que vo I em casa, agora.
        - Mas  o doutor Vico, o...
        - Est certo, o meu padrinho. Grande figura humana. Mas eles esto em guerra, entende? Eles esto defendendo a civilizao crist. As outras pessoas que vo I, alguns no sabem o que se passa, ou desconfiam mas acham que  justificvel. Mas outros sabem de tudo, apoiam, do dinheiro, delatam. Sei de pelo menos um dos que vo I que j participou de sesso de tortura.
        - Quem?
        - Que adianta voc saber?
        - O pai no sabe. Tenho certeza de que o pai no sabe.
        - Sabe, Estevo. Ele cedeu o casaro pra isso.
        - Ele pode ter sido enganado.
        Toms desengatara o seu brao e o passara sobre o meu ombro.
        - Eu no gosto de estar contando isto. Estas coisas. Mas voc precisa saber, Estevo. Eu sei que voc ficou chocado quando soube que o pai tinha outra mulher, que levou a mulher para dentro da nossa casa, lembra? Mas existem coisas mais importantes acontecendo, Estevo. Se voc quer se revoltar, eu posso te dar muitas outras razes.
        - Voc pode estar me dizendo tudo isto s para se justificar.
        - Justificar o qu? Eu ter brigado com ele e sado de casa? Ento voc acha que eu tenho feito tudo isto, arriscado a minha vida, s como revolta contra a autoridade paterna? Que eu sou um burgueso usando a poltica pra resolver meus complexos?
        - Mas voc no faz poltica! Voc est escondido da polcia.
        - Onde  que voc tem andado, Estevo? Voc no sabe o que est acontecendo? Ns estamos em guerra. E  uma guerra poltica. Voc precisa sair daquela biblioteca, Estevo!
        - Voc s entrou I pra quebrar um vaso.
        - Isso quer dizer o qu?
        - Sei I. Que o pai tambm pode ter queixa de ns.
        - Eu no precisei entrar na biblioteca do pai, Estevo. Eu li outros livros. Aquela biblioteca  parte do que eles pensam que esto defendendo.  tpica. A velha aristocracia deste estado, se comovendo com os discursos de Pricles e se beneficiando de uma estrutura feudal que na Grcia antiga era antiga.
        No respondi. Uma das lembranas que eu tinha da infncia era a de ouvir meu pai lendo Pricles em voz alta, e me emocionando, mesmo no entendendo nada. O Toms tinha parado. Era a terceira ou quarta vez que passvamos pela casa e s agora ele notara o meu carro.
        - Voc no devia ter deixado o carro estacionado ali.
        - Por qu?
        - Ns estamos fazendo o possvel pra que ningum note que tem gente na casa. Vai chamar ateno.
        Alm da nossa casa, havia mais quatro naquele trecho da praia. Todas grandes casas. Todas fechadas.
        - Voc acha que  seguro ficar aqui?
        - Se ningum nos denunciar, . E, mesmo,  s por mais alguns dias.
        Ele me puxou para caminharmos mais um pouco, mas eu estava olhando fixo para o mar. No queria sair dali, no queria ser convencido.
        - Ele no sabe. Ele est sendo usado.
        Toms comeou a dizer alguma coisa e desistiu. Ficamos os dois olhando para o mar. Depois de muito tempo, ele disse:
        - A me esteve aqui.
        - O qu?!
        - Veio com o Francisco. Chorou muito. Se queixou.
        - Dele?
        - De tudo. Desta situao.
        - Ela sabe da outra mulher?
        - Acho que sempre soube.
        - Chorou por causa disso, tambm? Silncio de Toms. Depois:
        - Acho que sim.
        Uma perturbao no mar. Logo alm da rebentao. Uma agitao. Pssaros se entrecruzando, confusos. Um prenuncio. Alguma coisa como uma grande baleia ia romper a superfcie. Mas Estevo conseguiu se dominar. Perguntou:
        - Para onde voc vai?
        - Quando?
        - Voc disse que s ia ficar aqui por mais alguns dias.
        - Ah. Temos um esquema a. Eu te aviso.
        - O que foi que a me disse?
        - Que no agenta mais. Que tudo isto a humilha demais.
        - A outra mulher tambm?
        - Tudo.
        Comigo ela no falava. No nesse assunto. Mas Toms era o primeiro. E ento eu perguntei, em voz baixa, quase desejando que o barulho do mar abafasse a minha voz e ele no ouvisse, se ele alguma vez tinha pensado em matar o pai. S no acrescentei "como eu". Ele ouviu.
        - No. No  ele. E o que ele representa. E toda uma estrutura que tem que mudar. Que precisa mudar.
        Ele me olhou antes de continuar.
        - Isso tudo te angustia, no ? Voc no quer que as coisas mudem.
        Eu fiquei em silncio.
        - Ou ento voc quer que as coisas mudem sem dor.
        - E sem culpa - completei.
        -  Engraado. As coisas no mudarem  o que me faz sentir culpado.
        - Talvez a gente no esteja falando das mesmas coisas.
        - Ou da mesma culpa.
        Eu ri e ele esperou um pouco antes de me acompanhar na risada.
        - Voc vai entrar? - perguntei, indicando a casa com a cabea.
        - No. Vou caminhar mais um pouco. No agento ficar muito dentro de casa.
        Nos abraamos.
        - Sagrada Ordem dos Irmos da Bolinha! - gritou ele.
        - Cavalheiros do Segundo Terrao! - respondi.
        - Unidos sempre! - gritamos juntos.
        Eu voltei para o carro e ele recomeou a caminhar. Eu j estava quase chegando  cidade quando me lembrei que no tinha lhe dado o livro. O livro nunca foi entregue. O livro s serviu para assegurar aos meus seguidores que eu ia ao encontro de Toms, e para descobrirem o seu esconderijo. Ou no? O esconderijo, afinal, era fcil de achar. At hoje no sei se eu tra o meu irmo.
        O livro est aqui. Eu o releio s vezes.  um livro curioso. Apocrifia. Traz trechos da Bblia Apcrifa mas no pra a. Tem um Tarzan Apcrifo tambm. Outra histria de Tarzan. Nesta o beb criado pelos macacos se torna adolescente e descobre a casa dos seus pais mortos na floresta africana e, como no Tarzan verdadeiro, aprende a ler com os livros do seu pai. S que nesta verso o seu pai era um latinista, todos os livros so em latim. Tarzan aprende o latim. Quando tem seu primeiro contato com seres humanos, fala em latim e ningum o entende. E levado para a civilizao e considerado um fenmeno, mas tem grande dificuldade em se comunicar com as pessoas. S se comunica com as que falam latim, e estas so normalmente pouco dispostas a conviver com um semi-selvagem de tanga que, ainda por cima, erra algumas declinaes. Tarzan acaba voltando para a sua tribo de macacos, para o lodo frio do seu jngal, onde pode se deitar com um bom volume de Catulo e esquecer a vida. Mas o trecho do livro que meu pai tinha marcado com um santinho de Santo Toms de Aquino para meu irmo ler era o Hamlet Apcrifo. Nesta verso, contada em forma de histria e no teatral, um viajante encontra, numa estalagem, a trupe de atores que acaba de sair do castelo de Elsinore, na Dinamarca, onde coisas apavorantes aconteceram.  uma noite fria e brumosa e todos na estalagem esto aglomerados em torno do fogo. O chefe da trupe, um velho ator, bebe demais e, animado pelo lcool e a receptividade da platia, e o calor do fogo e os fantasmas do seu prprio remorso, conta uma histria de arrepiar. Conta que sua trupe foi contratada por Fortinbras, prncipe da Noruega, para pregar uma pea na corte da Dinamarca. Mas ns no pregamos peas, meu nobre, ns fazemos peas. Peas trgicas, peas cmicas, peas histricas, peas pastorais, cmico-pastorais, histrico-pastorais, trgico-histricas, tr-gico-cmico-histrico-pastorais, peas... Mas Fortinbras no quer saber destas peas, quer que a trupe se insinue no castelo de Elsinore e pregue uma pea. Para comear, usando de todos os demonacos truques do teatro, espelhos e incenso e magia, eles devem simular um fantasma. Em torno do fogo da estalagem, o simples mencionar de um fantasma derrota o calor da chama e esfria a espinha de todos, que chegam mais perto do velho ator para no perder uma palavra. Sim, um fantasma. Um dos atores, o de aspecto mais real e espectral, deve convencer o jovem prncipe Hamlet de que  o fantasma do seu pai. Ah,  uma histria de pais e filhos! Findo o truque, o ator deve se revelar a Hamlet em toda a sua carne e todos os seus ossos, para darem boas risadas? No, no, diz Fortinbras, Hamlet no deve desconfiar que o fantasma no era real, ou pelo menos no era fantasma. A iluso deve perdurar. Mas, meu lorde, protesta o velho ator, isto seria engan-lo. E o que  o teatro seno engano, pergunta o prncipe, e o que so atores seno mercadores de iluso? Alm disso, Fortinbras promete uma boa recompensa aos atores, pregar uma pea ser dez vezes mais lucrativo que apenas fazer uma pea, eles vero. E o que o fantasma deve dizer ao jovem Hamlet? Fortinbras j tem o texto escrito. O fantasma deve dizer a Hamlet que foi envenenado por seu irmo, o mesmo que agora deita com sua viva, me de Hamlet, no seu leito incestuoso, e usa a coroa. Horror, horror. E como se deu o crime? Claudius, o tio traioeiro, derramou veneno no ouvido do fantasma, que na poca, claro, ainda no o era. Mas, exclama o velho ator, esse  o enredo de A Morte de Gonzago. Melhor para vocs, diz Fortinbras, que no precisaro ensaiar demais. E o que devemos fazer depois? Haver uma segunda apario do fantasma, diz Fortinbras. Darei instrues e o texto na hora. Depois, nada,  s deixar o enredo desenredar, at eu dar um sinal. Ento vocs devem voltar a Elsinore para se apresentarem diante da corte e a sim, fazerem uma pea em vez de a pregar. Alis, diz Fortinbras, ou muito me surpreenderei, ou o prncipe Hamlet pedir para vocs encenarem j ustamente A Morte de Gonzago, por estranha coincidncia. Feito isto, vocs se retiraro, eu os pagarei e prometo traz-los de volta a Elsinore todos os anos, quando for rei da Dinamarca. E ento?, pergunta o viajante, sentado to perto do velho ator que pode cheirar o vapor do lcool saindo pelo seu ouvido. Ento o mais real e espectral na nossa trupe, usando de todos os demonacos truques do teatro, se fez passar pelo fantasma do pai de Hamlet, e convenceu o jovem prncipe de que seu tio havia envenenado seu pai para ficar com a sua coroa. Oh, oh, gemeu o velho ator. Se ns soubssemos como tudo ia acabar, nunca teramos comeado. Enlouquecido pela falsa revelao da falsa apario, apesar de alguma hesitao, Hamlet desencadeou uma corrente, uma torrente de eventos que culminou, muito mais tarde, com Claudius morto, Polonius morto, Laerte morto, Oflia, a doce Oflia, morta, Gertrude, a rainha, morta, Hamlet morto e Fortinbras rei da Dinamarca. Ento, diz o viajante, na verdade foi um golpe de Estado? Como?, diz o velho ator, quase ficando sbrio com a incompreenso. Sim! Fortinbras usou a pea pregada para captar a conscincia de Hamlet e us-lo para trazer a discrdia ao reino da Dinamarca e derrubar o rei, para que ele, Fortinbras, pudesse chegar como o salvador, o saneador desta loucura toda, e tomar o trono. E mesmo, reconhece o velho ator. Mas, enfim, o que nos interessa isso? Fazemos apenas teatro, no nos responsabilizamos pelo seu efeito na platia. A aranha tece a sua teia porque  o ofcio das suas glndulas, se ela pega moscas tanto melhor.
        No imagino que premonio levou meu pai a marcar aquela passagem, do uso de motivos pessoais para avanar a histria, do proveito poltico de impulsos antigos, como sua mensagem para Toms. Ela talvez valesse mais para mim, como um aviso de que Toms pretendia minha cumplicidade para mudar as coisas, no porque as coisas precisam mudar, mas porque um leito conspurcado precisa ser vingado. Pois para a histria e para Fortinbras tanto faz que numa ponta da espada esteja um guerrilheiro ou um prncipe melanclico, desde que na outra esteja espetado um rei. Mais apropriada como mensagem a Toms seria a histria seguinte no mesmo livro, a prpria A Morte de Gonzago, uma especulao apcrifa sobre a pea que os atores encenam em Elsinore, a pedido de Hamlet. Em A Morte de Gonzago, um tirano  sacrificado pelos filhos por nenhuma outra razo salvo a de que  um tirano e precisa morrer, para que uma gerao saia de dentro da outra e as coisas mudem. No meio deste drama poltico em que o sangue escorre por todos os bueiros, chegam os atores e encenam um pequeno divertimento chamado Hamlet, sobre um prncipe poeta e seus problemas pessoais, que as mulheres, principalmente, adoram. Terminado o interldio artstico, os homens voltam  sua guerra e  histria. Ao contrrio do veneno parricida no crebro de Gonzago, a histria de Hamlet entrou por um ouvido e saiu pelo outro, pois no passa de uma miniaturizao do drama maior da espcie, preciosa e intil como todas as miniaturas. Mas desconfio que meu pai tinha escolhido o livro ao acaso e colocado o santinho em qualquer lugar. S queria que eu levasse o livro a Toms e revelasse seu esconderijo.
        Meu pai nem tocara no seu manjar branco, sinal claro de que estava num dia negro. Disse, levantando da mesa:
        - Venha at a biblioteca.
        - J vou.
        O Francisco j tinha sado da mesa. Ficamos eu e a minha me sozinhos.
        - A senhora esteve com o Toms.
        - Eu?
        - Ele me contou.
        - Eu no estive com o Toms.
        - Por que a senhora no fala pra mim o que falou pra ele? Eu fiquei nesta casa por sua causa.
        - Eu nem sei onde o Toms est, Estevo. A ltima vez que falei com ele foi pelo telefone, escondida do seu pai, e j faz meses.
        - Eu sei que a senhora esteve com ele.
        Meu pai estava de p no meio da biblioteca, acendendo um charuto.
        - Me leve onde est o Toms. Agora.
        - Eu no sei onde ele est, pai.
        - Eu no posso mais dirigir. Voc tem que me levar.
        - Eu no sei onde ele est!
        - Eu sei onde ele est! S preciso que voc me leve I.
        - Voc no sabe.
        - Estevo. Voc acha que isto  alguma brincadeira? J descobriram onde ele est. Ele e o resto do bando.
        - O senhor contou?
        - Descobriram. No sei como. Eu preciso ir at I. Preciso falar com Toms antes que eles cheguem.
        - Eles quem?
        - Voc me leva ou no leva?
        - No. O senhor est blefando. O senhor no sabe onde . Quer que eu o leve para que eles nos sigam. Sejam I quem forem eles.
        - Est bem. Ento o Francisco me leva.
        - No!
        Mas ele j estava saindo da biblioteca. O charuto aceso na boca. Fiquei ali. Fazer o qu? Ir atrs. No ir atrs. Tentar impedir. Como? O Francisco tambm se recusaria a lev-lo. Mas o Francisco entrou na biblioteca, apressado, e me entregou um pedao de papel.
        - Telefona para esse nmero, rpido. Chame Jorge.
        - Voc vai levar ele I? Francisco saindo:
        - Telefona pra esse nmero! Jorge. Diz que ns estamos indo pra casa da praia.
        - Mas quem...
        Fui olhar pela janela. O pai esperando na calada que Francisco tirasse o carro. A garagem era embaixo da casa, com sada para o jardim. O carro subia por uma rampa lateral para chegar  avenida. Eram trs horas da tarde. Uma luz plida. O sol tambm no estava nos seus dias.
        - O que aconteceu? A me.
        - Nada. O pai teve que sair.
        - O Francisco no pode dirigir, no estado em que ele est.
        O estado em que o Francisco estava era crnico. Voltei para a biblioteca. Disquei o nmero que o Francisco me dera.
        - Oitava.
        - Como?
        - Oitava DPI - uma voz irritada. - Quer falar com quem?
        - Ahn... Jorge.
        O santo guerreiro. Dali a pouco, outra voz no telefone.
        - Sim.
        -  da parte do Francisco. Ele pediu pra avisar que est indo para a casa da praia, com o pai. Dele.
        - Sim.
        Jorge desligou o telefone. E agora? Vou atrs? Decidi. Vou atrs. Fazer o qu? No sei. No posso ficar aqui. Esta  uma histria de pais e filhos. Pai e filhos. Pai e filho. Decidi ir tambm. Para a casa da praia. Para o mar. Finalmente, a besta subindo do fundo. No h lugar para mais nada no crebro quando a besta remexe o lodo do fundo e sobe. Os tubares se retraem, cessam todas as outras histrias. Olhei em volta antes de sair da biblioteca. Sabia que era a ltima vez que a veria.
        
        OS LIVROS ESTO AQUI, empilhados  minha volta, na sala, no quarto, at no quarto de empregada. Mas eu nunca mais vi a biblioteca. Nunca mais vi a casa, nem os jardins. Eu talvez escreva, um dia, sobre aquela ida para a praia, aquela minha estranha passagem para o exlio aqui mesmo. Agora que no escreverei mais sobre Conrad, posso escrever sobre o outro eterno adolescente, Flix Culpa, visto pela ltima vez numa estrada banhada por um sol agonizante, dirigindo um Volkswagen, sem mulher e sem cachorro, na direo do mar e da sua epifania. No importa que eu no me lembre de metade do que aconteceu, para que serve a fico? Histrias, histrias.
        Meu pai chegou com Francisco  casa da praia. Toms estava caminhando na beira do mar. Meu pai foi ao seu encontro.
        - Fuja! Agora. Daqui a pouco vo cercar a casa. Eles vo chegar atirando. No volte para a casa. Fuja!
        Mas Toms corre na direo da casa para avisar seus companheiros. O pai corre atrs.
        - No seja louco. Fuja! Pelas chagas de Cristo! No, ele no diz "pelas chagas de Cristo".
        - Pela sua me! Por mim! Fuja!
        Mas Toms est entrando na casa. E esto chegando "eles" J chegam atirando. O pai levanta os braos para det-los. E atingido por vrios balaos, mas o que o mata  o tiro no olho. Um dos companheiros de Toms irrompe pela porta, atirando, e tenta correr na direo da praia. E atingido tambm e cai de costas na areia. Quando eu cheguei, vi meu pai estendido no cho, a cabea pousada no asfalto, um buraco preto em vez de um olho, o sangue escorrendo para dentro de um bueiro, e o homem com cara de ndio e cabelos compridos tombado na areia. Depois no vi nem ouvi mais nada, s sentia a dor no p, s o meu p ficou consciente, quando acordei no hospital s o meu p doa, depois descobri que era o p que eu no tinha mais. Francisco, Toms e os outros que estavam na casa ou perto da casa no morreram no ataque, ningum ficou ferido. A histria que saiu nos jornais foi que meu pai tinha ido convencer seu filho mais velho a se entregar e fora morto pelo subversivo com cara de ndio. Toms diz que no foi assim, mas na poca no pde dizer o contrrio e depois no se interessou em reviver a histria. Francisco tinha ficado escondido no cho do carro, no viu nada. Eu tinha sado correndo do carro, que deixara longe da casa, subira num cmoro de areia para cortar caminho na direo da casa, uma ponta de taquara atravessara a sola do meu sapato e entrara no meu p, depois s lembro de ver a cabea do meu pai pousada no asfalto, um buraco preto em vez de um olho e o sangue escorrendo para dentro de um bueiro.
        Ou ento: meu pai chegou com Francisco  casa da praia. Francisco ficou no carro. Meu pai entrou na casa.
        - Preciso falar com voc, Toms. L fora.
        - Como  que o senhor soube que eu estava aqui?
        - No interessa.
        - Sei que no foi um dos meus irmos.
        - Vamos I para fora. Na rua:
        - Quem mais sabe que ns estamos aqui?
        - Eles j sabem. Voc tem que fugir.
        - O senhor nos dedou!
        - No!
        - O senhor!
        - O que interessa isso agora? Entre no carro. Vamos sair daqui. Toms!
        Toms est com a pistola na mo. No sei se mirou no olho. Deve ter mirado na testa. Mas a mo tremia. Uma traio, ao menos, vingada. Com o tiro os homens correm de dentro de casa. Mas  tarde. "Eles" chegam. J chegam atirando. O homem com cara de ndio tenta fugir, mas cai na areia. Os outros se rendem. No fica claro quem matou meu pai. Melhor dizer que foi um dos subversivos, o que morreu. Melhor no mexer muito com a histria. E gente importante.
        Ou ento. Ou ento!
        Estevo, o Indeciso, capengando pela areia, deixando um rastro de sangue pela areia, ouve no um mas dois tiroteios vindos da casa. Primeiro um, o que matou seu pai. Depois deste, um carro sai em disparada pela rua, cruza com os carros "deles" que esto chegando, e desaparece. Eles j chegam atirando. Esse  o segundo tiroteio. Quem estava no carro que saiu em disparada? Para quem foi o telefonema que eu dei da biblioteca? Onde entra Jorge, o santo guerreiro, nesse ritual macabro?
        
        
      9
        
        
        No Consegui Comer OS ovos mexidos a tempo. Dona Maria chegou e contou que seu filho estava com pus amarelo saindo de algum lugar. Joguei o resto dos ovos fora.
        - Dona Maria, se vierem da editora, o pacote  este aqui.
        - Hmrf.
        Sentei na minha cadeira e fiquei esperando. No precisei esperar muito. Naquele dia o macio Macieira entrou duas vezes no apartamento. Primeiro, pelo rdio infernal da dona Maria. Boas notcias, auditrio. O inspetor Macieira, o nosso Macieira, vai resolver a questo do terreno onde ser construdo o santurio da Valdeluz. Ele j entrou em contato com a famlia que  dona do terreno, que  dona de quase todo o Jardim do Leste, e parece que no haver problema para a construo do santurio. Al, Macieira, voc est a?
        - Estou aqui. Bom-dia!
        - E ento, Macieira? Como vai o brao?
        - Tudo bem, obrigado.
        - Boas notcias, ento, Macieira?
        - . Eu sou bastante ligado  famlia que  dona do terreno e eles no vo opor nenhum, ahn, bice  construo da capelinha.
        - , Macieira! No tem nada que voc no consiga, hein? Nada que voc no faa por essa gente.
        - A gente faz o possvel.
        - E o caso Cand, Macieira?
        - Pois . Essas coisas acontecem. J falei com a dona Glria e ela compreendeu. Est muito abalada.
        - Vai haver um inqurito, no  assim, Macieira?
        - Exato. Mas  rotina. Eu estou tranqilo. Fiz o que era necessrio.
        Filho-da-puta, pensei.
        - Mais uma vez, obrigado, Macieira!
        - Obrigado a voc, recomendaes ao seu auditrio.
        - Grande Macieira!
        Mais ou menos s quatro da tarde, bateram na porta.
        - A porta, dona Maria! A dona Maria no ouviu.
        - Abaixa esse rdio, dona Maria!
        Eu mesmo tive que abrir a porta para o inspetor. Ele estava com o casaco sobre os ombros e um brao enfaixado.
        - Ouvi sobre o seu acidente de trabalho, Macieira.
        - No foi nada.
        Ele estava grave como sempre. Trazia ms notcias. Esperou que eu sentasse, como sempre, antes de sentar-se tambm.
        - Quem foi desta vez, Macieira?
        - O qu?
        - Que eu matei por telepatia?
        - Infelizmente, uma pessoa muito ligada a voc.
        Voc no vai conseguir, pensei. No vai, Macieira. Eu vou ganhar este jogo.
        - Quem?
        - Voc se lembra de um velho jardineiro...
        - Seu Joaquim?
        - Esse.
        Mesmo sabendo que era um jogo, uma farsa, no pude deixar de sentir o sangue congelar nas minhas veias. Sempre lera aquilo em livros, "o sangue congelou nas suas veias", e nunca sentira. Talvez uma sensao que s se tem no fim da adolescncia.
        - O Joaquim das Flores, morto? Assassinado?
        - Sim. Vrias facadas no peito.
        - Como Vishmaru, no meu livro...
        - No com os mesmos sinais, no entanto. Tinha um sete na testa.
        - Romano?
        - No. Comum.
        - Com tracinho no meio?
        - Por qu?
        - Por nada. Continue.
        - O corpo dele formava um "X ".
        - Voc tem certeza de que era um "X"? No era uma cruz?
        - No, um "X".
        - Como  o seu primeiro nome, Macieira?
        - Hein?
        - O seu primeiro nome.
        - Por qu?
        - E segredo?
        Ele fez um gesto de impacincia com a cabea.
        - Estevo, voc parece no se dar conta do que est acontecendo. Todas estas mortes, de uma maneira ou de outra, envolvem-se. Eu tenho tentado levar isto da melhor maneira possvel, mas voc precisa cooperar. Voc sabe muito bem que eu posso levar voc para depor na delegacia e...
        - Est bem, est bem. Para um amigo da famlia, tudo.
        Ele me estudou por algum tempo antes de continuar.
        - Ento. Um sete e um "X". Ah, e seu olho tinha sido arrancado.
        - Lgico.
        - Ento. Vamos...
        - Macieira, Vishmaru no morre assim no meu livro.
        - No?
        - No. Eu inventei aquilo para enganar voc. Eu sabia que ele no ia morrer daquele jeito. E sabe por que ele no morre daquele jeito? Porque Vishmaru, o bom e sbio Vishmaru,  um dos viles da histria. Ele morre com um tiro. Um tiro... onde?
        - No olho.
        - No olho csmico. No meio da testa. Dado por Conrad. E agora?
        Depois de outro longo silncio, o macio Macieira disse:
        - Voc v,  claro, o que isto significa.
        - No. O qu?
        - Que a nossa rea de investigao se reduz bastante. Se reduz ao seu crebro.
        - Espero que voc no esteja dizendo que o meu crebro  minsculo, Macieira.
        - Pelo contrrio,  um crebro to grande e potente que consegue fazer as coisas acontecerem s porque foram imaginadas. Ou ento, ou ento...
        - O qu?
        - Consegue fazer o contrrio. Consegue fazer coisas que aconteceram se tornarem imaginrias. A realidade se tornar fico.
        - Dona Maria, o rdio!
        - Um sete e um "X", Estevo. Vamos supor que  uma data. As marcas no corpo e na parede de Vishmaru indicavam uma data, no ? Na sua imaginao?
        O filho-da-puta conseguira. Eu estava na defensiva de novo. Ele continuou.
        - Pode ser sete de outubro ou...
        - Dez de julho.
        Dez de julho era o dia em que...
        - Foi o dia em que mataram o seu pai, no , Estevo?
        - Dona Maria, abaixa esse rdio!
        - Voc se lembra que, antes de morrer, a Llia marcou no seu livro, Ritual Macabro, uma cena de um assassinato na praia. Seu pai morreu na praia.
        No era uma conveno literria. O sangue congelava mesmo nas veias.
        - Tem um louco solto por a, Estevo, guiado pelo seu crebro, pela sua imaginao, espalhando pistas sobre um fato que aconteceu no dia dez de julho, h vinte anos.  um fato que todos querem ver esquecido, mas que a sua imaginao reviveu. Transformou em fico para reviver. Mas os fatos no querem ser fico, Estevo. Querem ser reconhecidos. Se voc os revive, eles querem ser revividos como fatos. E por isso que anda esse louco...
        - O louco  voc!
        - No, no, Estevo. Eu no sou o criminoso. Sou a polcia. Eu tentei me levantar, mas no acertei o ngulo da muleta. Ca de novo, pesadamente, na cadeira.
        - Saia daqui, Macieira! Saia daqui! Eu j falei com o meu irmo. Ele  advogado. Ele...
        A minha agitao o impressionara. Seus olhos pareciam ter saltado mais ainda.
        - Calma, Estevo!
        - Se no  voc o assassino, ento no existem esses assassinatos. Eu  que no sou! Vamos parar com este teatro!
        - Eu s estou querendo mostrar, Estevo, como  perigoso mexer em coisas antigas, em coisas que devem ficar sossegadas no passado. O seu crebro transforma essas coisas em histrias e cedo ou tarde elas voltam a ser realidade. Porque outras pessoas vo se lembrar delas, vo ver atravs do disfarce da fico e reconhec-las. S isso, Estevo.
        - Voc no vai entrar no meu crebro, Macieira. Nem com um mandado de busca.
        Ele sorriu.
        - Nem eu quero, Estevo. S quero que voc pare de espalhar pistas por a. Pelas paredes e os corpos das pessoas. Pare de pensar nessas coisas que elas pararo de acontecer.
        - No existiram esses crimes.
        - Existiram. A Llia apareceu de novo? No apareceu porque est morta. Se informe para saber se o Joaquim jardineiro no est morto. S no vai sair nos jornais o jeito como ele morreu porque eu no quero alarmar os vizinhos dele. A morte da Llia j correu pelo Jardim do Leste, est todo mundo com medo do louco da faca. Eu cuido da minha gente.
        - No existem os crimes. Voc inventou.
        - Existem, Estevo.
        - Ento me diga uma coisa... Era o meu trunfo.
        - O qu?
        - O primeiro crime. O da mulher no Jardim Paraso.
        - Sim?
        - Voc disse que o criminoso escreveu uma frase em grego na parede com o sangue da vtima. Exatamente como o Grego, no meu livro.
        - Exato.
        - E que uma faxineira, a Llia, apagou tudo, s deixando rastros.
        - Exato.
        - Ento como  que voc sabia que era grego? Arr!
        - Ela no apagou tudo. Ficaram...
        - Rastros, voc disse. To apagados que a imprensa no viu, segundo voc. E a imprensa examina tudo.
        - Um perito da polcia examinou a parede e...
        - No, Macieira.
        Ele me estudou por um tempo, com seus olhos saltados. Muito tempo, desta vez. Depois disse:
        - Est bem, no.
        Olhos saltados como os que eu tinha visto, uma noite, no corredor da minha casa. Uma moa andando na ponta dos ps. H muitos, muitos anos.
        Dona Maria tinha desligado o rdio. Ela apareceu na porta e se assustou outra vez com o inspetor. Depois disse que tinha deixado o jantar na geladeira e a roupa passada em cima da tbua. Ela abriu a porta para sair no momento em que chegava o rapaz da editora para pegar o pacote com os originais. Quando ela entregou o pacote, me lembrei que no tinha posto ttulo no livro.
        - O Joaquim das Flores morreu mesmo - disse Macieira.
        - Mas no com vrias facadas no peito e sem um olho.
        - No. H uns dois meses. Corao, eu acho.
        - O bom e sbio Joaquim das Flores... E a Llia?
        - Eu disse para ela no vir por uns tempos.
        - Voc manda no Jardim do Leste.
        - No, vocs mandam.
        - Ns?
        - Voc, o Toms, os irmos.
        - Voc no  herdeiro tambm?
        - Ele nunca me reconheceu. Minha me morreu na misria.
        - Mas ele falava com voc.
        - Como  que voc pensa que eu sabia tanto sobre voc? Eu nunca estive na casa, mas sabia tudo sobre ela. s vezes passava pela frente e ficava olhando a fachada, imaginando vocs I dentro, voc na biblioteca. Voc era o favorito dele.
        Ora, ora, Macieira. Ora, ora.
        - Eu gostava do velho - disse Macieira.
        - Voc estava na 8 DP. Foi com voc que eu falei naquela tarde.
        - Foi. Eu estava comeando na carreira. Comecei na 8a.
        - So Jorge Guerreiro... Qual era o seu esquema com o Francisco?
        - Eu queria falar com o velho. O Francisco tinha ficado de me avisar quando surgisse uma oportunidade.
        - Voc se dava bem com o Francisco?
        - Foi o nico dos irmos que se aproximou de mim. Ns beba-mos juntos, s vezes.
        - Voc no queria falar com o velho, Macieira. Voc queria matar o velho.
        S o rudo surdo da cidade por baixo da nossa conversa.
        - Voc tambm, no , Estevo?
        - Qual era a sua razo?
        - Ele estava pensando em despejar todo o pessoal do Jardim do Leste. Pra fazer um condomnio fechado, pra rico.
        - E voc o matou por isso. Por essa traio. No foi por outras?
        - Quem disse que eu matei?
        - Ao Olho do Divino somos todos culpados. Eu, voc, o Toms, o Francisco. Aos olhos da lei s um  culpado. Quem?
        - Voc no sabe? Estava escurecendo.
        - Eu devia saber?
        - Essa  a nossa grande dvida.
        - "Nossa"?
        - Minha e do Toms. E "deles ". O que voc viu, aquele dia. Ns nunca ficamos sabendo.
        No havia mais sol. Era primavera? Era primavera. O rumor que subia da cidade agora enchia a sala. Um terremoto sem tremor. Uma trovoada que no acabava.
        - Eu machuquei o p. Cheguei atrasado.
        - Voc no viu nada?
        - No.
        - Ou esqueceu?
        O qu, afinal? Mrtir ou testemunha?
        - No vi nada.
        - H vinte anos que ns cuidamos de voc. Para voc no nos pegar de surpresa. Botei a Llia aqui dentro para controlar voc. Para me contar o que voc dizia e fazia.
        - Ns mal nos falvamos.
        - Lamos o que voc escrevia.
        - Histrias de quinta categoria.
        - No, no. Eu gostava.
        - Voc  suspeito. E meu irmo.
        - Meio-irmo.
        - Meio suspeito.
        - E ento saiu o Ritual Macabro. Era diferente dos outros.
        - E voc e o Toms ficaram preocupados. Eu estava dando sinais de ter sucumbido  pior tentao que pode afligir um escritor de quinta categoria.
        - Qual?
        - Subir de categoria. E fatal. Passamos a cuidar dos nossos pronomes e das nossas smiles. Quando menos se espera, estamos sendo metafricos e obscuros. Depois, vem o que vocs temem. Confisses. As veias abertas em pblico. Tive problemas com Ritual Macabro. A editora queria saber se a mulher-cachorro era mulher-cachorro mesmo ou uma figura de linguagem. Respondi que era realismo mgico e que no chateassem. No quero nem pensar no que eles vo dizer do novo livro.
        - Voc j mandou o novo para a editora?
        - Vieram buscar agora mesmo.
        - Eu queria dar uma olhada...
        - No, Macieira. Vocs vo ter que esperar a publicao para saber se eu conto tudo sobre o dia dez de julho ou no.
        Ele se inclinou para tocar o meu joelho. Fraternalmente.
        - Eu sei que voc no contou.
        - Do que vocs tm medo, Macieira? Quais so os fatos que vocs no querem que eu mencione, mesmo disfarados como fico?
        - Apenas uma cena terrvel, de que ningum quer se lembrar.
        - Uma cena com um grande e respeitvel pedigree literrio, Macieira. Leia os gregos, como dizia o meu pai. Ou no leia os gregos, como tambm dizia o meu pai. Uma histria antiga. H quem diga que  a nica histria, que todas as histrias so essa histria. Ela  quase irresistvel.
        - Voc no deve mexer nesse lodo, Estevo. Pode encontrar coisas que no quer encontrar.
        Como um robe de mulher, pensei.
        - No convm - continuou o inspetor.
        Aquele "no convm" pairou no ar entre ns dois. O que ele e Toms estariam dispostos a fazer para evitar que eu, para exorcizar minhas culpas ou apenas subir de categoria literria, me tornasse inconveniente e lembrasse do que no convinha ser lembrado? O que os outros fariam?
        - Estou pensando em escrever sobre estes ltimos dias. Sobre voc, sobre estas suas visitas...
        - No convm, Estevo. Continue escrevendo as aventuras do Conrad. Como eram antes. Olhe, o meu favorito sempre foi A Maldio do Jade. Escreva outro igual.
        - Voc  que poderia escrever, Macieira. As suas histrias... Aquela da Llia se arrastando pelo cho, o sangue como um vu de noiva atrs dela... Muito bom!
        - Voc  o escritor da famlia.
        - O detalhe da frase em grego apagada foi um cochilo, mas acontece com qualquer um.
        E ento eu pensei: ou no foi um cochilo. No tem nada que o inspetor Macieira no consiga. Ele concedera o erro muito facilmente. O erro podia ser deliberado. Uma brecha para que nos aproximssemos, os dois irmos, sem simulao, sem histrias fantsticas, finalmente uma conversa aberta. To aberta que eu acabaria contando o que realmente vi na praia naquele dez de julho. Ele no est junto com o Toms. Ele est investigando o Toms. Ele quer saber se foi o Toms que matou o nosso pai. O inspetor Macieira at hoje s no resolveu um caso. Vinte anos depois do caso no resolvido, o macio Macieira continua atrs do assassino do seu pai. E do meu.
        - O que aconteceu naquele dia, Macieira?
        - Um acidente. Um tiroteio, e atingiram o seu pai.
        - Quem?
        - Um acidente.
        - Foi voc?
        - Eu entro na igreja do Olho do Divino sem piscar. Mas o Olho do Divino tambm no pisca, se a morte era necessria.
        - O Toms?
        - Um acidente.
        - O que voc foi fazer I, Macieira? Matar seu pai ou defend-lo? O Francisco o chamou porque sabia que o velho corria perigo e queria voc I, foi isso?
        - O que voc foi fazer I?
        S fui ser testemunha. E falhei.
        - Isso no vem ao caso. Eu cheguei depois do tiroteio. Eu...
        - No mexa nesse lodo - disse o Macieira.
        E bateu com a ponta dos dedos nas coxas, sinal de que ia se levantar para ir embora.
        - Como  que ficamos? - perguntou, levantando-se.
        - No se preocupe. Eu no posso contar o que no vi.
        - Isso  o que nos preocupa, Estevo. Voc contar o que no viu. Melhor contar o que nunca aconteceu. Escreva outro parecido com A Maldio do Jade.
        - Voc no vai me dizer o que aconteceu?
        - J disse. Um acidente.
        Estava escuro no apartamento. ramos dois vultos um para o outro. Duas sombras sem rosto. Um gordo e outro magro. Um recolocara o p, o outro no. O filho preferido e o filho banido.
        - Vamos continuar esta conversa outro dia - disse ele. Claro. Depois que eu falar com o Toms. Depois que eu tiver tempo de pensar sobre a conversa de hoje. No foi do pai que ele herdou essa maciez.
        - Voc feriu o p no tiroteio, aquele dia? __
        - A histria do p de cabrito,  verdade?
        - Voc quer ver?
        - No, obrigado.
        - No podia ir a um hospital. Iam fazer perguntas. Tive que recorrer ao padre Pedro.
        - Essas coisas acontecem mesmo no Jardim do Leste? Milagres? A histria do olho do padre Pedro que ficou branco?
        - Acontecem. Alis, o olho do padre Pedro ficou bom, depois que eu matei o Cand.
        - O qu?
        - Ficou. Voc devia ir I, Estevo. E descer do carro desta vez.
        - Isso  puro realismo mgico.
        - No. E misria.
        Eu ri, mas ele no. O filho-da-puta no tinha mesmo o menor senso de humor.
        Faltava fazer a ltima pergunta, talvez a mais importante de todas.
        - A Llia l mesmo os meus livros?
        - No. S l fotonovelas.
        Na sada, no escuro, ele derrubou uma pilha de livros e os empilhou de novo antes de sair, apesar dos meus protestos para que deixasse assim.
        
        NO HOSPITAL o Toms tinha me dito que fora um acidente. "Eles" tinham chegado atirando e matado o pai por engano. Mas no houve um tiroteio antes? Eu ouvi um tiroteio, vi um carro sair em disparada. No me lembro, dissera Toms, foi tudo muito confuso. Deixaram o Toms sair da priso para ir ao enterro do pai. Ele me contou tudo depois. Contou que no enterro o Francisco quase cara e quase levara o caixo e os outros irmos junto. Mas isso  outra histria. Toms saiu logo da priso. Influncia do padrinho. Gente importante.
        
        
      10
        
        
        J passou tempo desde a terceira visita do Macieira. Uma primavera, um vero, agora estamos no outono. O ar que entra pela janela no  to spero, mas o rumor da rua continua o mesmo, a cidade continua doente. O Toms tem vindo todos os meses, deixa dinheiro, nunca senta, pergunta se eu estou precisando de alguma coisa, no tem tempo, precisa ir. Eu falei das visitas do Macieira e ele disse que tudo bem, no, no, o Macieira no estava querendo reabrir caso nenhum, ele tinha razo, era melhor no mexer naquele lodo, olha, a me manda um beijo, vou arranjar algum pra limpar esta sujeira, tchau, tchau. A Llia nunca mais apareceu. A editora cortou a epgrafe e o eplogo e algumas cenas, mas, surpreendentemente, publicou o livro. Eles mesmos deram o ttulo, O Olho do Valete, no est mau. No sei o que o Toms e o Macieira pensaram do livro, o Toms no comentou nada e o Macieira no me visitou mais. Ou ainda. S sei do que ele faz pelo rdio infernal da dona Maria, o interminvel programa que a dona Maria ouve o dia inteiro, em alto volume. Construram a capelinha em memria da Valdeluz, na cerimnia de inaugurao I estava o Macieira, e quem mais chorava era Dori, o assassino. A editora pensa que eu estou escrevendo outra aventura de um Conrad, como A Maldio do Jade, e no estas reminiscn-cias que eu nem sei por que escrevo. Para que saibam que eu sabia que estavam tramando, embora no saiba o que esto tramando, nem quem. Meu testemunho  uma ameaa. Quando me instalou neste exlio - "Eu conheo um pessoal a que publica esses livros de banca, caubi, policial, coisas que voc pode fazer de olhos fechados" -, o Toms no imaginava que um dia um grego entraria numa das minhas histrias de quinta categoria e me abriria os olhos. Tarde, mas enfim eu sempre cheguei tarde para tudo. Tenho quarenta anos e recm sa da adolescncia. Mas preciso ir at o fim. E preciso mexer no lodo.
        Quando saiu do apartamento, naquele anoitecer, no fim da sua terceira visita, o Macieira derrubou uma pilha de livros e em seguida refez a pilha. Na manh seguinte eu notei que o livro que ficara em cima da pilha eu no conhecia, era um dos livros do meu pai que eu ainda no abrira. Abri-o ento e vi que o livro tinha sido escrito pelo meu pai. Uma edio particular, alguns textos reunidos em poucas pginas, talvez para distribuir entre amigos ou apenas para ter na prpria estante, o capricho de um amante dos livros com dinheiro de sobra. Uma das pginas estava marcada por um santinho, So Estevo. Era a mensagem que meu pai escolhera para eu descobrir um dia. O texto tratava de um certo baro Wolfgang von Kempelen, conselheiro da corte da Hungria, que em 1770 presenteara a imperatriz Maria Teresa com um autmato feito de madeira, um grande boneco de olhos de jade com um turbante na cabea e que, segundo o Baro, jogava xadrez como um mestre. O boneco, que era maior do que um homem comum, carregava seu prprio tabuleiro de xadrez na frente e seus olhos de jade ficavam fixos no tabuleiro enquanto ele jogava com um brao articulado, movimentando as peas com delicadeza e sacudindo a cabea quando algum adversrio tentava engan-lo. O boneco ficou conhecido em todo o mundo como o Turco. O baro von Kempelen era famoso pela sua habilidade com mecanismos, mas era bvio que algum dentro do boneco, um pequeno grande jogador de xadrez, manipulava as suas partes, escolhia os seus lances e guiava o seu brao sobre o tabuleiro. Mas sempre que desafiavam o Baro a abrir o boneco e mostrar o ano enxadrista I dentro, ele abria e mostrava que dentro do Turco s havia rodas e cilindros e as engrenagens de uma mquina como qualquer outra. S que esta mquina raciocinava e jogava xadrez. Como isto era impossvel, era inconcebvel, o grande mistrio para a poca passou a ser no como uma coisa mecnica podia raciocinar e jogar xadrez contra mestres como um mestre, mas onde ficava o ano. Vrias teorias foram propostas sobre a localizao do ano e como ele se escondia I dentro quando o Baro abria o boneco. Alguns at planejaram arrombar o boneco, mesmo com o risco de arruinarem o seu delicado mecanismo, s para descobrirem o ano, ou pelo menos o espao ocupado pelo ano quando o Turco se exibia. O Turco viajava por todo o mundo, jogou contra Benjamin Franklin na Frana e contra Napoleo na ustria, e enquanto isto crescia o mistrio, e com o tempo o mistrio se transformou numa indignidade. O Baro j se divertira o bastante, chegava a hora de mostrar ao mundo onde diabo se escondia o ano. No adiantava o Baro jurar que no havia ano nenhum. Tinha que haver um ano, alguma coisa humana dentro da mquina. O Baro decidiu ceder, e colocar um ano dentro da mquina, no dia em que o prprio Turco tocou o seu brao com sua mo de madeira, e o Baro viu nos seus olhos de jade que ele tambm queria um ano, alguma coisa quente e viva, alguma coisa que os outros pudessem compreender e amar, dentro do seu corpo. E ento o Baro contratou um ano para ficar dentro do Turco. Teve que fazer adaptaes no mecanismo para dar lugar para o ano, e isto prejudicou o Turco, que passou a jogar mal. O ano suava muito, comprimido entre as rodas e os cilindros, e isto apressou a deteriorao do mecanismo. O ano no jogava xadrez, o ano no tinha nenhum talento, sua nica razo para estar dentro do Turco era ser ano, e ele era o responsvel pelos erros e a progressiva decadncia do Turco. Mas aquele era o preo que o Turco pagava para ter alguma coisa viva e quente e amvel dentro de si, para no ser apenas um autmato. Felizmente para o Turco, que jogara com grandes mestres e imperadores e os derrotara a todos, que chegara mais perto do que qualquer homem da nica maneira perfeita de jogar xadrez, e que fatalmente acabaria seus dias como uma velha curiosidade em algum parque de diverses - mas infelizmente para o ano, que no teve tempo de sair pelo alapo -, o boneco foi destrudo pelo fogo no Museu Chins de Filadlfia em 1854.
        Esta era a mensagem. Como as frases do Grego nas paredes, apenas o vislumbre de uma mensagem. Talvez um pedido de compreenso. S no sei se do ano pela sua humanidade ou do Turco pela sua capitulao. Mas uma boa histria assim mesmo.
        Sei que um dia a chave vai girar na fechadura, a porta vai se abrir e no ser a dona Maria. Quem se sente mais ameaado pelo meu testemunho? Pelo que pensa que eu vi? Seja quem for um dia ele vai aparecer na porta. Com uma faca. Pode ser uma pistola, ningum ligaria para o tiro neste prdio barulhento, mas acho que ser uma faca. Tudo bem, vamos at o fim. A noite eu fico rodando pela sala, toc-toc, slosh-slosh, com a cara virada para a janela, ouvindo o ronco da cidade, o tubaro indo e vindo, indo e vindo. E ao longe, no fim de uma estrada banhada por um sol plido de inverno - posso sentir o cheiro de livro velho daqui -, o mar continua virando as suas pginas escuras.
        
        
      Eplogo
        
        
        O Corpo foi descoberto pela empregada, Maria das Dores. Ele estava sentado numa cadeira com a garganta cortada. No havia sinais de luta no apartamento, ele devia estar esperando o assassino. Ou a assassina, ou os assassinos. A mquina de escrever estava sobre uma mesinha ao lado da cadeira, mas s havia papis em branco junto dela. Se ele estava escrevendo alguma coisa, as folhas foram retiradas do local. Dona Maria no pde dizer se ele estava escrevendo ou no. Da cozinha no dava para ouvir o barulho da mquina, e quando ela lhe levava o almoo no prestava ateno. Como  que ele era? Um homem esquisito. Sei I. Visitas? S o irmo, que vinha uma vez por ms. Durante um tempo veio uma faxineira, I do Jardim, eu conheo, mas limpeza que  bom ela no fazia. E ele recebeu umas visitas do inspetor Macieira. E, em pessoa. Mas isso faz tempo. Vivia sozinho. No era de falar muito. Ah, teve um dia que ele me disse uma coisa. Sem mais nem menos. Eu levei o almoo e ele estava olhando para a janela, pensativo, com um sorriso na cara, e a, quando eu entreguei a bandeja, ele disse assim: "Ele tinha razo, dona Maria, eu fiquei com a casa." Sei I o que ele quis dizer.
        Ou ento:
         difcil saber qual foi o ferimento que o matou. H ferimentos em todo o corpo, eles formam um padro, mas no d para interpretar o que significa. E h uma palavra escrita na parede com sangue tambm. Numa lngua estrangeira. O engraado  que ele tem um livro em que um assassino faz exatamente isso. Mata e escreve com o sangue da vtima na parede. Que mundo, no ?
        Ou ento. Ou ento!
        Mandam chamar os pais dele, no sanatrio.  preciso fazer alguma coisa. Agora ele simplesmente se recusa a comer. Diz que nunca mais vai botar nada na boca. Primeiro, aquela mania de que no tem um p. Depois comeou a implicar com o rdio da dona Nicola, que ocupa o quarto do lado. E agora isso. O Dr. Macieira tenta conversar com ele. Mas ele no diz coisa com coisa. Acusou o Dr. Macieira de estar tentando entrar no crebro dele. E inventa uma histria mais maluca do que a outra. Est certo, ns estamos aqui para isso, mas se ele se recusa a comer, no h nada que a gente possa fazer. No aqui. Ele vai precisar de soro, essas coisas. A mquina? Ele passa o dia inteiro escrevendo. Mas, olha a, no escreve nada. So s linhas e linhas de letras sem sentido. Como se o que ele quisesse mesmo era fazer as entrelinhas.
